domingo, maio 28, 2006

Amizade



Estava remexendo uma caixa, naquele lugar da casa em que ficam as coisas esquecidas ou que não são mais úteis, mas não queremos jogar fora.
Pois é, mexe-pra-cá mexe-pra-lá... Encontrei umas cartas, é verdade... Existiu um tempo, que não tínhamos computadores em abundância, telefone não era barato... E aí as cartas comunicavam as nossas esperanças e aflições aos amigos distantes.
Uma carta de uma amiga de São Paulo escrita com muito carinho, depois de alguns anos me deixou muito emocionado, ela finaliza a missiva com uma poesia de Vinícius de Moraes que fala sobre a amizade.
Fiquei pensando em muitos amigos que passaram em minha vida, e a tornaram mais alegre.
É muito reconfortante termos pessoas com quem partilhar alegrias e frustrações... Verdades e mentiras...
Em momentos de nossa existência, os amigos são os pais... Mas existe aquela pessoa que você passa a considerar independente do laço de parentesco, como uma pessoa importante, e que sempre você está em contato...
É o amigo...
O detalhe mais importante, sentimos o quanto ele se torna importante pra gente, passa a fazer parte da vida que levamos, a ausência dele é sentida como um vazio em nosso coração.
Penso que é possível homenagear os amigos e amigas, com a poesia de Vinícius, que ficou tanto tempo guardada em uma carta esquecida no fundo de um baú...
Vinícius fala com muito mais ternura sobre a amizade, é poeta. Fala poetinha...

"Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.

Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor..
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.

Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo.
Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.

Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.
Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."

Como a amizade é uma construção - tijolo por tijolo, e muita solidariedade como cimento, dedico este post ao amigo Tico Futrika, às vezes é cabeça dura (não é por isso que é chamado de cabeção), mas tem uma doença que o absolve de todos os males que um dia possa praticar - tem o CORAÇÃO GRANDE.

7 comentários:

Carlos Ponte disse...

Todo o "cabeção" deve sentir-se orgulhoso depois de ler, não só a poesia, mas, acima de tudo, a prosa que lhe serve de intróito. Parabéns Pedro, é um belo post!
Um abraço de Carlos Ponte

Direito & Esquerdo disse...

Caro amigo Nelito,

Na intimidade, apenas... deixa pra lá.
Ao ler o post lembrei dos momentos de amizade vividos por nós.
Lembrei do meu casamento e sua presença como padrinho, acompanhado de sua esposa e minha madrinha, Fátima. Aquela época, estavas deveras cabeludo, ressaltando sua presença no evento.
Lembrei das épocas de sonhos utópicos por um mundo melhor, onde acreditava haver um projeto político diferente, dirigido por homens sérios, mera utopia .....
Lembrei dos botecos conhecidos e bebidos em conjunto, Bar da Portela, Boteco do Ranulfo e congêneres....
Lembrei das alegrias e tristezas compartilhadas pelo nosso Papão da Amazônia.
Lembrei .........
Um fraterno e amigo abraço
Bruno

Navi Leinad disse...

As cartas escritas! Felizmente pude experimentar essa emoção! Sem dúvida nada vai substituir todas as sensações que uma carta "aos moldes antigos" pode nos proporcionar! Tanto na confecção e envio, quanto no recebimento e arquivamento.

citadinokane disse...

Carlos,
O seu xará, poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, no livro de poesias - A Rosa do Povo, no poema "Carrego comigo" ao final diz:
"Não sei o que seja.
Eu não a escolhi.
Jamais a fitei.
Mas levo uma coisa.

Não estou vazio,
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível".

Em relação a amizade, levo cada amigo comigo e realmente é algo indescritível.
Pedro

citadinokane disse...

Caro amigo Colher, Cabeção... tanto faz,
Acompanhei muitas caminhadas suas, algumas maravilhosas, outras horríveis, trashy... estas não diminuiram a nossa amizade, talvez pela fraqueza humana nos aproximamos mais ainda; aquelas são recordadas pelos álbuns de fotografias, foi o melhor de nós, de verdade...
Com relação às utopias, lembre de Mercedes Sosa declamando Bertolt Brecht:
"Hay hombres que luchan um dia y son buenos
Hay otros que luchan um año y son mejores
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles".

Um grande abraço,
Pedro

citadinokane disse...

Ivan,
Realmente a carta, o papel... são insubstituíveis na emoção que proporcionavam. Receber uma carta, rasgar o envelope, era necessário todo um preparo psicológico...
Ziraldo uma vez falou que não acreditava ser possível substituir o livro de papel, dizia o escritor, que no papel do livro as lágrimas e anotações ficavam eternizados... Dificilmente pingaremos o nosso pranto sobre a tela plana do computador.
Mas voltando às cartas, não lembro quando foi a última vez que usei o meu papel de carta, mais fino e leve, que carregava um mundo e emoções.
Um abraço,
pedro

asn disse...

Olá Nelito
Estou em estágio espiritual para ir de férias uma semana à Ilha Terceira - Açores. Já estou a bater à porta nº 60 da Rua da Minha Idade e será a 3ª vez que vou andar de avião.
Não tenho muitos amigos, nem sei bem porquê, talvez porque tenho sempe trabalhado muito, nos anos em que se criam as grandes amizades andei feito nómada de terra em terra sem ganhar raízes...Talvez. Quer dizer desses amigos como os do poema do Vinicius acho que não tenho senão dois ou três para além dos meus irmãos, todos grandes amigos e os meus pais, já com 80 e tais, da minha mulher Zaida, companheira e amissísima...
Também sou muito caseiro, demasiado caseiro talvez...Ah tenho também outros grandes amigos: os meus dois filhos, os meus netos (2), sem esquecer o rapazito,a lili, o tico, a lala (2 gatos e 2 cães).
"...mas tem uma doença que o absolve de todos os males que um dia possa praticar - tem o CORAÇÃO GRANDE."
Um grande abraço.
Vou colocar este poema no meu blog.
Ob pela visita ao dispersamente.
Antonio