quinta-feira, agosto 03, 2006

1984

Lembrei-me de Rosah ao telefone, sorrindo como sempre, cobrando o tempo que estamos sem trocar idéias, falava dos novos projetos, nova banda, gostaria que eu assistisse o próximo show de sua banda, ela é vocalista juramentada... Não sei o porquê, mas a conversa com essa amiga, despertou a vontade de tomar um drink, talvez seja um condicionamento operante... Já é final de tarde, estou sentado aqui no escritório, os últimos raios de sol ainda visitam a minha janela, ando em direção da mesma(estou no 16º andar) e ainda consigo presenciar o sol alaranjado se pondo na Baía de Guajará, lindo espetáculo!!! (sussurro baixinho) Dou meia volta e caminho sete passos e já estou com a coqueteleira à minha frente, e rapidamente o limão cortado, retirado o miolo, em seguida o espremedor fez o resto do serviço, jogado o sumo do limão na coqueteleira, acrescentado umas quantas doses de vodka Absolut? Não sei quantas. Um pouco de licor de menta, açúcar pouco também, um tiquinho de Vermouth Dry, gelo à vontade, tampada a coqueteleira e sacudida como se estivesse numa escola de samba, sem perder o ritmo, shacker-shacker... Despejei em seguida num copo long drink, complementando com água tônica de quinino e para abrilhantar duas cerejas no fundo do copo e mais o canudinho... Distanciei-me para visualizar melhor... Que drink esverdeado lindo!
Aproximei-me com calma, agarrei o copo com confiança e vontade, canudinho jogando o líquido pra dentro e aí... Bingo!!!!! Uma delícia. Qual nome para o drink? Pensei – mas alguém já deve ter feito esse drink... A resposta do meu inconsciente foi a seguinte – fez outro não este. Resolvi denominá-lo de Rosebud, uma homenagem a Orson Welles, ou melhor dizendo ao seu filme Cidadão Kane.
Um drink pra cá... e mais outro... E as portas da memória vão se abrindo.
Ao fundo a música de Lô Borges...
O pensamento é uma força inacreditável, me veio a lembrança de um filme que assisti há muito tempo, o título do mesmo - 1984, baseado na obra de Eric Blair que utilizava o pseudônimo de Georges Orwell, essa obra cinematográfica impactava a todos que assistiam pela primeira vez e não foi diferente comigo. O filme tinha a direção de Michael Radford numa adaptação muito provocante.
No filme Winston Smith (John Hurt) é um funcionário do governo totalitarista liderado pelo “Grande Irmão” (Bob Flag), uma “entidade” que, através de telões, controlava a privacidade de todos os cidadãos do país.
A trama toma impulso quando um certo dia, Winston recebe um bilhete de uma bela garota chamada Júlia (Suzanna Hamilton), a quem conhecia de vista, ao ler o bilhete fica muito assustado, o mesmo dizia: "Eu Te Amo".
Os personagens Winston Smith e Júlia são funcionários subalternos de um partido que governa com poderes absolutos um país chamado Oceania, um Estado que vive em guerra constante com a Eurásia. Como todos os membros do partido, Winston e Júlia são espionados dia e noite pelas teletelas instaladas em toda parte, são obrigados a reprimir seus crimes de pensamentos durante alguns minutos por dia, vociferando em coro contra o renegado-traidor Goldstein, expandindo os slogans do partido: “A guerra é a paz” e “A liberdade é a escravidão”.
Winston Smith sempre que se recolhia ao seu apartamento, ia para um canto da casa, onde não era alcançado pela teletela, mantinha escondido um diário onde fazia várias anotações, Winston escreve: “Ao futuro ou ao passado, a uma época em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros e que não vivam sós - a uma época em que a verdade existir e o que foi feito não puder ser desfeito”.
A trama vai se desenvolvendo mostrando um Winston muito desconfiado com tudo, depois de um tempo Winston e Júlia passam a se encontrar com certa freqüência, se tornam amantes, o amor na visão do partido é desnecessário, cabendo a relação sexual apenas para procriar sem se falar em prazer, começam aí várias transgressões...
Os encontros são clandestinos, abrigados em um quarto que mais parece uma ilha esquecida de um passado em que o regime atual não existia, eles se amam e tudo parece frágil demais....
Acabam sendo denunciados e presos, entram em contato com O’Brien (Richard Burton), um alto dirigente do partido, que os leva a entender que uma organização secreta procura derrubar o regime.
Presos, interminavelmente interrogados e torturados pelo próprio O’Brien. Sob a ameaça de torturas atrozes, os amantes se negarão, Winston com uma gaiola enfiada em sua cabeça e diante de sua face uma ratazana faminta pronta a devorar o seu rosto, suplica a seu carrasco para que inflija essa tortura à Júlia.
Liberados, seus caminhos se cruzam uma última vez, indiferentes, vencidos, eles se perdem na multidão. O partido ganhou, pois Winston, que se obstinara em se tornar de novo um homem(nos moldes do partido), “alcançou a vitória sobre si mesmo”, é verdade: “Agora, ele amava o Grande Irmão”, o ditador de Oceania.

Vale aqui ressaltar que o modelo adotado para o Reality Show que infesta as programações televisivas do Ocidente, foi inspirado pelo filme 1984, com o seu Big Brother.

Mas como eu ia falando mesmo, aquele drink esverdeado, a amiga Rosah... Deixa pra lá, o cabeção tá telefonando me convidando para a missa, ainda grita ao telefone "...Não esquece do terço, pô!!!".
Vós sois o lírio mimoso...

5 comentários:

direito & esquerdo disse...

Amigo Nelito,

Do jeito que te conheço, deves ter esquecido do terço ao sair com pressa.
É claro que o esquecimento foi devido aos afazeres cotidianos e esse Rosebud desgraçado.
Na próxima reze por nós, amigo.
Bruno

citadinokane disse...

Bruno,
Rezo sempre para que Deus proteja a todas pessoas de bem, vc e sua família estão incluídos em minhas orações.
Um abraço,
Pedro

marisanblog disse...

Ô Pedro,

Reze por mim também, pra eu ter coragem e paciência para ler estes textos prolixos...rsrsrs

Obs. Não é verdade, os textos dos amigos leio com muita dedicação.

Abraços

Mari

citadinokane disse...

Mari,
Independente dos textos, todos os amigos estão incluídos em minhas orações... É claro que te incluí nesta lista...
Abs,
Pedro

marisanblog disse...

Obrigada, tá?!

Beijos.

Mari