domingo, abril 30, 2006

Cantoras, promessas...

Sempre busquei acompanhar as novidades em torno da Música Popular Brasileira- MPB, adoro chorinho, música instrumental, gosto de música, apesar de não-tocar-nada! Mas em compensação sei carregar um violão que-é-uma-beleza! O Eduardo Bueres é testemunha...
Deixemos de divagação nefelibata, por conta do que foi dito acima, passei a comprar e procurar revistas que tivesse qualidade na informação sobre música, colecionei durante um tempo a Revista JAM(uma revista que se debruçava sobre a música brasileira, muito boa), estava no escritório arrumando os livros, puxei uma gaveta do armário, lá estavam as revistas... Comecei a folheá-las, um sentimento saudosista, uma emoção invandindo a alma, uma paz sincera...
Olhando as revistas quantas promessas de cantores(as) e compositores, resolvi compartilhar algumas dessas notícias. Na minha revista JAM nº 3 de março de 1997 , praticamente 10 anos atrás, trazia em sua capa a chamada com a foto de Belô Velloso – MPB: AS MULHERES NO PODER, BELÔ VELLOSO E UMA NOVA SAFRA DE CANTORAS DÃO O TOM.
Vamos fazer o seguinte, vou listar os nomes que eram colocados como certos para o sucesso nos anos seguintes, e se você conhecer algum que realizou a expectativa dos críticos daquela época, deixa o comentário aí no blog.
Irei reproduzir uma parte da reportagem:

“As mulheres estão virando o jogo na MPB by Pedro Autran Ribeiro.

A voz da música brasileira tem sido masculina através dos tempos. Claro, sempre houve cantoras maravilhosas, como Dalva, Ângela e Elis, mas os grandes ídolos e os músicos e compositores de prestígio são homens. Só que a geração que está chegando ao disco agora ou firmando o seu prestígio é diferente: tem voz feminina.

1. Margareth Real: aguardando o lançamento do disco.

2. Rita Ribeiro: muito prestígio antes do primeiro disco.
3. Vange Milliet: com Chico César antes do sucesso.
4. Dora Vergueiro: com música especial de Chico Buarque.
5. Silvana Stiévano: muita influência da bossa nova.
6. Márcia Salomon: revelação em festivais de Minas e Paraná.
7. Mona Gadelha: a música foi mais forte que o jornalismo.
8. Belo Velloso: tem admiração pelo trabalho de Adriana Calcanhoto.
9. Titane: um show aperfeiçoado em três anos de palco.
10. Jussara Silveira: com o Prêmio Copene, o primeiro disco-solo.
11. Mônica Tomasi: voz, composição e arranjos.
12. Renata Arruda: muita luta para começar a carreira.
13. Klébi: muito influenciada pela cidade de São Paulo.
14. Carmina Juarez: música desde pequena.
15. Tutti Baê: importante pesquisar novos autores.
16. Fernanda Froes: baixo e voz em repertório eclético.
17. Clara Moreno: “Detalhes! Em acid jazz.”

E aí?! Lembra de algum nome acima que fez sucesso nos últimos 10 anos? Se lembrar de alguém, deixa o comentário pra gente.

SHAKESPEARE APAIXONANTE

Com 7 dias de atraso, mas vale a lembrança, faz 442 anos que nasceu e 390 anos que morreu William Shakespeare, geralmente considerado o maior dramaturgo dos tempos modernos, nasceu em Stratford-on-Avon, Inglaterra, no dia 23 de abril de 1564, e morreu no mesmo dia e lugar em 1616. A sua vida foi bastante registrada em várias fontes, entretanto, sobre a sua infância, sabe-se muito pouco. Foi profundo conhecedor do latim, do grego e do inglês, sua obra evidencia o conhecimento da Bíblia, de Homero, de Plutarco, de Sêneca, dos grandes renascentistas italianos e de várias crônicas históricas.
Em 1591, elaborou seu primeiro drama histórico: Henrique IV. Seguiram-se muitos outros, destacam-se Ricardo III, O Mercador de Veneza, Romeu e Julieta...

Para homenagear a todos que visitam o blog, um trecho de Romeu e Julieta, para desatar o nó romântico que às vezes atrapalha a vida do pobre mortal... Só o amor para revelar o melhor que temos, segue o excerto:

Julieta – Somente teu nome é meu inimigo. Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montecchio. Que é um Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem outra parte qualquer pertencente a um homem. Oh! Sê outro nome! Que há em um nome? O que chamamos de rosa, com outro nome, exalaria o mesmo perfume tão agradável; e assim, Romeu, se não se chamasse Romeu, conservaria essa cara perfeição que possui sem o título. Romeu, despoja-te de teu nome e, em troca de teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!

