quinta-feira, agosto 10, 2006

Lenda, história, pescador e amores impossíveis...

Conta uma lenda amazônica que na Ilha do Marajó, certa vez um velho pescador ao recolher a rede de pesca encontrou uma garrafa com rolha e dentro um papel enrolado...
Abriu a garrafa e encontrou uma pequena história de amor que não aconteceu, como diria Shakespeare, apenas uma noite de verão...
Ao ler o bilhete o velho pescador percebeu que se tratava de um devaneio, na certa um doidivana inveterado escrevera, o velho contrito e pensativo, resolveu enrolar mais um fumo no papel de embrulho, na primeira baforada ficou imaginando na fumaça que subia, o desespero e angústia desse louco ou apaixonado que lançava o seu grito para o mundo num bilhete rabiscado e jogado dentro de uma garrafa e que acabara boiando em sua rede no meio dos peixes... Pensava o velho pescador - o que fazer?
O pescador depois de baforejar demoradamente, havia tomado uma decisão, iria atrás do dono da mensagem.
Andou por toda ilha em que morava procurando o dono do bilhete, estava disposto a fazer chegar o bilhete até à amada do Romeu tupiniquim, anos após anos e nada, durante sua odisséia, ficava imaginando que poderia ter sido o último ato em vida do autor do bilhete, quem sabe já estivesse morto?! E sua busca seria em vão...
Mas continuava...
O velho pescador nunca encontrou a pessoa apaixonada do bilhete...
Até hoje naquele lugar as pessoas contam que ao entardecer sempre vêem uma visagem de um velho triste que numa canoa carregando uma garrafa, rema sem parar sumindo por entre os igapós e igarapés...
O que tinha no bilhete? Vou reproduzir o conteúdo abaixo:

"Sabe Angelina..,turss...
Perdoe-me, é a minha voz, esta rascante esta noite...
Na impossibilidade de evoluir já que sou apenas um velho homem, um anônimo na multidão, resolvi regredir, mas no bom sentido.
Nestes últimos dias do verão que passou, viajei para cidade de Soure, paraíso que fica na Ilha do Marajó. Lá, em plena lua cheia, resolvi emitir o meu grito primal para as pradarias, eu estava nú e carregava apenas uma moeda na língua.
Foram três dias bebendo a água pura, diretamente dos córregos, comendo pequenas frutas silvestres...
E foi deitando a tez na relva, olhos para as estrelas que compreendi que sou um cara apaixonado pelo que se foi e que a civilização já não pode me dar nada. O novo para mim é velho... Tão velho quanto o meu último amor, que se esvaiu feito a fumaça de um velho navio cargueiro no horizonte...
Perdoe-me, querida Angelina, agora estou com os olhos vermelhos, acho que do vinho ratuíno que ora bebo, ou talvez da música da Piaf que do vinil do meu tísico vizinho, me chega em lembrança quase inaudível, que trata de amores mal sucedidos...
Agora devo apagar a vela da escrivaninha, não por ser a última, mas para levar você na mente para o meu surrado colchão, porque o melhor do mundo são as ilusões e sonhos que podemos construir e a mente, só tem esse nome porque gera as mentiras mais doces.
Sem nunca ter te visto, neste momento, você é a minha luz e minha vida...
Receba um delicado beijo em seus pés e imaginárias rosas de verdade.(E.B.) "

6 comentários:

Navi Leinad disse...

É possível falar de amor com qualidade textual usando ingredientes tão simples como a vida do caboclo nos rios da Amazônia. Excelente texto!

mario disse...

Nossa
Bem bonito o tezto
Gostei bastante!!!
Acho que é o melhor pst que li no seu blog até hj
Continue me visitando

T+

citadinokane disse...

Ivan,
O caboclo amazônida tem muitas histórias... A cada cigarro de "porronca" enrolado uma memória desdobra no linguajar simples e sábio.
Nosso pequeno mundo do cabo norte, rios, canoas, pescador...
Um abraço,
Pedro
P.S.: Vou te linkar irmão.

citadinokane disse...

Mário,
Obrigado pela visita, são histórias e lendas de pescadores...

Um abraço,
Pedro

P.S.: Teu blog já está linkado no nosso.

Anônimo disse...

Pedro

Quando terminamos de ler o texto, meu marido e eu ficamos com aquela sensação de quero mais.Sem querer fazer aqui um juízo de conceito nossa surpresa e constatar o notavel.
Desejamos saber mais sobre a obra do autor já que consideramos o texto de uma formosura.

Lamia Koury

citadinokane disse...

Lamia,
A história eu inventei, parte do bilhete foi rabiscado pelo amigo Duda Bueres em resposta a um questionamento de uma leitora,publicado em alhures, estávamos degustando um vinho dionisiacamente maravilhoso. A gente começa a inventar mundos... A imaginação tem asas e viajamos com ela.
Muito obrigado por visitar o nosso espaço, continuaremos a contar outras histórias e lendas...
Um forte abraço fraternal,
Pedro