quarta-feira, julho 19, 2006

Canção Póstuma (Cecília Meireles)


Fiz uma canção para dar-te;
porém tu já estavas morrendo.
A Morte é um poderoso vento,
E é um suspiro tão tímido, a Arte...

É um suspiro tímido e breve
como o da respiração diária.
Choro de pomba. E a Morte é uma águia
cujo grito ninguém descreve.

Vim cantar-te a canção do mundo,
mas estás de ouvidos fechados
para os meus lábios inexatos,
- atento a um canto mais profundo.

E estou como alguém que chegasse
ao centro do mar, comparando
aquele universo de pranto
com a lágrima de sua face.

E agora fecho grandes portas
sobre a canção que chegou tarde,
- E sofro sem saber de que Artes
e ocupam as pessoas mortas.

Por isso é tão desesperada
a pequena, humana cantiga,
Talvez dure mais do que a vida,
Mas à Morte não diz mais nada.

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