terça-feira, março 07, 2006

O HOMEM MEDÍOCRE

Aurea Mediocritas? por José Ingenieros

"Há uma hora em que o pastor ingênuo se assusta com a natureza que o envolve. A penumbra se espessa, a cor das coisas se reduz ao cinza homogêneo das silhuetas, a primeira umidade crepuscular levanta de todas as ervas um vapor de perfume, o rebanho se aquieta para dormir, o sino distante tange seu aviso vesperal. A impalpável claridade lunar se torna alva ao cair sobre as coisas, algumas estrelas de um arroio oculto nas brenhas parece falar de misteriosos temas. Sentado na pedra menos áspera que encontra à beira do caminho, o pastor contempla e se cala, inutilmente convidado a meditar sobre a convergência do lugar e da hora. Sua admiração primitiva não passa de espanto. A poesia natural que o envolve, ao refletir-se em sua imaginação, não se converte em poema. Ele é apenas um objeto, um quadro, uma pincelada; um acidente na penumbra. Para ele todas as coisas sempre foram assim e contuarão sendo, da terra que pisa até o rebanho que apascenta.
A imensa massa de homens pensa com a cabeça desse ingênuo pastor; não entenderia o idioma de alguém que lhe explicasse algum mistério do universo ou da vida, a evolução eterna do conhecimento, a possibilidade de aperfeiçoamento humano na contínua adaptação do homem à natureza. Para conceber uma perfeição é preciso um certo nível ético e é indispensável alguma educação intelectual. Sem isso, pode-se ter fanatismo e superstições; ideais, nunca.
Os que vivem abaixo desse nível e não adquirem essa educação permanecem sujeitos a dogmas impostos por outros, escravos de fórmulas paralisadas pela ferrugem do tempo. Suas rotinas e preconceitos parecem eternamente invariáveis; sua obtusa imaginação não concebe perfeições passadas ou futuras. O estreito horizonte de sua experiência constitui o inevitável limite de sua mente. Encontrarão nos outros uma fagulha capaz de acender suas paixões; serão possivelmente sectários. E não perceberão sequer a ironia dos que os convidam a se juntar em nome de ideais que podem seguir, mas não compreendem. Todo sonho seguido por multidões é pensado apenas pelos poucos visionários que são seus amos."

O texto acima nos revela de forma poética o quanto o ser humano tem que caminhar para alcançar uma vida decente, superando a miopia imposta pelas várias ideologias... que fetichizam a vida, carnavalizando-a...
É isso aí.

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