Romeu – Tomo-te a palavra. Chama-me somente “amor” e serei de novo batizado. Daqui para diante, jamais serei Romeu.”(p.42)*

*A editora Nova Cultural lançou em 1993 as Tragédias de Shakespeare, contendo: Romeu e Julieta; MacBeth; Hamlet, Príncipe da Dinamarca; Otelo, o Mouro de Veneza.

sexta-feira, abril 28, 2006

EDUCAÇÃO E TEMPO PERDIDO

A amiga Marta Gama enviou-me uma relação atualizada das pérolas do ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio. É lamentável a dificuldade de expressão dos jovens brasileiros, quando utilizam o vernáculo pátrio, existe esperança?!... Talvez... É necessário muito investimento... Só uma revolução pode mudar esse quadro, portanto, não podemos esperar nada em curto espaço de tempo. Anos 80 e 90... Foi tempo perdido.
Já dizia o cancioneiro popular - "É pra rir e chorar...". Só estou publicando a relação, para provocar em todos uma indignação que mobilize forças... Quem corrigiu fez os comentários entre parênteses.

"O sero mano tem uma missão..."(A minha, por exemplo, é ter que ler isso!)
"O Euninho já provocou secas e enchentes calamitosas.." (Levei uns minutos para identificar o El Niño...)
"O problema ainda é maior se tratando da camada Diozanio!" (Eu não sabia que a camada tinha esse nome bonito)
"Enquanto isso os Zoutros... tudo baixo nive..."(Seja sempre você mesmo!!)
"A situação tende a piorar: o madereiros da Amazônia destroem a Mata Atlântica da região." (E,além de tudo, viajam pra caramba, hein?)
"O que é de interesse coletivo de todos nem sempre interessa a ninguém individualmente." (Entendeu ...?)
"Não preserve apenas o meio ambiente e sim todo ele." (Faz sentido)
"O grande problema do Rio Amazonas é a pesca dos peixes." (Achei que fosse a pesca dos pássaros.)
"É um problema de muita gravidez." (Com certeza...se seu pai usasse camisinha, não leríamos isso!)
"A AIDS é transmitida pelo mosquito AIDES EGIPSIO." (Sem comentário)
"Já está muito de difíciu de achar os pandas na Amazônia" (Que pena.Também ursos e elefantes sumiram de lá)
"A natureza brasileira tem 500 anos e já esta quase se acabando"(Foi trazida nas caravelas, certo ?)
"O cerumano no mesmo tempo que constrói, também destroi, pois nos temos que nos unir para realizarmos parcerias juntos." (Não conte comigo)
"Na verdade, nem todo desmatamento é tão ruim. Por exemplo, o do Aeds Egipte seria um bom beneficácio para o Brasil" (Vamos trocar as fumaças pelas moto-serras)
"Vamos mostrar que somos semelhantemente iguais uns aos outros" (Com algumas diferenças básicas!!)
"... menos desmatamentos, mais florestas arborizadas." (Concordo! De florestas não arborizadas, basta o Saara!)
"... provocando assim a desolamento de grandes expecies raras." (Vocês não sabiam que os animais têm depressão?)
"Nesta terra ensi plantando tudo dá." (Isto deve ser o português arcaico que Caminha escrevia...)
"Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos que recebemos todo dia." (Meu Deus...)
"Tudo isso colaborou com a estinção do micro-leão dourado." (Quem teria sido o fabricante? Compaq ? Apple? IBM?)
"Imaginem a bandeira do Brasil. O azul representa o céu , o verde representa as matas, e o amarelo o ouro. O ouro já foi roubado e as matas estão quase se indo. No dia em que roubarem nosso céu, ficaremos sem bandeira.." (Ainda bem que temos aquela faixinha onde está escrito "Ordem e Progresso".)
"Ultimamente não se fala em outro assunto anonser sobre os araras azuls que ficam sob voando as matas." (Talvez por terem complexo de urubus!)
"... são formados pelas bacias esferográficas." (Imaginem as bacias da BIC.)
"Eu concordo em gênero e número igual." (Eu discordo!)
"Precisa-se começar uma reciclagem mental dos humanos, fazer uma verdadeira lavagem celebral em relação ao desmatamento, poluição e depredação de si próprio." (Concordo: depredação de si mesmo!)
"O serigueiro tira borracha das árvores, mas não nunca derrubam as seringas. (Estas podem ser derrubadas porque são descartáveis)
"A concentização é um fato esperansoso para todo território mundial.." (Haja coração!)
"Vamos deixar de sermos egoistas e pensarmos um pouco mais em nos mesmos." (Que maravilha!)

domingo, abril 23, 2006

Do Desespero e da Beatitude

Anote o nome desse filósofo-professor: André Comte-Sponville. É professor da Universidade de Paris I(Panthéon-Sorbonne), abaixo reproduzi uma parte do preâmbulo do seu livro - Tratado do Desespero e da Beatitude, editado pela Martins Fontes. Ele começa dizendo:

"Nosso tempo seria o tempo do desespero. A morte de Deus, o perecimento das Igrejas, o fim das ideologias... Mas vejo nisso muito mais uma obra do cansaço. Por estarem decepcionados, crêem-se desesperados... Mas, se estivessem de fato desesperados, não estariam decepcionados. Nosso tempo não é o do desespero, mas o do desapontamento. Vivemos o tempo da decepção.

