sábado, agosto 12, 2006

O Minarete


Queridos hermanos e amigos, resolvi jogar fora alguns papéis que se amontoavam sobre a minha mesa no escritório, uma tarefa árdua, muitas anotações... Verificar papel aqui, ali, põe o óculos para enxergar melhor... Eis que encontro uma folha com muitos garranchos quase inelidíveis, com respingos de vinho... Como não havia dado atenção ao escrito naquele papel?! Fiquei me perguntando. A memória consegue reconstituir o contexto e o autor da obra, há algumas semanas atrás quando começaram os ataques sobre o sul do Líbano, estava eu e o locobueres em meu escritório confabulando sobre um empreendimento que meu amigo estava em vias de realizar, como sempre Duda veio acompanhado de uma garrafa de vinho chileno Santa Helena, colocamos gêlo no balde e a garrafa rapidamente esfriou, liguei a televisão e constatamos pelo noticiário extraordinário que as bombas israelenses já faziam suas primeiras vítimas...
Com as notícias e imagens Duda ficara contrito e acabou emudecendo... O olhar embaciado e sem brilho fixava-se na tela do aparelho de TV, minutos depois ouvi algumas palavras balbuciadas ao vento... Em seguida a taça esvaziada rapidamente, nos cantos da boca o filete vermelho do vinho e o braço bruscamente corrigindo o espargir do líquido dionisíaco...
Me empresta um papel e caneta irmão! Entreguei imediatamente o que Duda pedira. Sentou-se na cadeira, colocou a mão esquerda por sobre as sobrancelhas, olhos fechados e o cotovelo apoiado na mesa... e começou a escrever...
Jogou esses garranchos no papel e ao final da folha parou bruscamente... Agora absorto se levanta e vai até à janela, comenta comigo que o sol já está se pondo e os raios estão muito encarnados... Apenas balanço a cabeça concordando.
Duda enche a taça de vinho e novamente a esvazia rapidamente, depois se vira e estica a mão oferecendo-me o papel rabiscado, ordenando: Guarda essa pôrra pra mim!
Nunca mais falei com o meu amigo, lendo o que escrevera percebo que o seu sangue árabe pulsa em sua veia inconformado, e não seria para menos com tanta violência na terra de seus antepassados...
Não sendo capaz de praticar violência nenhuma, Duda se defende com caneta e papel.
Aí vai o "katyusha" do nosso amigo para o mundo. Será que eu assisti a um caso de mediunidade?! Vamos ao que interessa:

"O Minarete (Eduardo Bueres)

Essa imensidão é um pensamento alucinado,
É vaga incerta que a praia nem reclama de volta .
Está comigo o incesto desta tarde,
Que nem é tarde...
É uma nave disfarçada na solidão,
Uma estação espacial.
Um paredão de areia e cristais de gelo e um astronauta vigia,
O cérebro sem gravidade, vê pelo céu o perecer da raça humana .
Uma imensa e multicolorida bola incandescente de fogo real e virtual
Girando em torno de si , desce lenta
Iluminada...
E ao mesmo tempo queimando todas as mentes encantadoras,
Que não deixarão legado algum.
Aquela gente que matava para comer
E a outra gente que comia por matar,
Agora, apenas morrerá.
No final,
Só uma fagulha ínfima de memória ,
A do viajante que sumia no horizonte missionariando a potência invulgar
Que intimidava os acompanhantes de destino
Que por direito
Podiam co-habitar o mesmo os dois átomos e a mesma molécula ;
Da amante que se banhava no jardim,
Admirando o diamante.
Que um amado sem sentir
Por um instante,
Pensou e não resistiu;
E dos elefantes e das corujas anãs das savanas
Que se engasgavam com as rações de chicletes e
Gramas de hortelã;
E dos arcanjos,
Moscas celestiais, sob o verde da festa final,
Que sobrevoavam em grande número,
Tocando harpas e atirando pequenas setas de luzes
Que cruzavam em graciosa beleza o universo.
E oceano
Envaidecido e apaixonado
Que comandava um exército de espuma ,
Precedido de um ciclone, subserviente
Que levava com um recado informal para todas as cidades
Que pariram muitos cais trazendo as
Últimas novidades em tipos de sais,
Comercial bem feito da sua própria potência e perfeição
Que em verdade era apenas uma mistura de areia com cadáveres .
As carpideiras aos milhares, puseram-se a cantar salmos de segunda
Em choros de primeira,
Em todas as praças de todos os lugares.
Segunda-feira;
Espiando lá do céu,
O astronauta em sua última missão,
Tomava sangue de tomate com suco de pulso;
Roubando a boca
De Gioconda, piscou para a câmera, fora do ar,
Para transmitir sua mensagem final... "

