domingo, junho 11, 2006

LOUCO BUERES E LORCA...


Louco Bueres certa vez confidenciou que devemos buscar a sublimação da dor pela arte... Esta seria a antimatéria da mediocridade.
O Louco Bueres é intolerante com os medíocres, resmunga e balbucia que o mundo seria melhor se eles perecessem em tenra idade, pelo menos seria possível um pranto sincero...
Em momento de profunda elevação o Louco-Bueres açodadamente levanta o punho e com o dedo em riste aponta uma estrela e declama o último texto de outro louco - o visionário Federico Garcia Lorca:

"As seis cordas

A guitarra
faz soluçar os sonhos.

O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira."

Puxa rapidamente o lenço, tenta disfarçar a lembrança de Lorca, mas o olhar marejado do louco, o denuncia...

Federico Garcia Lorca, um dos primeiros a ser sacrificado pelos nacionalistas espanhóis, nasceu na região de Granada, na Espanha, em 05 de junho de 1898, e faleceu nos arredores de Granada no dia 19 de agosto de 1936, assassinado pelos "Nacionalistas". Nessa ocasião o general Franco dava início à guerra civil espanhola. Apesar de nunca ter sido comunista - apenas um socialista convicto que havia tomado posição a favor da República - Lorca, então com 38 anos, foi preso por um deputado católico direitista que justificou sua prisão sob a alegação de que ele era "mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver." Avesso à violência, o poeta, como homossexual que era, sabia muito bem o quanto era doloroso sentir-se ameaçado e perseguido. Nessa época, suas peças teatrais "A casa de Bernarda Alba", "Yerma", "Bodas de sangue", "Dona Rosita, a solteira" e outras, eram encenadas com sucesso. Sua execução, com um tiro na nuca, teve repercussão mundial.
A poesia acima pode ser encontrada na "Antologia Poética" de Lorca, Editora Leitura S. A.

3 comentários:

Carlos Ponte disse...

Olá Pedro,
Lendo o seu texto veio-me à memória todo o horror da guerra civil espanhola. Vivo não muito longe da fronteira com Espanha - cerca de trinta quilómetros - e lembro-me que na minha infância ouvia contar que os habitantes de Valença ouviam os fuzilamentos do outro lado do rio Minho. Talvez fossem apenas apenas disparos esporádicos e não condenações, mas na minha memória essas "imagens" daquela guerra fratricida perduram até hoje.
Um abraço Carlos Ponte

citadinokane disse...

Carlos,
Quem mais sofre com as guerras, não são os poderosos, mas as pessoas comuns, as mulheres e as crianças retratam nos olhos e lágrimas toda amargura e absurdo que representa a guerra.
Um abraço,
Pedro

Anônimo disse...

Carta ao cão que passeia
O dom do ser humano de se expressar com arte, em todas as suas multiplicidades, seja da forma escrita, visual, oral, gestual e outras, serão sempre motivos para uma espécie de presumida verdade superior, que coloca-nos montado sobre nos mesmos, como fossemos, simultaneamente, cavalo e cavaleiro, a percorrer as veredas etéreas da inspiração. Uma fatal rapariga no falar ,um verdugo no pensar, uma flauta no inspirar para depois o expressar, essas seriam talvez umas das vias do bom canetêiro. È claro que com relação a isso, não há regras estabelecidas para uma craniotomia, mas fundamental, ao meu sentir, é o domínio das somas dessas habilidades, que alguns denominam na ausência de outra expressão, de talento. Visto dessa forma, é dada vênia para transformar estórias tristes e até de mau gosto em contos superiores, dependendo do filtro do djim, nome dado pelos árabes a entidades, benfazejas ou maléficas, superiores aos homens e inferiores aos anjos, que manipulam com as suas filigranas de luz os pensares e emprestam por exemplo significado ao dó, (s.m.): Comiseração; lástima; compaixão; tristeza; luto; ou a primeira nota da moderna escala musical.
São eles os novos djins, com esses vieses, que nos comovem e nos fazem recorrer cada vez mais em busca dos nossos espaços pequeníssimos, mas indeterminados de tempo, nossos instantes, produtos desta força ,pela distancia que vai do ponto fixado à direção das nossas impressões de existência.
Eduardo Bueres, o pró-louco