(...) Não há vida verdadeira senão sonhada.
A filosofia é a verdade desse sonho, e o sonho dessa verdade. Ela não impede de ser infeliz, pelo menos no caso dos aprendizes que somos. Não dispensa de sofrer. Mas pode nos ensinar a felicidade. Porque esta nunca é dada. A felicidade não se deve ao acaso nem é um presente do destino. Não é, por exemplo, a ausência de infelicidade, sua simples negação. A infelicidade é um fato; a felicidade não. A infelicidade é um estado, a felicidade não. No limite: a felicidade não existe. É necessário, portanto, inventá-la.
A felicidade não é uma coisa; é um pensamento. Não é um fato; é uma invenção. Não é um estado; é uma ação. Digamos a palavra: a felicidade é criação. Mas essa criação não cria nada fora dela mesma. É uma práxis, diria Aristóteles, e não uma poese. Viver é criar sem obra. A filosofia é a teoria dessa prática, que seria a própria felicidade, se pudéssemos ter êxito. Em todo caso, podemos tentar, pois o próprio Spinoza, "o mais íntegro de todos os sábios" (segundo Nietzsche), convida-nos a fazê-lo e nos acompanha nesse intento: "Embora o caminho que mostrei levar até lá pareça extremamente árduo, pelo menos podemos tomá-lo. Por certo, deve ser árduo o que é tão raramente encontrado. Como seria possível, se a salvação estivesse à mão e se pudéssemos percorrê-lo sem grande dificuldade, que fosse desprezado por quase todos? Mas tudo o que é belo é difícil, tanto quanto raro."

sábado, abril 22, 2006

CESUPA - MAX WEBER

Queridas(os) alunas(os),
Conforme havíamos combinado, estou encaminhando os questionamentos sobre Max Weber, cada questão irá valer 0,25 pt.
Com a leitura do texto entregue a todos, sem desprezar a consulta de outros livros em nossa biblioteca, com certeza encontraremos facilidades imensas em responder as questões abaixo:

1 - Por que no século XIX o pensamento da intelectualidade alemã e de Max Weber se distanciaram do pensamento da intelectualidade francesa e inglesa?
2 - Por que a ação social é o objeto de estudo da sociologia de Max Weber?

Para a turma da manhã este trabalho deverá ser entregue na 5ª feira(27/04), enquanto que a turma da noite pode entregar na 4ª feira(26/04).

Um abraço,
Prof. Pedro

sexta-feira, abril 21, 2006

FERNANDO PESSOA, SUA POESIA & SEUS HETERÔNIMOS



Estive visitando o blog do amigo Colher, li a poesia de Álvaro de Campos, linda e existencialista, com a foto de Fernando Pessoa ilustrando a poesia, ao final o blogueiro expõe que Álvaro de Campos conheceu Alberto Caeiro, este tornando-se mestre daquele...
O amigo Colher foi traído pela genialidade de Fernando Pessoa.
Jacinto Coelho explica: "Cerebral e retraído, inimigo da expansão ingênua, Fernando Pessoa concebeu o projeto de se ocultar na criação voluntária, fingindo indivíduos independentes dele - os heterônimos -, e inculcando-os como produtos dum imperativo alheio à sua vontade" (Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, p. 9). A palavra heterônimo com a última acepção dada por Jacinto, parece haver começado a circular após o surgimento de Fernando Pessoa(1888-1935), grande poeta português, que, além de usar o próprio nome em diversas produções, muitas assinou com os nomes - Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, e outros, poetas, cada um destes, de características bem individuais, tanto nos meios expressivos quanto na substância, e até com biografias, curiosamente inventadas por Fernando Pessoa. Nessa diferença de características entre as obras das criaturas e as do criador é que reside a distinção entre o heterônimo e o pseudônimo.
Já em 1894, Fernando Pessoa criava o seu primeiro heterônimo - Chevalier de Pas.
Fernando Pessoa deu um nó na cabeça de muita gente, conseguiu ser muitos-em-um, até o nosso amigo Colher foi vítima de Pessoa.
Agora vamos relaxar com uma poesia de Fernando Pessoa:

" NAVEGAR É PRECISO

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

[Nota de SF
"Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu]



Entrevista com Umberto Eco

Recebo o jornal argentino La Nación, que trouxe uma entrevista muito boa com Umberto Eco, realmente é um dos maiores intelectuais do momento. Prestem atenção quando Eco faz referência sobre o momento de falar e calar, não serve apenas para os intelectuais... serve para todo ser pensante. Vamos à entrevista, foi feita uma livre tradução, aproveitem:

"O intelectual também está obrigado a calar"

O escritor italiano fala sobre política

MILÃO.– “Era pouco antes de Natal e eu estava reunindo uma série de meus escritos inéditos de filosofia e história da semiótica que havia prometido a meu editor quando, ao receber o pedido de alguns artigos publicados no Corriere della Sera, me dei conta de que era mais urgente reunir meus artigos destes últimos anos, os da época Bush-Berlusconi.” Sentado no divã de sua casa milanesa que dá para os jardins branqueados do Castello Sforzesco, Umberto Eco fala assim de seu novo livro. “A passo di gambero. Guerre calde e populismo mediatico” (“A passo de caranguejo. Guerras acaloradas e populismo mediático”), lançado na Itália em fevereiro passado, recolheu neste livro artigos e ensaios inéditos, além de intervenções em congressos. Todos os textos foram escritos entre 2000 e 2005.

