domingo, abril 23, 2006

Do Desespero e da Beatitude

Anote o nome desse filósofo-professor: André Comte-Sponville. É professor da Universidade de Paris I(Panthéon-Sorbonne), abaixo reproduzi uma parte do preâmbulo do seu livro - Tratado do Desespero e da Beatitude, editado pela Martins Fontes. Ele começa dizendo:

"Nosso tempo seria o tempo do desespero. A morte de Deus, o perecimento das Igrejas, o fim das ideologias... Mas vejo nisso muito mais uma obra do cansaço. Por estarem decepcionados, crêem-se desesperados... Mas, se estivessem de fato desesperados, não estariam decepcionados. Nosso tempo não é o do desespero, mas o do desapontamento. Vivemos o tempo da decepção.

(...) Não há vida verdadeira senão sonhada.
A filosofia é a verdade desse sonho, e o sonho dessa verdade. Ela não impede de ser infeliz, pelo menos no caso dos aprendizes que somos. Não dispensa de sofrer. Mas pode nos ensinar a felicidade. Porque esta nunca é dada. A felicidade não se deve ao acaso nem é um presente do destino. Não é, por exemplo, a ausência de infelicidade, sua simples negação. A infelicidade é um fato; a felicidade não. A infelicidade é um estado, a felicidade não. No limite: a felicidade não existe. É necessário, portanto, inventá-la.
A felicidade não é uma coisa; é um pensamento. Não é um fato; é uma invenção. Não é um estado; é uma ação. Digamos a palavra: a felicidade é criação. Mas essa criação não cria nada fora dela mesma. É uma práxis, diria Aristóteles, e não uma poese. Viver é criar sem obra. A filosofia é a teoria dessa prática, que seria a própria felicidade, se pudéssemos ter êxito. Em todo caso, podemos tentar, pois o próprio Spinoza, "o mais íntegro de todos os sábios" (segundo Nietzsche), convida-nos a fazê-lo e nos acompanha nesse intento: "Embora o caminho que mostrei levar até lá pareça extremamente árduo, pelo menos podemos tomá-lo. Por certo, deve ser árduo o que é tão raramente encontrado. Como seria possível, se a salvação estivesse à mão e se pudéssemos percorrê-lo sem grande dificuldade, que fosse desprezado por quase todos? Mas tudo o que é belo é difícil, tanto quanto raro."

6 comentários:

Danniella disse...

Olá Pedro. Obrigada por sua visita!
Coincidentemente estive falando sobre felicidade em outro blog hoje! Aliás, pra ser mais precisa, falávamos sobre ter prazer em viver uma vida cheia de atropelos e que, por vezes, é difícil encontrar sentido pra ela. O texto é ótimo. Um grnade abraço!

citadinokane disse...

Danniella,
Obrigado por visitar o blog. Eu diria reproduzindo Vinícius de Moraes "que a felicidade é uma gota de orvalho numa pétala de flor...".
Um abraço,
Pedro

Marco Aurélio disse...

Pedro

Fiz um post com uma enquête sobre qual é o Pior apresentador (programa) da televisão brasileira. Gostaria que você comentasse e votasse.

Um abraço

Marco Aurélio

citadinokane disse...

Marco,
Já votei.
Um abraço,
Pedro

Monique disse...

Gostei muito do texto. Entrei aqui porque coloquei o nome desse livro no google e apareceu seu blog. Eu estava pensando em compra-lo, está em promoçao no submarino. Deve ser interessante, naó? Abraço! Monique

citadinokane disse...

Monique,
Eu gostei.
Leia com calma, refletindo... Li bebericando um Dry Martini, ahahaha...
abraços