quinta-feira, maio 04, 2006

"AS PESSOAS NÃO MORREM, FICAM ENCANTADAS".

Quem melhor traduziu a linguagem regionalista, dotando-a de uma universalidade fundada na indagação sobre as forças que mobilizam secretamente o homem: Guimarães Rosa.
Estamos aqui debruçado sobre um escritor, tipicamente mineiro, sem alardes ou pirotecnias...

João Guimarães Rosa nasceu a 27 de julho de 1908, em Corsdisburgo, Minas Gerais. Depois de concluir os estudos secundários, ingressou na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Formado, Guimarães Rosa seguiu para Itaiguara, no interior de Minas Gerais. Em 1933, já em Belo Horizonte, tornou-se capitão-médico da Força Pública de Minas Gerais. Durante a Revolução Constitucionalista, alistou-se como voluntário. Aprovado em 1934 num concurso para o Itamarati, ingressou na carreira diplomática. Com “Magma”, um livro de poemas, venceu, em 1936, um concurso promovido pela Academia Brasileira de Letras. Apesar do prêmio, não publicou o livro. Em 1938, o diplomata seguiu para Hamburgo como cônsul adjunto. Em 1946, publicou “Sagarana”, e em 1956 duas obras-primas: “Corpo de baile” e “Grande Sertão: veredas”. Em 1962, “Primeiras estórias”...

“As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

O escritor discorre sobre sua arte: “Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, pertubante e rebelde a qualquer lógica, que é a chamada realidade, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o absurdo que o óbvio, que o frouxo. Toda lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade”.
Para Guimarães Rosa, a elaboração da linguagem e a organização da narrativa devem restituir a complexidade e o mistério inerentes à vida.

A infância: “Não gosto de falar em infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres... Fui rancoroso e revolucionário permanente, então... Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar-me no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas”.

A Revolução Constitucionalista: “Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a rigor, essa sucessão constitui um paradoxo. Como médico, conheci o valor do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte.”

Novamente, sobre os seus livros: “Eles são, em essência, antiintelectuais... e defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração sobre o bruxulear presunçoso da inteligência reflexiva, da vazão, a megera cartesiana... Quero ficar com o Tão, com os Vedas, e Upanishad, com os Evangelistas e com São Paulo, com Plotino, com Bérgson, com Berdiaeff – com Cristo, principalmente.

Academia Brasileira de Letras: Eleito em 1963 para a Academia Brasileira de Letras, o escritor adiou por quatro anos sua posse. Três dias depois (19 de novembro de 1967), faleceu vitimado por um enfarte. Ao assumir sua cadeira na Academia, havia declarado: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Obs.: Os excertos acima foram extraídos do Livro “Sagarana”, ano 1984, edição Círculo do Livro (Editora Nova Fronteira S.A.).

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