Cinco anos de política e de costumes segundo um dos maiores escritores e ensaístas italianos, o mais conhecido no estrangeiro, cujo nome aparece sempre quando qualquer revista internacional publica a lista dos intelectuais mais influentes do mundo: no ano passado, o autor de “O nome da rosa” e do “Tratado de semiótica” se encontrava entre os primeiros vinte da lista compilada pela publicação estadunidense Foreign Policy.
É natural que seu nome seja citado nas discussões acerca da relação entre os intelectuais de esquerda e a política. O mesmo tem dedicado a esse argumento algumas páginas de seu novo volume. "O intelectual -escreve Eco- desenvolve a sua própria função crítica não propagandística somente (e antes de tudo) quando sabe falar contra sua própria parte." Sem dificuldade, recentemente o filosófo Gianni Vattimo e outros intelectuais têm acusado Eco de atacar sempre o adversário político, Berlusconi, esquecendo de por em evidência o seu próprio grupo político. "Muitas vezes -responde o professor- sou acusado de calar, quando isso não era assim. Um escritor italiano, bastante importante, chegou a sustentar uma vez que eu não havia me pronunciado contra a perseguição de Salman Rushdie, porque Rushdie havia resenhado negativamente um livro meu. Respondi ao jornalista que me perguntara pelo motivo dessa acusação citando-lhe todos meus artigos a respeito, como, por exemplo, uma página inteira de The New York Times paga por escritores de todo o mundo. O jornalista transmitiu minha resposta ao acusador, que disse: «Não estou obrigado a ler todas as coisas que escreve Eco». Este gracioso episódio demonstra que é muito fácil construir uma lenda. Ademais, por uma módica cifra posso sacar de meu computador todas as minhas intervenções críticas sobre a esquerda, começando por um artigo de Quindici, a revista que dialogava com o protesto, atacando o hábito de «ocupação» das diversas instituições culturais. Em relação a repetição das críticas a Berlusconi, há que perguntar-se se a crítica política é o que se repetiu ou se a repetição foi o seu comportamento obsessivo. Veja, nos cinco anos transcorridos, a Itália tem entrado num caminho da decadência. Se seguirmos assim, nos converteremos definitivamente num país de Terceiro Mundo. Imagine se ante semelhante perigo me pusesse a falar da esquerda."
Por outro lado, Eco tem suas próprias idéias acerca de qual deve ser a relação dos intelectuais com o silêncio e com a palavra. "O intelectual não é um grilo falante que deva pronunciar-se sobre todos os temas, de modo que também tem a obrigação de calar-se, sobretudo quando se trata de coisas que não sabe", disse.

Fonte: La Nación

Aos incautos, reflitam sobre os ensinamentos de Eco, não se deve falar sobre tudo, ou melhor dizendo, não devemos escrever desbragadamente sobre o que não temos domínio, primeiro cautela, depois a transpiração (esforço&leitura&estudo) e por último a satisfação de conhecer para transformar...

Um abraço no amigo Colher (não disfarça, não adianta ficar vermelho, nós já sabemos o motivo do apelido, fique tranqüilo... fizemos um pacto para não contar p'ra mais ninguém... ufa! que alívio heim?!)

quarta-feira, abril 19, 2006

O QUE É O JUSNATURALISMO?

A partir da leitura do texto: As ideologias e o direito: enfim, o que é Direito? do livro: O direito achado na rua, da Editora UNB, 1990.

O Jusnaturalismo é um ideal jurídico superior, apriorístico, cuja realidade se encontra fora do espírito humano, e a ele se impõe. Esta concepção fundamentou-se, ao longo da História, em princípios de conduta que teriam sido revelados por Deus, apreendidos pela Razão, inspirados pela Natureza, e por último, pela Sociedade para formar um sistema de princípios universalmente válidos, que deveria servir de pressuposto aos sistemas de direito positivo, como forma de aferir-lhes a justiça, e, conseqüentemente resolver de modo adequado o problema das desigualdades sociais, políticas e econômicas dos diversos núcleos sociais.

No pensamento de John Locke a propriedade é um direito natural, inclusive esta foi declarada sagrada pela Revolução Francesa de 1789, na Declaração dos Direitos dos Homens a Assembléia Nacional reconhece e declara, na presença e sob os auspícios do Ser Supremo, que a propriedade é um direito inviolável e sagrado (art. 17), aliás, o único direito que mereceu o adjetivo sagrado no texto. Nos dias de hoje é fartamente demonstrado que não existem direitos fixos e universais, no caso da propriedade a sua socialização é questão superada, visto que as legislações hodiernas fazem referência à função social da mesma.

Os juristas Roberto Lyra Filho e Michel Miaille, dentre muitos, consideram que houve uma evolução na utilização do Direito Natural. Lyra Filho concebe o direito natural tendo uma função de arma de combate, denominando-o de direito natural histórico-social, através do qual as sociedades questionariam a ordem estabelecida.

