sexta-feira, junho 16, 2006

O Juramento de Hipócrates e os Médicos


Caso vivenciado por um amigo bem próximo, ilustra como anjos se transformam em demônios... Não esqueçam que Lúcifer era um anjo, depois caiu...
O amigo chegou comigo e disse "Você poderia dá uma olhada nesse papel?", tomei o papel das mãos dele e comecei a fazer a leitura, os segundos que se seguiram, já me encontrava estupefato e ruborizado de indignação... O pai do meu amigo relata no papel o que ocorrera com ele durante os preparativos de uma cirúrgia médica, sintetizando, o mesmo tem um plano de saúde que cobriria todos os custos da cirúrgia e demais despesas de hospitalização, ocorre que os anestesiologistas(anestesistas) não concordam com os valores pagos pelos planos de saúde e buscam cobrar dos pacientes a diferença, acontece que a negociação, neste caso, foi feita no momento que o paciente(pai do meu amigo) estava sendo sedado, nu e já deitado sobre a "pedra de operação", numa condição totalmente desfavorável para esse tipo de negociação, na qual o anestesiologista levava vantagem, a seringa literalmente foi aplicada no bolso desprotegido do paciente, ou pagava ou não tinha anestesia... P'ra esse caso cabe buscar uma reparação na esfera judicial.
O que me leva ao relato desse caso no blog, é refletir sobre algo que vai além da denúncia.
Todos nós iremos nos deparar um dia com um médico, não é por menos que a imagem que trazemos dos médicos no geral, é a mais benfazeja possível.
A medicina proporciona uma profissão diferenciada, é necessário a vocação mais do que em outras profissões, não pode apresentar uma conotação mercantil, a vida não pode ficar restrita a trinta moedas... Um médico não pode decidir se uma pessoa deve ou não morrer, porque faltou um complemento pecuniário aos honorários profissionais, estamos falando sobre vida e morte.
Para melhor discorrer sobre o assunto me socorri do juramento de Hipócrates.

Em uma pequena ilha do mar Egeu, na Grécia, próximo ao litoral da Asia Menor – a ilha de Kós - floresceu no século V a.C. uma escola médica destinada a mudar os rumos da medicina, sob a inspiração de um personagem que se tornaria, desde então, o paradigma de todos os médicos – Hipócrates. A escola hipocrática separou a medicina da religião e da magia, afastando as crenças em causas sobrenaturais das doenças, fundando, destarte, os alicerces da medicina racional e científica. Ao lado disso, deu um sentido de dignidade à profissão médica, estabelecendo as normas éticas de conduta que devem nortear a vida do médico, tanto no exercício profissional, como fora dele. Existe um Juramento, a ser proferido por todos aqueles considerados aptos a exercer a medicina, no momento em que são aceitos como tal pelos seus pares e admitidos como novos membros da classe médica. O juramento hipocrático é considerado um patrimônio da humanidade por seu elevado sentido moral e, durante séculos, tem sido repetido como um compromisso solene dos médicos, ao ingressarem na profissão.

Abaixo o Juramento de Hipócrates - o texto original:

"Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Higéia, por Panacéia e por todos os deuses e deusas, tomando-os como testemunhas, obedecer, de acordo com meus conhecimentos e meu critério, este juramento: Considerar meu mestre nesta arte igual aos meus pais, fazê-lo participar dos meios de subsistência que dispuser, e, quando necessitado com ele dividir os meus recursos; considerar seus descendentes iguais aos meus irmãos; ensinar-lhes esta arte se desejarem aprender, sem honorários nem contratos; transmitir preceitos, instruções orais e todos outros ensinamentos aos meus filhos, aos filhos do meu mestre e aos discípulos que se comprometerem e jurarem obedecer a Lei dos Médicos, porém, a mais ninguém. Aplicar os tratamentos para ajudar os doentes conforme minha habilidade e minha capacidade, e jamais usá-los para causar dano ou malefício. Não dar veneno a ninguém, embora solicitado a assim fazer, nem aconselhar tal procedimento. Da mesma maneira não aplicar pessário em mulher para provocar aborto. Em pureza e santidade guardar minha vida e minha arte. Não usar da faca nos doentes com cálculos, mas ceder o lugar aos nisso habilitados. Nas casas em que ingressar apenas socorrer o doente, resguardando-me de fazer qualquer mal intencional, especialmente ato sexual com mulher ou homem, escravo ou livro. Não relatar o que no exercício do meu mister ou fora dele no convívio social eu veja ou ouça e que não deva ser divulgado, mas considerar tais coisas como segredos sagrados. Então, se eu mantiver este juramento e não o quebrar, possa desfrutar honrarias na minha vida e na minha arte, entre todos os homens e por todo o tempo; porém, se transigir e cair em perjúrio, aconteça-me o contrário".

