sexta-feira, abril 21, 2006

FERNANDO PESSOA, SUA POESIA & SEUS HETERÔNIMOS



Estive visitando o blog do amigo Colher, li a poesia de Álvaro de Campos, linda e existencialista, com a foto de Fernando Pessoa ilustrando a poesia, ao final o blogueiro expõe que Álvaro de Campos conheceu Alberto Caeiro, este tornando-se mestre daquele...
O amigo Colher foi traído pela genialidade de Fernando Pessoa.
Jacinto Coelho explica: "Cerebral e retraído, inimigo da expansão ingênua, Fernando Pessoa concebeu o projeto de se ocultar na criação voluntária, fingindo indivíduos independentes dele - os heterônimos -, e inculcando-os como produtos dum imperativo alheio à sua vontade" (Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, p. 9). A palavra heterônimo com a última acepção dada por Jacinto, parece haver começado a circular após o surgimento de Fernando Pessoa(1888-1935), grande poeta português, que, além de usar o próprio nome em diversas produções, muitas assinou com os nomes - Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, e outros, poetas, cada um destes, de características bem individuais, tanto nos meios expressivos quanto na substância, e até com biografias, curiosamente inventadas por Fernando Pessoa. Nessa diferença de características entre as obras das criaturas e as do criador é que reside a distinção entre o heterônimo e o pseudônimo.
Já em 1894, Fernando Pessoa criava o seu primeiro heterônimo - Chevalier de Pas.
Fernando Pessoa deu um nó na cabeça de muita gente, conseguiu ser muitos-em-um, até o nosso amigo Colher foi vítima de Pessoa.
Agora vamos relaxar com uma poesia de Fernando Pessoa:

" NAVEGAR É PRECISO

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

[Nota de SF
"Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu]



4 comentários:

Carlos Ponte disse...

Olá Pedro!
Gostei de saber que a minha voz chegou a esse lado do mundo, e que vocês aí preservam ainda algo da identidade portuguesa. Obrigado pela resposta. De qualquer modo, custa-me muito saber que num país tão liberal como o Brasil (no bom sentido, claro) fosse necessário tomar-se uma decisão extrema para que as mulheres fossem respeitadas. De qualquer modo penso que mais tarde ou mais cedo conseguirão dar a volta por cima.
Sobre o Fernando Pessoa e os seus heterónimos (desculpe não escrever heterônimos), achei engraçado aquela do Álvaro de Campos que conheceu Alberto Caeiro, tornando-se seu discípulo...
José Saramago terá tido uma ideia semelhante quanto escreveu "O ano da morte de Ricardo Reis". A história, passa-se em Portugal nos anos 30, durante a ditadura e tem como protagonistas principais Fernando Pessoa e Ricardo Reis. Se por acaso ainda não conhece, aconselho-o vivamente. É um dos melhores livros da vasta obra do escritor.
Um abraço
Carlos Ponte

Anônimo disse...

pois é...fico surpresa, ao ver que pessoas com um nível cultural aparentemente bom, não conheçam nem o que estão publicando no blog, como é o caso do rapaz que não conhece os heterônimos de Pessoa,que sacrilégio não!Não há pegadinha do autor,há desinformação.Lamentável...Mas,ainda bem que existem os que conhecem e explicam , como vc, salvou o dia!

vim ao seu blog só para isso , mas acabei gostando e ficando
abraço
BBB

citadinokane disse...

Carlos,
De Saramago estou lendo "O Evangelho segundo Jesus Cristo", obrigado pela dica, já estou providenciando o livro indicado.
Antes que esqueça, visitei o teu blog, e fiz um comentário sobre a Revolução dos Cravos.
Um abraço,
Pedro Nelito

citadinokane disse...

BBB,
Mas vale a poesia de Álvaro de Campos... de Alberto Caeiro... de Fernando Pessoa... Quando a li, fiquei feliz, parei para pensar, com o olhar perdido... o pensamento em borbotão, que genial é o poeta, ele apenas diz, mas diz de forma singela e profundamente humana, revelando outros mundos... Talvez perdidos, em nós mesmos... quem sabe?!
Valeu Pessoa!!! és tantos... sendo uno.
Um abraço e obrigado por visitar o blog,
Pedro Nelito