Miaille sustenta que é preciso compreender a utilização das noções do direito natural, quer no plano interno quer no plano internacional:

- Plano interno: numerosas reivindicações se colocam no terreno dos direitos naturais – as reivindicações de liberdade em um país onde o governo ditatorial oprime o seu povo; é em nome dos direitos do homem que são pedidas as transformações constitucionais, administrativas ou políticas.

- Plano internacional: nos discursos dos diversos delegados à ONU se utilizam as noções jusnaturalista. Certamente, as expressões “justiça”, “direito dos povos a dispor de si mesmos”, “igualdade” ou “dignidade” não têm o mesmo sentido segundo a nacionalidade do representante.

Uma observação que se pode fazer sobre o discurso do direito natural, a sua teoria é de natureza ideológica, não consegue explicar a realidade, apresentando uma utilidade prática, que tanto pode servir a um regime opressor, como pode tornar-se uma arma de combate às injustiças sociais. Nenhuma das duas teorias, tanto o jusnaturalismo quanto o juspositivismo, responde com inteireza a indagação fundamental – O que é Direito? As duas teorias não conseguem explicar o fenômeno jurídico na sua totalidade.

Os juristas passaram a fundamentar a eficácia das normas na própria experiência da sociedade, dentro do processo histórico, inaugurando uma visão concreta, aglutinadora e totalizante do fenômeno jurídico – a concepção dialética.

O formalismo jurídico representa uma forma de escamotear o conteúdo perverso de parte da legislação e de sua aplicação no seio da sociedade. Priorizar a forma da Ciência Jurídica sobre seu conteúdo é uma atitude ideológica, a qual busca atuar na realidade, invertendo valores. A qualidade de vida perde importância e, em seu lugar, o Direito prioriza o rito, o procedimento, as formas estabelecidas pela lei. Não importa se a população está morrendo, mas, isso sim, se as relações jurídicas obedecem às formalidades estatuídas nas normas estatais.


É neste sentido que o legislador deve levar em conta as mudanças ocorridas no seio da sociedade, positivando sem a pretensão de que a norma jurídica represente uma verdade absoluta, as demandas sociais devem ser atendidas na medida que se estabelece um equilíbrio de classes, salvaguardando-se, desta forma, a possibilidade de realização da justiça social.

terça-feira, abril 18, 2006

Massacre de Carajás completou dez anos nesta segunda-feira sem conclusão judicial

Da Revista eletrônica Última Instância, João Novaes escreve sobre o trágico episódio que ficou conhecido como o Massacre de Carájas.

Para não esquecer do confronto armado que culminou com a morte de 19 integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

"No dia 17 de abril de 1996, próximo à cidade de Eldorado dos Carajás, no Estado do Pará, um grupo de 155 policiais militares entrou em confronto com integrantes do movimento que bloqueavam uma das estradas da região por conta de uma manifestação. Além do elevado número de mortos, mais de 50 camponeses ficaram feridos.Dez anos após o episódio, que teve grande repercussão nacional e internacional, nenhum dos envolvidos se encontra preso. Os dois policiais que comandaram a ação chegaram a ser condenados em júri popular, além de terem perdido seus cargos, em decisão favorável ao Ministério Público daquele Estado. O coronel Mário Colares Pantoja pegou 228 anos de prisão, enquanto o major José Maria de Oliveira teria que pagar 158, ambos em regime fechado. Mas eles recorreram e aguardam uma decisão em liberdade.Em novembro de 2004, o TJ-PA (Tribunal de Justiça do Pará) confirmou em segunda instância a sentença do júri. Entre os sobreviventes da ação policial, nenhum sem-terra conseguiu indenização pelos ferimentos – alguns deles tiveram membros mutilados. Os advogados do movimento atuam como assistente de acusação nos julgamentos do caso.O contra-ataque da defesa, os dois policiais se encontram soltos devido a habeas corpus recentemente concedidos pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Todos os outros policiais, de patentes mais baixas e que sofreram ação conjunta, foram absolvidos pelo júri.A condição dos dois militares ainda pode melhorar. Em dezembro de 2005, a defesa de Pantoja conseguiu fazer chegar um recurso especial ao STJ (Superior Tribunal de Justiça), que está sendo analisado pela ministra Laurita Vaz. Ele pede a anulação do julgamento do Tribunal do Júri, o que faria o caso voltar para a primeira instância. Caso o STJ decida a favor da defesa, os dois policiais estariam, na prática, absolvidos, pelo menos até próxima decisão do Tribunal do Júri, que teria que recomeçar seus trabalhos do zero.O coronel Mário Colares Pantoja cumpria pena no 2° Batalhão da PM até agosto do ano passado, quando o ministro do Supremo Cezar Peluzo concedeu habeas corpus a pedido da defesa. Segundo a assessoria de imprensa do STF, o ministro entendeu que "a garantia constitucional não tolera execução provisória de sentença condenatória antes do trânsito em julgado" (quando não cabe mais recurso) – argumento apresentado pela defesa.Um mês depois, Peluso estendeu os efeitos do habeas corpus concedido a Pantoja ao major Oliveira. José Maria de Oliveira também ganhou liberdade através de habeas corpus concedido pelo STF, em 15 de outubro de 2005. Ele chegou a cumprir pena em um quartel do Comando Geral da Polícia Militar durante quase um ano, entre novembro de 2004 a outubro de 2005. Seu habeas corpus foi deferido com base no princípio de presunção de pena. A reportagem de Última Instância entrevistou o promotor do MP-PA (Ministério Público do Pará) Marco Aurélio do Lima do Nascimento, a quem coube a acusação, e o advogado do coronel Pantoja, Roberto Lauria, a respeito da demora na solução do caso. Para Lauria, que também diz lamentar a demora, a situação "é fruto das falhas investigativas no processo", pois "nunca se descobriu os verdadeiros autores das mortes". De acordo com o advogado, elas teriam decorrido de uma situação progressiva de desgaste entre o MST e as tropas da polícia local. Ele considera que não se pode atribuir a culpa ao coronel e, por conseqüência, ao major, por causa de atos de “três, quatro ou cinco policiais” que teriam se excedido às ordens do comando. O promotor Marco Aurélio Lima do Nascimento atribui, em parte, ao Judiciário, a demora na conclusão desse caso." O promotor diz não acreditar que o STJ anule a decisão do júri, que afirma considerar correta e soberana. "Não há o que se contestar."No entanto, diz que nada pode fazer a não ser aguardar. Sobre o argumento da defesa de que os culpados seriam apenas alguns policiais, ele cita o artigo 29 do Código Penal. “Ele é claro: quem concorre para o crime incide nas penas a esse cominadas na medida de sua culpabilidade. Portanto, não são somente os atos de execução que têm responsabilidade criminal, mas também a quem dá ordem de comando". Nascimento cita alguns fatos que considera suficientes para provar a responsabilidade dos dois policiais. "Durante todo o julgamento, eles sempre declararam estar à frente no comando das operações, em nenhum momento alegaram que não estavam lá. Isso os torna responsáveis pelas execuções sumárias – e os laudos provam que elas ocorreram. as provas individuais são suficientes. Sem contar que fizeram de tudo para prejudicar as investigações: retiraram os corpos do local para impedir o trabalho da perícia, tiraram os próprios números de identificações e os das armas. Tudo isso só teria ocorrido passando pelo comando deles (Pantoja e Oliveira)".Segundo Nascimento, o aniversário de dez anos do massacre de Carajás "é um capítulo negro na história de nosso Judiciário, como muitos outros casos, mas o Ministério Público ainda acredita que ainda se possa fazer justiça, apesar de tão longa demora". (Domingo, 16 de abril de 2006)

