sábado, maio 20, 2006

Os Simpsons e Aristóteles





Confesso, assisto o desenho animado "Os Simpsons"... Já se vãos uns bons anos, bem antes de minha filha nascer. O que me levou a escrever sobre os mesmos? Bem antes de mais nada, tem algumas "sacadas" interessantes sobre o modo de vida americano, alguns enfoques um tanto trashy, mas não esqueçam que com a globalização muitos valores se estabelecem em outras regiões, mesmo não sendo nada compatível com a cultura nativa de outrora... Isto quer dizer, temos "globalismo localizado", segundo os ensinamentos do jusfilósofo francês André-Jean Arnaud. Muitas posturas e valores americanos estão disseminados pelo mundo, e na sociedade brasileira com certeza. O que considero importante é a crítica ácida dessa família meio-maluca a todos esses valores, que inclusive levou o presidente americano Georges W. Bush, recentemente, a pedir aos americanos que não assistissem ao desenho que "difama" as instituições e os valores americanos de "liberdade"... e por aí vai.
Escrevo para compartilhar e multiplicar informações, quiçá, edificantes...
Caiu em minhas mãos um livro gostoso de ler - "Os Simpsons e a Filosofia", editora Madras, ano 2004. Neste livro filósofos e não-filósofos se reúnem para mostrar que algumas questões filosóficas muito interessantes são levantadas pelos personagens, pensamentos e enredos de Os Simpsons. Os ensaios são bem escritos, muitas vezes provocantes, reflexivos, inteligentes sem elitismo e, talvez, muito valiosos, divertidos de ler. Nada de uma apologia aos Simpsons (por exemplo, Bart poderia ser um herói nietzschiano ou um pensador heideggeriano?).

Do livro:
"Os tipos de caráter de Aristóteles (Raja Halwani, p. 19)
Aristóteles nos deu uma categorização lógica de quatro tipos de caráter. Falando de um modo geral, e deixando de lado os dois tipos extremos que são o caráter do super-homem e do bestial, temos o virtuoso, continente, incontinente e o vicioso. Para compreendermos melhor cada tipo, vamos contrastá-los em termos de como cada caráter se manifesta em ações, decisões e desejos. Devemos também considerar uma situação como exemplo e ver como cada um reagiria a ela.
Suponha que uma pessoa, a quem chamaremos de "Lisa", estivesse andando na rua e encontrasse uma carteira com uma considerável quantia em dinheiro. Se Lisa fosse virtuosa, ela não só tomaria a decisão de entregar a carteira às autoridades competentes, mas ainda se sentiria bem em fazer isso. Os desejos de Lisa estariam em harmonia com a correta ação e decisão. Considere agora Lenny, que é continente: se Lenny achasse a carteira, ele tomaria a decisão certa - devolver a carteira intacta - e seria capaz de cumprir a decisão - mas estaria agindo de forma contrária ao desejo de não devolver. Essa é a marca da pessoa continente: lutar contra os desejos para conseguir fazer a coisa certa.
Com os tipos incontinente e vicioso de caráter, as coisas pioram. A pessoa incontinente é capaz de tomar a decisão certa, mas tem a vontade fraca. No caso da carteira, e supondo que Bart seja o tipo de caráter incontinente de que falamos, ele sucumbiria ao desejo de ficar com a carteira e não agir corretamente, embora saiba que é errado não entregá-la ao dono. Com a pessoa viciosa, não há luta entre os desejos nem vontade fraca. O motivo disso, porém, é que a decisão da pessoa viciosa é moralmente errada, e seus desejos cooperam plenamente com ela. Se Nélson fosse vicioso, ele resolveria ficar com o dinheiro (e jogar fora o resto da carteira, ou devolvê-la e mentir sobre o que encontrou nela), desejaria fazer isso e agiria de acordo com o desejo.
Observemos melhor o que constitui um caráter virtuoso. Uma pessoa virtuosa é aquela que tem e exerce virtudes. Essas virtudes, aliás, são estados (ou características) de caráter que dispõem seu detentor a agir da forma correta e reagir emocionalmente da mesma maneira. Diante disso, vemos por que Aristóteles insistia em que as virtudes são estados de caráter que concernem tanto à ação quanto ao sentimento (A Ética a Nicômaco, livro II)".

Ao amigo Tales Queiroz, taí o que tínhamos conversado em uma mesa "gelada" - em relação ao caráter das pessoas, a conversa se reportava a uma "mala", no texto acima a referência é a "carteira", mas a essência é a mesma, um abraço.

7 comentários:

Anônimo disse...

Posso dizer que sou um virtuoso. Sinto-me, porém, um quase alienígena por isso. Digamos..., assim..., um tanto quanto diferente de grande parte de meu povo. Contudo, satisfeito e realizado plenamente em minha consciência e em função dela mesma.
Dos simpsons, pudera 1% dos telespectadores ter essa visão aguçada de percepção do que está por trás do animado televisivo.
Parabéns pelo virtual. Bem bolado e substancial.
Um abraço do seu aluno
Fred Guerreiro

Navi Leinad disse...

Os Simpsons. Minha primeira opção de entretenimento animado na TV fechada! O episódio onde George W. Bush pai chega para morar em frente à casa dos Simpsons, e o Homer inicia uma batalha por vingança após o "mau" vizinho recém-chegado bate em Bart, é um clássico da série! Mas o perfil psicológido de cada personagem realmente é caraterizado e explorado de maneira bastante inteligente e cômica. Diria tragi-cômica, porque reflete a pior face do estilo de vida norte-americano! E não só isso, já que o caráter humano está sempre em evidência nos muitos personagens dos Simpsons. Sem falar nas abordagens sobre modo de produção, relações de trabalho, divisão de classes, questões religiosas, sociais, familiares... Não imagino assistir a Os Simpsons sem levantar reflexões sobre todas essas coisas. Quando eu tiver filhos com certeza irão assistir também.

citadinokane disse...

Amigo Fred,
Fiquei honrado com a sua visita, é muito prazeroso dialogar com pessoas como vc.
Continue passeando por aqui e sempre que for possível deixe o seu comentário.
Um abraço,
Pedro

citadinokane disse...

Ivan - o terrível,
Esse episódio que vc menciona, minha filha estava hoje comentando no carro, muito engraçado e muita coisa pra pensar...
Não vai demorar e a 8ª temporada deve chegar nas lojas.

Como vai a saúde? recuperado?!
Um abraço,
pedro

Navi Leinad disse...

Já estava pensando em apelar pras garrafadas do ver-o-pêso! Dizem que tem cura até pra torcedor azulino (milagre??).

citadinokane disse...

Ivan,
Percebi o quanto você estava "mofino", talvez reza dê jeito, não para vc, para as leoninas...
Saúde,
Pedro

Anônimo disse...

Tenhu o livro é muito bom mesmo!