domingo, agosto 13, 2006

Conto Proparoxítono

Ivan o poeta, encaminhou-me um pequeno conto que estava um tempão guardado em seu computador, não é dele, achou muito legal e gostaria de compartilhar com outras pessoas, o autor é desconhecido, eu li e achei muito inventivo o texto, vamos publicar e se alguém conhecer o autor do conto manda um e-mail pra gente, dar a César o que é de César...

"CONTO PROPAROXÍTONO

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice.
De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula: ele não perdeu o ritmo e sugeriu um longo ditongo oral, e quem sabe, talvez, uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.
É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa.
Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta dela inteira. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal.
Que loucura, minha gente! Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos.
Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois.
Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou pela janela, e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
Agora, quem coloca ponto final sou eu. Ou melhor: coloco dois. Um, é para não perder a mania. Outro é porque isso é um conto rápido, e não uma oração adjetiva explicativa. (Autor desconhecido)

8 comentários:

Lila Magritte disse...

Los recursos del lenguaje para seducir son insondables.
El Verbo y la Gramática despejan el camino.

clarissa disse...

Me resulta curioso entender la lectura en uno de mis intentos, que no el primero, de leer el portugués. Quizá porque el castellano no es mi lengua materna, sino el catalán y el francés la lengua de mi abuelo que tambien aprendí. Ya sería hora de adentrarme en esa lengua tuya, tan bonita, tan sonora, tan suave.

Gracias por acercármela con esa narrativa tan erudita y con ese dominio del funcionamiento de la lengua y sus elementos.

Um abraço,

Carlos Ponte disse...

Olá Pedro,
Esta é de especialista! Com toda a certeza de Antônio Houaiss para cima.
Um abraço,
Carlos Ponte

Navi Leinad disse...

Fico grato pelas referências a mim com "poeta" :-)
Tô sempre na área!
Um abraço!

citadinokane disse...

Lila,
As palavras constróem a paz e a guerra.
Realmente a linguagem aponta novos caminhos e seduz... Principalmente quando as palavras são sussurradas ao ouvido... É de arrepiar...
Irei te visitar sempre.
Um forte abraço fraternal,
Pedro

citadinokane disse...

Carlos,
Nós que falamos português, sabemos o quanto é difícil o jogo que o texto estabeleceu. Carlos passou pela minha cabeça o velho Houaiss, interessante a tua citação.
Abraços irmão e obrigado pela tua presença,
Pedro

citadinokane disse...

Ivan,
Poeta não é para quem quer, só para quem pode...
Estás podendo... hehehe... brincadeira, só pensa naquilo!
Um abraço,
Pedro

citadinokane disse...

Clarissa,
Que bom que tu vieste ao meu blog, estarei sempre te visitando...
A língua apresenta muitas armadilhas, muito cuidado com ela, mas é possível dominá-la.
Um forte abraço e volte sempre,
Pedro