É esperar e verificar, o mundo dá muitas voltas...

sexta-feira, abril 14, 2006

Chico Science

Estou escutando Zeca Baleiro, mais uma vez constato o quanto o Brasil é rico culturalmente... Como uma brisa que invade o nosso aposento quase sem querer, a lembrança de Chico Science não saiu da minha cabeça, o jovem inquieto artista pernambucano era provocador e muito consciente do papel a desempenhar numa sociedade profundamente injusta como a pernambucana, e de resto todo o Brasil.
Tão cedo, tão jovem, perdeu a vida num acidente automobilístico... Uma pena...

Mas, ficam os versos abaixo, com uma vontade de mudar o mundo.
Salve Chico Science!!!!!!


"Modernizar o Passado
É uma Evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui
Não preciso delas!

Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrôgancia, a glória
Enche a imaginação de domínio

São demônios que destroem o poder
Bravio da humanidade

Viva Zapata!
Viva Sandino!
Viva Zumbi!
Antônio Conselheiro!
Todos os Panteras Negras
Lampião Sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza eles também cantaram um dia." (Chico Science)

Morre em São Paulo o Jurista Miguel Reale


Morreu na madrugada desta sexta-feira o jurista e advogado Miguel Reale, 95 anos, por causa de um enfarte do miocárdio, enquanto dormia em sua casa, na cidade de São Paulo.
O velório vai acontecer na casa do jurista, no bairro dos Jardins.
Reale era membro das academias Paulista e Brasileira de Letras e professor emérito da Universidade de Sao Paulo (USP), e é considerado o "pai" do novo Código Civil Brasileiro.
Advogado desde 1934, ele foi reitor da USP em 1949 e novamente em 1969 e atuou como Secretário da Justiça do Estado de São Paulo também duas vezes, em 1947 e 63.
Fonte: Redação Terra

quinta-feira, abril 13, 2006

Centenário de Mário Quintana

"... Não sei que paisagista doidivianas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
A rua dos cataventos, Mário Quintana - estrofes da poesia I

A editora Globo reeditou a obra desse consagrado artista brasileiro, enfocando o período de maior produtividade, entre 1940 e 1980.
Em 2006 comemoramos o centenário do autor de versos tão singelos "... eles passarão, eu passarinho...", Quintana nasceu na cidade de Alegrete, Rio Grande do Sul, nome completo - Mário de Miranda Quintana (1906-1994), seu primeiro livro de poesias - A rua dos cataventos, publicado em 1940.

"Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão", eis o poeta por completo, autêntico e singelo...
Ao longo de sua carreira, Quintana produziu, além das consagradas coletâneas de poesias, textos voltados ao público infanto-juvenil e crônicas para jornais.

