sexta-feira, agosto 18, 2006

Clarice Lispector Eterna.

Gabriela leitora Catalã-argentina, pergunta-me se gosto da literatura de Clarice Lispector, Gabriela é argentina e estuda a língua portuguesa em Barcelona na Espanha.
Gosto de Clarice.
Gosto muito de Clarice Lispector.
Os textos são instigantes com temas que versam sobre a solidão do homem diante do universo e a linguagem como o recurso para suportar esse desamparo...
Gabriela e queridos leitores apresento nesse post uma pequena mostra da genialidade de Clarice, o 1º texto, singelo, que diz e desdiz o amor, ou vice-versa. Ainda acrescento um 2º texto que exige de todos – prestar mais atenção na vida. Talvez o post fique um pouco comprido, mas vale a pena ler Clarice, conhecê-la. O amigo Tico Futrika não gosta de post longo, desde já peço perdão, mas é necessário falar de Clarice urgentemente.
Clarice Lispector nasceu a 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, Ucrânia. Recém-nascida veio com os pais, em 1921, para Maceió. Em 1924, a família mudou-se para Recife e, em 1935, passou a morar no Rio de Janeiro. Em 1943, tornou-se aluna da Faculdade de Direito. Nesse período escreveu seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. Casou-se com o embaixador Maury Gurgel Valente. A seguir, morou em Nápoles, Berna, Torquay (Inglaterra) e Washington.
Em 1977, publicou seu último livro, A Hora da Estrela. Faleceu, no dia 9 de dezembro, desse mesmo ano, devido a um câncer no útero.

1º texto:
Não te amo mais (Clarice Lispector)

"Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase:
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais... "
Obs.: Agora leia de baixo para cima.

2º texto:
Eu sei mas não devia (Clarice Lispector)

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma aacender cedo a luz.
E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã
sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro eouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorrisode volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em
que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento
ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica
satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar,
e se perde de si mesma."
__________________________________________

"... E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para a casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.Sim." (Clarice Lispector - A Hora da Estrela)

9 comentários:

Xico Rocha disse...

Caro amigo Pedro, vês como o cosmo conspira? que feliz coincidência nós postarmos algo quase que simultaneamente sobre Clarice.
Faltou apenas o amigo falar do tempo que ela morou em Belém.
Abraços
Xico Rocha

citadinokane disse...

Xico,
Nessa hora falta um Rocha, memória de elefante... Quase um Tuxaua para com autoridade lembrar ao mundo que Clarice provou da nossa manga, né?!

marisanblog disse...

Maravilhosos.

Você e Clarice.

abrçs

Mari

citadinokane disse...

Mari,
Como diria o locobueres: - A gente anda na corda de sombrinha... Aprendendo com o olhar, com o sorriso e as lágrimas que insistem em rolar pela nossa face...
O resto é viver.
Um abraço,
Pedro

gabriela disse...

Pedro,
adorei te post, encontrar as palavras de Clarice aonde quer que for é sempre uma alegria para mim. Muito obrigada!!!!
Te deixo um trecho de "Água Viva" que diz:
“Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo a corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras — e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão."

Aproveito para te comentar que eu sou pintora e estou tentando captar a quarta dimensao do instante já, de que ela fala nesse maravilhoso livro.

Um abraço,
Gabriela

gabriela disse...

Pedro,
adorei te post, encontrar as palavras de Clarice aonde quer que for é sempre uma alegria para mim. Muito obrigada!!!!
Te deixo um trecho de "Água Viva" que diz:
“Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo, eu corpo a corpo comigo mesma. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras — e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão."

Aproveito para te comentar que eu sou pintora e estou tentando captar a quarta dimensao do instante já, de que ela fala nesse maravilhoso livro.

Um abraço,
Gabriela

citadinokane disse...

Querida Gabriela,
Veja como são as coisas, o gosto por Clarice sempre considerei de uma sensibilidade extrema... Não estou com isso querendo dizer que eu sou hipersensível, sinceramente, vejo essa sensibilidade nas outras pessoas, naquelas que abraçam um livro de Clarice com ternura e um brilho no olhar após a leitura do mesmo. És uma dessas pessoas, demonstras em cada palavra, vírgula... É linda a literatura que transforma a pessoa em um ser humano melhor, atento ao pulsar da vida que nos rodeia...
Não poderias deixar-me mais surpreso com o fato de buscares a quarta dimensão através da arte.
Muito bom te conhecer e um fraternal abraço,
Pedro

Mira Baeta disse...

Oi Pedro... me dá licença de fazer um aparte? A intenção não é criticar, ok? Apenas informar...
Também amo a Clarice, mas o texto acima não é dela, e sim da Marina Colasanti.
Ultimamente temos visto inúmeros textos sendo publicados na net com nomes de autores errados (Jabor, Veríssimo, Mario Quintana, Rubem Alves, etc.). Acho importante darmos o crédito a quem de direito.
Espero não tê-la chateado.
Um abraço
Mira

Mira Baeta disse...

Oi Pedro... me dá licença de fazer um aparte? A intenção não é criticar, ok? Apenas informar...
Também amo a Clarice, mas o texto acima não é dela, e sim da Marina Colasanti.
Ultimamente temos visto inúmeros textos sendo publicados na net com nomes de autores errados (Jabor, Veríssimo, Mario Quintana, Rubem Alves, etc.). Acho importante darmos o crédito a quem de direito.
Espero não tê-la chateado.
Um abraço
Mira