domingo, agosto 27, 2006

Dante Milano, o poeta esquecido.

Quando nos encontramos em tertúlia, o amigo Nilton Atayde gosta de declamar a poesia de um brasileiro desconhecido, desconhecido mesmo, ou melhor dizendo, desconhecido para o grande público, porque pessoas como o nosso amigo estão sempre atentas ao bom alimento da alma – a poesia.
Não esqueço de um certo dia que estávamos em estágio alfa, tudo em decorrência da ingestão de destilados, fermentados e o líquido dionisíaco... O locobueres com a mão direita erguia uma taça transbordante de tinto chileno, com a língua pesada, palavras balbuciadas e os olhos quase que fechados, pergunta ao Nilton – Irmão como é o nome daquele poeta que tu gostas pra caramba?!
O indefectível Atayde responde ponderadamente – Qual deles, parceiro?!
O locobueres não responde, mas a sua mão direita agitada conduz a taça ao encontro dos lábios dissolutos... Bueres com a respiração presa e os olhos cerrados, verte goela a dentro o delicioso líquido vermelho, em pouco menos de 4 segundos restava apenas a taça vazia sobre a mesa, é isso mesmo, uma taça vazia e cheia de ar...
O locobueres recobrando o fôlego, complementa a pergunta feita antes ao amigo Nilton com a voz nasalar – É aquele poeta desconhecido e que o Manuel Bandeira também gostava.
Atayde agora alegre diz com todas as letras – Dante Milano!
Nilton não apenas declamou a poesia de Dante Milano, como fez questão de discorrer sobre a vida e parte da obra do poeta e assim aquela tarde findou-se alegremente.
Chegando em casa fiquei pensando, elucubrando em torno dos ensinamentos literários...
A brisa da madrugada a confirmar que só a experiência pode proporcionar aos pobres mortais, como nós, tesouros intangíveis, amealhados com a convivência dos justos e sábios...
A sabedoria nada tem a ver com a cultura acadêmica, a própria obra de Dante Milano não percorreu esses caminhos tortuosos tão bem guardados pela nossa intelligentsia tupiniquim.
Em um encontro recente com o amigo Atayde, trocamos muitas idéias e pedi que enviasse um e-mail sobre Dante Milano para que socializássemos com outros amigos e leitores informações sobre este grande poeta brasileiro, não tão conhecido como Vinícius e Mário Quintana.
Recebo as informações e abaixo publico na íntegra:

“Meu caro Pedro.
Eu não entendo porque algumas pessoas brilhantes têm o reconhecimento público e outras, igualmente brilhantes, não conseguem se destacar. Isso ocorre em todos os ramos do conhecimento, nas artes, na literatura, etc., e em todo lugar do mundo. No Brasil, por exemplo, e particularmente na poesia, existiu um poeta cuja qualidade nada deixava a desejar a outros como Drummond ou Manoel Bandeira, para ficar nessas duas expressões. Trata-se de Dante Milano (1899-1991), poeta carioca que, por muito pouco, não é absolutamente desconhecido na literatura brasileira. Aliás, pelo que lemos a seu respeito, ele fazia questão do anonimato, achava-se "avesso ao rumor de falsa glória", pois entendia que "só o silêncio é musical".
Dante Milano freqüentou as rodas literárias do Rio de Janeiro, onde nasceu e viveu, mas nunca esteve próximo da fama. Seu primeiro e único livro, "Poesias", foi publicado quando tinha 49 anos de idade e foi recebido efusivamente pela crítica. Embora convidado, recusou-se em candidatar-se à Academia Brasileira de Letras. Foi considerado por Carlos Drummond de Andrade "um poeta de extraordinária qualidade".
Incito-vos, portanto, a procurar conhecer melhor esse "extraordinário" poeta.
À propósito, existe amor falso e amor verdadeiro?
Com a palavra, Dante Milano, que além de poetizar, filosofa.

"O falso amor imita o verdadeiro
Com tanta perfeição que a diferença
Existente entre o falso e o verdadeiro

É nula. O falso amor é verdadeiro
E o verdadeiro, falso. A diferença
Onde está ? Qual dos dois é verdadeiro?

Se o verdadeiro amor pode ser falso
E o falso ser o verdadeiro amor,
Isso faz crer que todo amor é falso

Ou crer que é verdadeiro todo amor.
Ó verdadeiro amor, pensam que és falso
Pensam que és verdadeiro, ó falso amor "
(POEMA DO FALSO AMOR)
Um forte abraço do teu irmão,

Nilton Atayde.”

Agradeço a colaboração do Nilton, e resolvi encerrar este post com mais uma poesia de Milano, eu sei que neste momento alguns amigos estão chateados com o post eles gostam de coisas rápidas, são jovens por isso estão perdoados, mas prometo amigos que será rápida, uma pequena poesia muito linda e comovente, que só acrescenta ao grande poeta que Atayde nos revelou acima, trata-se do poema a Pietà, nele Dante Milano trata singularmente da dor. Não fala da dor de uma santa, mas da dor de uma mulher, acima de tudo – humana...

PIETÀ

Essa Mulher causa piedade
Com o filho morto no regaço
Como se ainda o embalasse.
Não ergue os olhos para o céu
À espera de algum milagre,
Mas baixa as pálpebras pesadas
Sobre o adorado cadáver.
Ressuscitá-lo ela não pode,
Ressuscitá-lo ela não sabe.
Curva-se toda sobre o filho
Para no seio guardá-lo,
Apertando-o contra o ventre
Com dor maior que a do parto.
Mãe, de Dor te vejo grávida,
Oh, mãe do filho morto!

6 comentários:

Kalinka disse...

OLÁ PEDRO

Dante Milano...para mim era mesmo desconhecido até este momento.

Poeta carioca achava que só o silêncio é musical...

Bela poesia sobre a dor de uma mulher humana - Pietá.

Beijos com carinho.

marisanblog disse...

Muita linda poesia "Pietá". Adorei. Quanto ao poema do Amor Falso, acho que Dante ficou em cima do muro, com medo de encarar a "parada" e o Nilton foi na corda, rsrsrsrs

Quanto a coisas muito longas pra ler, exceto poesias e alguns muitos interessantes, tambem sou parceira do Bruno.

Abraços

Mari

citadinokane disse...

Kalinka,
És sempre bem vinda ao nosso blog, a poesia de Milano é linda. A blogosfera possibilita esses milagres, informação online, o mundo é uma aldeia.
Beijos e abraços fraternos,
Pedro

citadinokane disse...

Mari,
O Cabeção está fazendo escola, hahaha...

marisanblog disse...

Não força Pedro, ...rsrsrs

citadinokane disse...

Mari,
Rsrsrs... Tá bom!