Com o passar do tempo os bons frutos dessa "luta amorosa com as palavras" que o poeta empreendia, acabou preenchendo com versos preciosos o imaginário do povo brasileiro.

O Suicídio segundo Karl Marx

Resolvi reproduzir parte de artigo publicado no Jornal O Estado de São Paulo de 11/3/2006 sobre o livro de Marx.

"O suicídio segundo Marx e a Polícia
Ainda jovem, ele estudou o tema a partir de pesquisas de um arquivista policial e seu ensaio é uma das atrações da 19.ª Bienal, by Sérgio Augusto

Aquilo que Albert Camus qualificou de "o único problema filosófico realmente sério" acaba de ganhar, entre nós, um surpreendente exegeta: ninguém menos que Karl Marx (1818-1883). Quando jovem, relativamente fresco em filosofia, interessou-se pela questão do suicídio e tentou destrinchá-la a partir das estatísticas de um ex-arquivista da polícia parisiense. O ensaio resultante, Peuchet: vom Selbstmord, foi publicado em 1846, numa revista proletária alemã, e por quase um século andou esquecido. Até na Alemanha.
Sua tradução brasileira (Sobre o Suicídio, 84 págs.), feita diretamente do alemão e uma das atrações da editora Boitempo na Bienal do Livro de São Paulo, é melhor que a francesa (de 1983, pela Gallimard) e tem mais notas que a inglesa (de 1975), igualando-se às que franceses e ingleses publicaram em 1992 e 1999, respectivamente.
É um "Marx insólito", resume, na introdução, Michael Löwy. É mesmo. Na escolha do tema, aparentemente fora da alçada do materialismo dialético, e na maneira como o xamã do comunismo o aborda, sem desprezar as vítimas das classes privilegiadas. Ao perscrutar as angústias da vida privada, mediada pelas relações de classe na sociedade burguesa, Marx antecipa temas que voltaram a ser destaque nesta semana, como a opressão da mulher e o direito ao aborto.
Sem falar, é claro, na questão principal, o suicídio ("Selbstmord", em alemão), assunto sempre atual e particularmente melindroso, de uns tempos para cá, entre os militares brasileiros - e que Marx teria sentido na própria carne, caso tivesse vivido mais 15 anos. Em 1898, sua filha caçula, Eleanor, cometeu o que há 15 séculos a Igreja, inspirada por Santo Agostinho, enquadrou na categoria de pecado mortal.
O "Peuchet" do título original é o sobrenome de Jacques Peuchet, o francês de cujas estatísticas sobre suicídios (2808, só em Paris, entre 1817 e 1824) Marx se valeu para refletir sobre o que Freud entendia como uma agressão introjetada e Nietzsche, como um grande consolo para noites difíceis. Peuchet, que morreu em 1830 aos 72 anos, não era filósofo, nem economista, e muito menos socialista. Estudara medicina, dirigira um jornal monarquista e exercera vários cargos públicos, entre os quais o de arquivista policial. Já não estava mais neste mundo havia oito anos quando publicaram as suas Mémoires Tirés des Archives de la Police de Paris, coleção informal de incidentes e episódios ligados a suicídios, seguidos de alguns comentários dignos de um perspicaz crítico social, que Marx aproveitou e misturou aos seus.
Na Paris daquele tempo, a maioria das pessoas se suicidava por motivos que ainda hoje pesam: doenças, depressão, fraqueza de espírito, paixão, miséria, desemprego, brigas e desgostos domésticos. E, preferencialmente, por afogamento, quase sempre no rio Sena.
Um dos casos recolhidos por Peuchet teria inspirado O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, por sinal, um dos livros de cabeceira de Marx. Esse detalhe não consta do ensaio, cuja origem (as memórias de um policial, ainda por cima monarquista) só parecerá espúria a quem não conhece Marx suficientemente bem; a quem desconhece que ele não achava imprescindível ser socialista para criticar a ordem estabelecida; a quem ignora que ele aprendeu muito mais sobre a sociedade francesa na ficção de Balzac, de Eugène Sue, e muito mais sobre a sociedade inglesa lendo Charles Dickens do que gramando tomos e mais tomos de análises políticas, econômicas e sociológicas.
O que mais o entusiasmou nos comentários de Peuchet foi sua concepção do suicídio como sintoma de um meio social doente, necessitado de uma transformação radical. A sociedade burguesa, escreve Marx, citando Peuchet, que, por sua vez, cita Rousseau, "é um deserto, habitado por bestas selvagens". Cada indivíduo, isolado dos demais, vive numa espécie de "solidão em massa". As pessoas agem entre si como estranhas, hostilizando-se mutuamente, metidas em "luta e competição impiedosas", ora como vítimas, ora como carrascos, caminho aberto para o desespero, o desatino - e o suicídio.
Desgraça democrática, a ela estão sujeitas todas as classes sociais. As causas variam (os mais abastados se deixam atormentar mais por doenças incuráveis, traições, rivalidades sufocantes, desilusões amorosas, sofrimentos familiares, crise nos negócios, tédio e monotonia), mas a censura ao ato é tão uniforme quanto a insensibilidade dos moralistas que o condenam como algo antinatural, um sinal de fraqueza, um gesto covarde, um crime contra as leis, a sociedade e a honra. "Não é com insultos aos mortos que se enfrenta uma questão tão controversa", adverte Marx.
Antinatural o suicídio não é. Se o fosse, argumenta Marx, não seríamos testemunhas diárias de sua naturalidade. Poderia ter ressaltado o aspecto prometéico do suicídio - que o transfigura num ato de coragem e num desafio à natureza e à autoridade divina -, mas preferiu criticar a Igreja por outras vias. Para ele, o clero que recusa aos suicidas uma sepultura e um lugar nas verdes pastagens do Senhor não merece ser chamado de religioso. Insensível e covarde, sim. Com que direito podemos exigir do indivíduo "que preserve em si mesmo uma existência que é espezinhada por nossos hábitos mais corriqueiros, nossos preconceitos, nossas leis e nossos costumes em geral?", pergunta o jovem Karl, do alto dos seus 28 anos de vida.
(...)