Em todos os idiomas, as traduções oferecidas diferem entre si em alguns aspectos relativos à linguagem empregada, embora mantenham todas o núcleo central dos preceitos que compõem o juramento.

No Brasil, a maioria das Faculdades utiliza um modelo simplificado:

"Prometo que ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra. Nunca me servirei da profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze eu, para sempre, a minha vida e a minha arte, com boa reputação entre os homens. Se o infringir ou dele afastar-me, suceda-me o contrário."

O diabo desses juramentos é que no Juramento do tempo de Hipócrates, os antigos acreditavam que realmente os deuses poderiam desgraçá-los, caso não cumprissem o juramento. No nosso tempo, muitos profissionais da medicina estão mais preocupados com o tilintar das moedas mundanas... Achando que os deuses deviam estar loucos para exigir dos médicos esse comportamento ético.
Resumindo, muitos médicos são valorosos e dignos(verdadeiros médicos), e no entanto, são confundidos com uma pequena parcela que aprendeu a fazer cirurgia, clinicar, mas não incorporou o espírito MÉDICO.
Que os deuses protejam todos os verdadeiros Médicos (são muitos) e acalmem os nossos sonos.

4 comentários:

Navi Leinad disse...

Passei por uma situação parecida há bem pouco tempo. Era 1º de abril (que ironia!) e minha esposa precisou passar por um procedimento cirúrgico no qual a médica (ir)responsável, após sair do bloco cirúrgico, me falou que tinha saído tudo bem e que "só pra conhecimento", não estava mais fazendo aquele procedimento pelo plano de saúde (que é completo e tem mais de uma década) por causa dos baixos valores que são repassados, mas que eu não deveria me preocupar porque ela não cobraria nada. Na hora, com o psicológico e emocional muito afetados, nem percebi o que estava acontecendo, mas depois me dei conta de que a médica é cliente na atividade comercial da irmã da minha esposa, e que dias antes da cirurgia ela havia deixado de adquirir algumas mercadorias porque achou os preços um pouco "salgados", e que portanto não poderia comprar na quantidade que de costume. Estaria a juramentada hipocrática em questão negociando com a saúde da minha esposa?? Porque dias após o procedimento cirúrgico o hospital solicitou que levássemos o laudo médico que confirmava a necessidade da cirurgia pra operadora do plano de saúde fazer o repasse de valores. Se a médica tivesse negado atendimento pelo plano eu teria feito queixa junto a operadora. Mas o fato é que faltou ética, faltou respeito, faltou bom sendo por parte dessa profissional da saúde, que perdeu a paciente pra sempre, ganhou uma propaganda negativa gratuita que passamos a fazer, e ainda por cima ficou sem o provável desconto que queria em troca da "camaradagem" feita na cirurgia.

Carlos Ponte disse...

Realmente, na saúde não deviam empregar-se estes revoltantes meios mercantilistas mas, a verdade é que continuam a verificar-se. É denunciá-los!
Em Portugal, teoricamente, um caso como o que relata não se passaria. O nosso Serviço Nacionl de Saúde é universal e, tendencialmente, gratuito, não podendo alguém, em qualquer circunstâncias, ser privado de cuidados médicos.
Um abraço fraterno para o amigo Pedro,
Carlos Ponte

citadinokane disse...

Carlos,
O nosso Serviço Nacional de Saúde é universal também, a diferença se percebe pelo atendimento, no geral sofrível, isto é, não consegue atender a todos com qualidade.
As filas são enormes...
Por isso os planos de saúde tem uma procura crescente, mas infelizmente estão ficando similares ao público, péssimo.
Oxalá, encontremos sempre anjos vestidos de branco e que são denominados - médicos.
Um abraço Carlos,
Pedro

citadinokane disse...

Ivan,
Imagino a experiência que vc vivenciou, é lamentável a atitude dissimulada da "profissional" da saúde...
Já pensou se Esculápio, Hegéia e Panacéia resolverem sancionar a falta de ética, o sofrimento dela será cruel... Mas deixemos de lado a revolta pela revolta, importante é denunciar.
Um dia todos seremos julgados pelo que fizemos ou pelo que deixamos de fazer, pelo menos é o que diz a mitologia judaica-cristã...
Esperemos no todo-poderoso, que a paz esteja contigo.
Um abraço,
Pedro