sábado, junho 10, 2006

FLORBELA ESPANCA


"VOLÚPIA

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças..."

A leitura da Antologia - Mensageira das Violetas de Florbela Espanca, primeiramente é inevitável o susto para em seguida uma satisfação indizível penetrar a noss'alma... Uma mulher ardentemente gritando para o mundo... A poesia foi para ela um caminho sem volta, amou desesperadamente... Quando o mundo perdeu o sentido, fez da poesia o seu patíbulo:
" Rasga estes versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!"

Poetisa que expressou uma vontade louca de viver intensamente um amor impossível:
"Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!"

Infelizmente, Florbela Espanca, não resistiu a tanta emoção e partiu como em seus versos, numa madrugada trágica de seu 36º aniversário, a bela e carnal alentejana se calou para sempre:
"E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."


Segue agora as informações básicas sobre a poetisa.

Florbela(d'Alma da Conceição) Espanca nasceu em Vila Viçosa, no Alentejo, a 8 de dezembro de 1894, filha de Antônia da Conceição Lobo e João Maria Espanca. Freqüenta o curso primário em Vila Viçosa e o secundário em Évora. Casa-se, em 1913, com Alberto de Jesus Silva Moutinho, vai residir em Redondo e retorna depois a Évora, onde conclui, em 1917, o Curso Complementar de Letras. No mesmo ano, já na capital, matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, curso que abandona em 1920. No ano seguinte, divorcia-se de Alberto Moutinho e casa-se com o Alferes Antônio José Marques Guimarães, do qual se divorcia em 1925 para casar-se com o médico Mário Pereira Lage. Passa a viver em Matosinhos e trabalha como tradutora de romances franceses. A perda do irmão, Apeles, em acidente aviatório(1927), leva-a a um estado de constante depressão. Suicida-se na madrugada no dia de seu aniversário, em 1930, ingerindo uma dose excessiva de Veronal. Foi sepultada em matosinhos, mas, em 1964, seus restos mortais foram transferidos para a sua cidade natal.

2 comentários:

Anônimo disse...

É bom que se saliente, o amor de paixão, impossivel, que a poetisa nutria por seu irmão.
Rocha

citadinokane disse...

Intimorato Rocha,

obrigado pela informação.

O gênio de Florbela transcende o próprio amor que sentira pelo irmão... É um enigma que os poetas e loucos costumam utilizar...
O amor que não tem paralelo...
Nem o "Louco Bueres" com seus diamantes azuis e canções conseguiria aplacar o fogo que ardia e enlouquecia Florbela Espanca...
Provavelmente quem tomaria uma superdose de Veronal seria o Louco Bueres... Ou o mesmo pegaria as cordas de aço do violão e partiria para o enforcamento.
Um abraço,
pedro
Pedro