Nas últimas três décadas, a onda não refluiu. O teórico marxista Nicos Poulantzas (nascido na Grécia mas francês por opção) atirou-se do 22º andar de uma torre parisiense, em 1979. Dizendo-se "velho, vexado e humilhado", Roger Stéphane, discípulo de Gide, deu um basta às suas aflições em 1994. Nos anos seguintes, Gilles Deleuze, o situacionista Guy Debord e Sarah Kofman (austera filósofa ligada a Jacques Derrida) entraram para o limbo dos malditos onde penam as almas de Sócrates, Petrônio, Cleópatra, Van Gogh, Mayakovsky, Virginia Woolf, Hemingway, Sylvia Plath, Getúlio Vargas, Yukio Mishima e tantas outras exceções que justificam a regra de que francês adora se matar. Também foi por isso que Emma Bovary tornou-se a mais célebre heroína ficcional da França."

Maurício Leal Dias, como um bom marxista, deve correr para o site da Livraria Cultura e solicitar imediatamente o seu exemplar.
Aos saudosistas estrelados uma boa Páscoa!
Nada de desespero, basta ler Marx, e os vossos corações se acalmarão...

domingo, abril 09, 2006

SONHOS DA MENINA - Cecília Meireles

Do livro que minha filha está lendo, me chama atenção a figura da capa - uma garotinha com os cabelos encaracolados e compridos, numa mão um regador, noutra uma sombrinha aberta e um burro sobre, um pé descalço, outro com uma meia enorme, a menina se equilibra na meia-lua com as estrelas ao fundo... O título do livro -"Ou isto ou aquilo", é poesia!!! De Cecília Meireles...
Curiosidade gostosa, folheando o livro preguiçosamente, mergulhando na atmosfera criada pela autora, me pego sorrindo... Realmente, os poetas revelam mundos que nossa sensibilidade é incapaz de perceber... Olho para minha filha dormindo, volto o olhar para as páginas são dobradas uma-a-uma, com muito cuidado, paro, medito e mergulho nas fantasias(outros mundos) criadas por Cecília Meireles... Venha você, pelo menos por alguns segundos, conhecer o mundo tecido pela poetisa com linhas invisíveis...

"Sonhos da menina
A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha...

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?"

Aos amigos Sílvio Meira, Rogério Friza e Duda Bueres - Uma boa semana para todos e muita saúde!!!!!

segunda-feira, abril 03, 2006

O Paraíso das mulatas

"O Brasil é o inferno dos negros, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos... e das mulatas." A autoria da frase é atribuída ao padre jesuíta João Antônio Andreoni, mais conhecido como Antonil (autor de Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas) e datada de 1711. É dele de fato, mas trata-se de uma adaptação. De acordo com o jornalista Alberto Dines, a expressão é na verdade de origem inglesa e o autor é John Florio, que afirmou: "A Inglaterra é o paraíso das mulheres, o purgatório dos homens e o inferno dos cavalos." A primeira versão em língua portuguesa é de D. Francisco Manuel de Melo, fidalgo e escritor, degredado na Bahia do século XVII. Antonil foi o segundo a publicar a frase em português. Só acrescentou, de pessoal, a sua homenagem às mulatas da terra. (Em Vínculos do fogo, de Alberto Dines.)

Vergonha na cara

"Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara." (Artigo único da Constituição proposta pelo historiador Capistrano de Abreu, segundo o qual os problemas do Brasil não estavam nas leis.)

"Reco-reco"

Como ensinar missa em latim a escravos africanos que às vezes nem sabiam português? Este foi um problema para a Igreja no período colonial. Um criativo jogo de corruptelas acabou, no entanto, resolvendo as coisas.
Na boca dos escravos, "resurrexit sicut dixit" ("ressuscitou, assim como disse") virou, por exemplo, "reco-reco Chico disse".
Os padres não ligavam. O que importava para eles, afinal, era muito mais a conversão pela fé do que o latinório. (Em Ser escravo no Brasil, de Kátia de Queirós Mattoso)

Abertura...

"É para abrir mesmo. Quem não quiser que abra, eu prendo e arrebento!" (Presidente João Figueiredo, em 1978, confirmando a abertura política do seu governo e externando sua visão singular de democracia.)