terça-feira, agosto 29, 2006

Ao meu poeta com carinho...


“Il ne dit pas um mot qui ne soit à propos”

Um homem caminha por uma estrada tortuosa e cheia de percalços, não se intimidando com os perigos da empreitada, arranca um punhal que carrega na cintura e com a mão esquerda o mantém em riste, o olhar se fixa no horizonte, sente sede, mas não pode parar, sente fome, mas tem que caminhar...
Caminha, caminha...
Sente o cansaço, fome e sede...
Não pode parar...
Decidido segue pela estrada sem olhar para trás, por alguns momentos o medo se aproxima, as pernas fraquejam, o cansaço se abate novamente sobre o corpo, este já gasto por inúmeras batalhas. Muitas primaveras já se foram e deixaram marcas indeléveis no semblante do caminhante...
As lembranças invadem a sua alma, as pálpebras cansadas se fecham e por um átimo de segundo uma película da sua vida se projeta em sua frente... O coração dispara descompassadamente, só agora percebe que está suando em bicas. Morde os beiços, abre os olhos e sussurra bem baixinho: - “caminhar, eu preciso caminhar...”
Guarda o punhal que carregara empunhado, senta em uma raiz de uma frondosa árvore que está no caminho, não resiste e chora, as mãos em forma de concha encobrem o rosto, a jornada talvez exija dele mais do ele possa dar...
A noite desce seu manto escuro sobre o caminhante errante, as lágrimas secaram, em silêncio continua escutando os fantasmas, é torturante para ele escutá-los, se contorce, chora novamente, solta um grito... Mas ninguém o escuta...
Exausto nem percebe que dormira sobre a relva, um sono inquietante é verdade, mas o suficiente para recuperar as energias e retomar a caminhada.
Fez uma catarse, não quer mais pensar no passado, sente que já não anda sozinho, traz no coração uma companhia – a esperança. Exorcizou todas as incertezas e acredita que pode ser feliz novamente.
Os primeiros raios de sol inundam a estrada que ele escolheu para caminhar, de repente ver tantas belezas pelo caminho, resolve parar e comemorar as pequenas descobertas do seu caminhar. Traz um alforje e um violão, ambos dependurados em seus ombros, puxa a viola dos ombros e inicia uma cantoria desbragadamente mundana, despudoradamente bela e humana... Canta e declama versos redivivos, a canção dá novas cores as coisas que estão em torno dele...
Quando olha para os lados e atrás, o poeta se assusta com tantos loucos que estão a bailar e a comemorar a canção das suas vidas, brindando com destilados e fermentados, sorriem e gritam para o poeta não parar de cantar e declamar suas alegrias e desventuras, os olhos do poeta espraiam luzes por sobre os loucos...
Eles continuam levantando os copos, as taças...
Continuam brindando...
Os loucos continuam acompanhando o poeta pelo caminho errante...

Amigo poeta não te dou presente de lata, porque se amassa, não te dou presente de vidro, porque se quebra...
Receba humildemente este abraço de um irmão do caminho, mais um que se juntou aos loucos que te rodeiam e que são muitos, e continuam pedindo: -"Poeta não pára, continua cantando e declamando tuas alegrias e desventuras... Continua poeta, continua amigo..."

Parabéns hermano por teu aniversário, que é hoje e sempre.

11 comentários:

Fred Guerreiro disse...

Atirou no que viu, acertou no que não viu.
Esse poeta na verdade é um Guerreiro, com o qual ninguém consegue acompanhar a fé.

Navi Leinad disse...

Parabéns Bueres! Paz, luz e evolução em tua caminhada! Felicidades.

citadinokane disse...

Fred,
Esse poeta é tão guerreiro quanto você.
Homenagem a todos poetas que lutam e vivem no fio da navalha.
Já está linkado o endereço do INTIMORATO.
Um abraço querido companheiro,
Pedro

citadinokane disse...

Ivan,
Junto com o poeta Bueres, penso que outros loucos-poetas virão desequilibrar a rotineira vida daqueles que não ousam jamais sonhar...
Um abraço poeta amigo,
Pedro

Direito & Esquerdo disse...

Pedro,

Mais uma ode à amizade, não é?
Mas, só quem conhece o o vulgo "locuBueres" sabe verdadeiramente do que estás falando, apesar da descrição ter sido bela e profunda.

Ao "LocuBueres":

Amigo,

Tu que me perdoaste pelos erros que cometi no passado e, por isso, sempre e eternamente, estarás desfilando e cantando no picadeiro da minha amizade.
Força amigo, a vanguarda é pouco para ti, teu limite é o infinito.
Saúde para que, como o Nelito escreveu, tu possas alegrar os doidos e, também, aos sãos.
Sempre com a consciência que todos somos seres híbridos, somos um pouco de cada.

Bruno

citadinokane disse...

Dom Bruno Corleone,

Tu que tantos caminhos percorreste.
Tu que na noite serena de algum lugar no passado, acreditando em utopias e acompanhado de umas pessoas estranhas que falavam em "revolução", colavas cartazes nos postes e pichavas os muros da intolerância, com uma alegria contagiante.
Tu que enfrentaste a incompreensão dos parentes para juntar a tua voz aos gritos dos outros "loucos"...
Por que outros "loucos"?!
Tu querido amigo eras naquela multidão de "sonhadores" o mais incendiário de todos... Um "louco" também.
Bonito o reconhecimento que fazes do passado ao lado do nosso poeta, sempre busquei que tu e o poeta não perdessem a ternura jamais...

Um abraço,
Pedro

Anônimo disse...

Bela homenagem!
Parabéns ao Eduardo.

Fátima

citadinokane disse...

Fafá,
O poeta deve ter lido a homenagem. Ele está em silêncio...
Um beijão,
Pedro

marisanblog disse...

Pedro,

Não sei quem é mais poeta, ele ou você.

Felizes àqueles quem podem desfrutar uma homenagem como esta. Parabéns para ele e para você.

Abraços

Mari

marisanblog disse...

Pedro,

Acho que você anda meio sumido. Reclamei com o outro sumido Bruno.

Beijos

Mari

citadinokane disse...

Querida Mari,
Depois do silêncio a bonança...

Poeta é aquele que consegue extrair do nada vida.
O amigo poeta deu colorido diferente no mundo de muitos que compartilham a loucura de viver mundanamente...
Besos y abrazos,
Pedro