sexta-feira, abril 21, 2006

Entrevista com Umberto Eco

Recebo o jornal argentino La Nación, que trouxe uma entrevista muito boa com Umberto Eco, realmente é um dos maiores intelectuais do momento. Prestem atenção quando Eco faz referência sobre o momento de falar e calar, não serve apenas para os intelectuais... serve para todo ser pensante. Vamos à entrevista, foi feita uma livre tradução, aproveitem:

"O intelectual também está obrigado a calar"

O escritor italiano fala sobre política

MILÃO.– “Era pouco antes de Natal e eu estava reunindo uma série de meus escritos inéditos de filosofia e história da semiótica que havia prometido a meu editor quando, ao receber o pedido de alguns artigos publicados no Corriere della Sera, me dei conta de que era mais urgente reunir meus artigos destes últimos anos, os da época Bush-Berlusconi.” Sentado no divã de sua casa milanesa que dá para os jardins branqueados do Castello Sforzesco, Umberto Eco fala assim de seu novo livro. “A passo di gambero. Guerre calde e populismo mediatico” (“A passo de caranguejo. Guerras acaloradas e populismo mediático”), lançado na Itália em fevereiro passado, recolheu neste livro artigos e ensaios inéditos, além de intervenções em congressos. Todos os textos foram escritos entre 2000 e 2005.

Cinco anos de política e de costumes segundo um dos maiores escritores e ensaístas italianos, o mais conhecido no estrangeiro, cujo nome aparece sempre quando qualquer revista internacional publica a lista dos intelectuais mais influentes do mundo: no ano passado, o autor de “O nome da rosa” e do “Tratado de semiótica” se encontrava entre os primeiros vinte da lista compilada pela publicação estadunidense Foreign Policy.
É natural que seu nome seja citado nas discussões acerca da relação entre os intelectuais de esquerda e a política. O mesmo tem dedicado a esse argumento algumas páginas de seu novo volume. "O intelectual -escreve Eco- desenvolve a sua própria função crítica não propagandística somente (e antes de tudo) quando sabe falar contra sua própria parte." Sem dificuldade, recentemente o filosófo Gianni Vattimo e outros intelectuais têm acusado Eco de atacar sempre o adversário político, Berlusconi, esquecendo de por em evidência o seu próprio grupo político. "Muitas vezes -responde o professor- sou acusado de calar, quando isso não era assim. Um escritor italiano, bastante importante, chegou a sustentar uma vez que eu não havia me pronunciado contra a perseguição de Salman Rushdie, porque Rushdie havia resenhado negativamente um livro meu. Respondi ao jornalista que me perguntara pelo motivo dessa acusação citando-lhe todos meus artigos a respeito, como, por exemplo, uma página inteira de The New York Times paga por escritores de todo o mundo. O jornalista transmitiu minha resposta ao acusador, que disse: «Não estou obrigado a ler todas as coisas que escreve Eco». Este gracioso episódio demonstra que é muito fácil construir uma lenda. Ademais, por uma módica cifra posso sacar de meu computador todas as minhas intervenções críticas sobre a esquerda, começando por um artigo de Quindici, a revista que dialogava com o protesto, atacando o hábito de «ocupação» das diversas instituições culturais. Em relação a repetição das críticas a Berlusconi, há que perguntar-se se a crítica política é o que se repetiu ou se a repetição foi o seu comportamento obsessivo. Veja, nos cinco anos transcorridos, a Itália tem entrado num caminho da decadência. Se seguirmos assim, nos converteremos definitivamente num país de Terceiro Mundo. Imagine se ante semelhante perigo me pusesse a falar da esquerda."
Por outro lado, Eco tem suas próprias idéias acerca de qual deve ser a relação dos intelectuais com o silêncio e com a palavra. "O intelectual não é um grilo falante que deva pronunciar-se sobre todos os temas, de modo que também tem a obrigação de calar-se, sobretudo quando se trata de coisas que não sabe", disse.

Fonte: La Nación

Aos incautos, reflitam sobre os ensinamentos de Eco, não se deve falar sobre tudo, ou melhor dizendo, não devemos escrever desbragadamente sobre o que não temos domínio, primeiro cautela, depois a transpiração (esforço&leitura&estudo) e por último a satisfação de conhecer para transformar...

Um abraço no amigo Colher (não disfarça, não adianta ficar vermelho, nós já sabemos o motivo do apelido, fique tranqüilo... fizemos um pacto para não contar p'ra mais ninguém... ufa! que alívio heim?!)

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