quarta-feira, agosto 16, 2006

Insônia...

Ele chegara cansado, a casa em completo silêncio... A esposa e os filhos viajaram para visitar uns parentes no final de semana. O silêncio o incomodava profundamente, mergulha na banheira da suite, a água quente o relaxa por um momento, bastou se encaminhar para o quarto e várias preocupações se apossam dele, deita rola de um lado para o outro e nada do sono... Fica a pensar na vida, na sua especificamente... Fecha os olhos e a imagem pictórica o transporta para longe.

A sua infância transcorrera em Belém, uma cidade amazônica, quente e com alta umidade do ar, encravada sob a linha do equador. Ali, nas origens remotas de sua cultura, estava a derrota, e sempre se perguntava: - Porque Deus havia transformado a região da fartura em pobreza?! Não compreendia. Mas trazia no peito uma esperança que sempre se avivava juntamente com o seu povo; o mesmo que no passado havia incendiado a região com a Revolução Cabana.
Acreditava que trazia toda uma imaginação cultivada por sua avó...
A evocação da imagem de sua avó fez com que se perdesse em lembranças...
Aos borbotões as lembranças de sua infância afloravam, transbordando num saudosismo bem idiossincrásico, não conseguia conter a emoção que parecia querer saltar de sua boca... Talvez fosse bom gritar, chorar... Mas não conseguia, aquele nó na garganta começava a incomodá-lo.Com os olhos marejados, recorda quando caía a noite, já deitado em sua rede e disposto a dormir, sua avó bem velhinha, a face bem enrugada, pedia que ele ficasse calado, que fechasse os olhos e escutasse no manto estendido pelas sombras da noite o murmúrio da água penetrando airosamente as entranhas da terra, dizia sussurrando aos seus ouvidos: “filho os nossos antepassados habitam o subsolo e os seus espíritos estão angustiados desde que os portugueses invadiram o nosso mundo e o reviraram”.
As mulheres de sua casa preservavam a concepção que os antigos tinham sobre o mundo, não mais conheciam a língua dos ancestrais, já perdida no tempo por obra e imposição do conquistador ao longo dos séculos. Mas insistiam em garantir para as futuras gerações, essa sabedoria mágica dos antigos, transmitindo-a através de diálogos simples que só o tempo e a vida ensinam.
As irmãs, a mãe e a avó, agora percebia com nitidez o quanto elas vincaram em sua alma os valores dos antepassados, não podia fugir de sua herança, pensava.
Acende um cigarro, a fumaça infesta o ambiente, já é tarde da noite... O quarto vazio, a casa vazia, o relógio na parede, o silêncio da madrugada vai sufocando-o aos pouco, o peito aperta e novamente a vontade de gritar, mas os dentes cerram a boca.
A digressão sobre sua vida o deixou mais angustiado...
Resolve tomar um calmante e um bocado de gim, para em seguida fazer a leitura de um poema de Neruda.
Finalmente o sono chega, juntamente com os primeiros raios de sol.

Antes de Amar-te... (Pablo Neruda)
Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas;
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.

7 comentários:

Mikas disse...

Á vontade, se der mais jeito posso enviar a imagem por mail.

Mikas disse...

Por vezes as viagens ao passado são dolorosas pelos momentos que doeram mas tb pelos bons momentos que não voltarão.

citadinokane disse...

Mikas,
Não precisa enviar, consegui copiar, já está publicado.
Quando as feridas do passado não são curadas, o presente apresenta um mal estar, o futuro fica confuso...
Um abraço fraterno,
Pedro

Navi Leinad disse...

clap clap clap clap clap clap...
Aplausos, porque o post merece!

gabriela disse...

Olá Pedro,
é a primeira vez que visito teu blog. Te encontrei no de minha amiga Gaby Cortazariana.
Gostei muito deste post e decidí escrever, mas vou continuar visitando os outros.
Eu só uma argentina, morando en Barcelona .
Ali aprendo português, língua que eu adoro!!!
Justo hoje peguei Água Viva, de Clarice Lispector, para lê-lo nestes dias. Gosta da literatura dela?
Também gosto muito de música e concordo com você na maioria que das que aparecem em teu "perfil".
Acho que vou continuar vindo :-)

Um abraço ,
Gabriela

citadinokane disse...

Gabriela,
Gostei tanto da sua passagem por aqui que resolvi em tua homenagem falar de Clarice Lispector.
Volte sempre quando quiser.
Um forte abraço fraterno,
Pedro

citadinokane disse...

Ivan,
És generoso e amigo.
Um abraço,
Pedro