sexta-feira, maio 26, 2006

PARADOXO, ESPERANÇA E FÉ.


Erich Fromm nasceu em Frankfurt am Main, Alemanha, a 23 de março de 1900, descendente de rabinos. Criado num ambiente de profunda devoção judaica, a sua visão humanista também recebeu influência das idéias de Spinoza, Goethe, Karl Marx e Sigmund Freud. O início da Primeira Guerra Mundial, quando tinha catorze anos, causou-lhe um choque profundo e acabou por lançar a idéia do pacifismo que viria a nortear toda a sua existência. Formado em filosofia pela Universidade de Heidelberg, em 1922, iniciou a prática da psicanálise na Universidade de Munique entre 1923 e 1924, quando completou os estudos no renomado Instituto de Psicanálise de Berlim. Considerado o “revisionista cultural de Freud”, Erich Fromm acabou se afastando gradualmente das teorias freudianas que negligenciaram os fatores sociais e econômicos atuantes sobre o pensamento do ser humano. Também do judaísmo Erich Fromm acabou por distanciar-se: “... não quero participar de nenhuma divisão da raça humana, seja religiosa ou política”. Porém, quando o assunto é a salvação da existência humana, ele jamais se afasta de seus princípios, que dizem estar no “socialismo humanista” o renascimento social, econômico, político e espiritual do homem moderno.

Erich Fromm no livro “A Revolução da Esperança” discorre de maneira genial sobre o elemento que segundo o autor é decisivo em qualquer tentativa para ocasionar mudança social, baseada em maior vivência, consciência e razão: a esperança.

Vamos escutar o psicanalista Erich Fromm:

"O PARADOXO E A NATUREZA DA ESPERANÇA

A esperança é paradoxal. Não é nem uma espera passiva nem um forçar irreal de circunstâncias que não podem ocorrer. É como o tigre agachado que só saltará quando chegar o momento de saltar. Tampouco o reformismo cansado e o aventureirismo pseudo-radical são uma expressão da esperança. Ter esperança significa estar pronto a todo momento para aquilo que ainda não nasceu e todavia não se desesperar se não ocorrer nascimento algum durante nossa existência. Não faz sentido esperar pelo que já existe ou pelo que não pode ser. Aqueles cuja esperança é fraca decidem pelo conforto ou pela violência; aqueles cuja esperança é forte vêem e apreciam todos os sinais da nova vida e estão prontos a todo instante para ajudar no nascimento daquilo que está pronto para nascer.

A FÉ
Quando a esperança desaparece, a vida termina, na realidade ou potencialmente. A esperança é um elemento intrínseco da estrutura da vida, da dinâmica do espírito do homem. Ela está intimamente ligada a outro elemento da estrutura da vida: a fé.
A fé não é uma forma fraca de crença ou conhecimento; não é a fé nisto ou naquilo; a fé é a convicção sobre o que ainda não foi provado, o conhecimento da possibilidade real, a consciência da gravidez. A fé é racional quando se refere ao conhecimento real que ainda não nasceu; ela é baseada na capacidade de conhecimento e compreensão, que penetra a superfície e vê o âmago. A fé, como a esperança, não é a previsão do futuro; é a visão do presente num estado de gravidez.
A afirmação de que a fé é certeza necessita de uma restrição. É certeza sobre a realidade da possibilidade – mas não é certeza no sentido da previsão indiscutível.
Este é o paradoxo da fé: é a certeza do incerto.
É certeza em termos de visão e compreensão do homem; não é certeza em termos do resultado final da realidade. Não precisamos de fé naquilo que é cientificamente previsível, nem tampouco pode haver fé no que é impossível. A fé é baseada em nossa experiência de vida, de nos transformarmos. A fé que outros podem mudar é o resultado da experiência de que posso mudar."

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