15 comentários:

mario disse...

Ol´s
O poema é lindo!!
Pena que existam esse ataques!!
Seu blog tah D+
Otimo sabado
Continue me visitando

T+

Direito & Esquerdo disse...

Dom Nelito,

Este LocoBueres é um iluminado.
Só bebendo uns destilados e "dos outros" com ele.
Amplexos
Bruno

Navi Leinad disse...

A inspiração é um dom magnífico! Sobrenatural e divino! É um sacrilégio que um ato tão vil como a guerra também possa revelar belezas. Tentar entender esse paradoxo é nosso castigo íntimo!

Carlos Ponte disse...

Olá Pedro!
Espero - esperamos todos, penso eu - que a resolução do CS da ONU seja o primeiro passo... Que não seja mais necessário afundarem as vossas mágoas em qualquer pomada chilena!
Um abraço fraterno,
Carlos Ponte

Anônimo disse...

Prof.Nelito... Pedão; temos a perfeita compreenção do carater do seu espetacular blog,que não é de relacionamento e que nem de longe pretendemos quebrar,digamos, a liturgia da proposta, porem gostariamos de que o sr. abrisse um canal com o Sr Bueres, se é que ele existe, já que uma amiga falou da possibilidade de se tratar de um holograma, uma personagem virtual, que expressa um desconcertante olhar sobre a poesia moderna brasileira e universal, sendo em verdade umas das faces do blog,por sinal a mais criativa e instigante.
Obrigado
Angelina Hathman

Anônimo disse...

Pedreo Nelito
Tenho acompanhado seu blog, parabens pela sutileza e inteligencia em abordar temas delicados como a guerra. A boa poesia é um estimulante que revigora o pensar e aquebranta o sentimento hostil da insanidade. A partir de hoje considero o seu blog parada obrigatória.

Saudações.

Nuno Setubal

citadinokane disse...

Mário,
Estou te visitando sempre e estás linkado no nosso blog.
Continue comentando os posts, obrigado.
Um abraço,
Pedro

citadinokane disse...

D.Bruno Corleone,
Esse nosso amigo é um cara legal e com uma sensibilidade incrível, tomara que reencontre a felicidade.
Ele me ligou e disse que te viu no Bancrévea, com uma sunga esquisita... Deixa pra lá.
Um abraço hermano,
Pedro

citadinokane disse...

Ivan,
Tens razão. É nosso castigo...
Tu és poeta, falas com propriedade.
Um abraço,
Pedro

citadinokane disse...

Carlos,
Essas pomadas fazem milagres...
Que a esperança da paz se concretize em ações, tomara que o CS da ONU restabeleça a civilidade.
Um abraço irmão de além-mar,
Pedro

citadinokane disse...

Nuno,
Muito obrigado por ler os nossos posts.
Existe sempre a vontade de compartilhar, e aqui estamos como diria Fernando Pessoa - bem acompanhados no caminho...
Um forte e fraterno abraço,
Pedro

Anônimo disse...

Cara Angelina.

Hoje eu me assustei com o manhecer.. para mim esse acordar era um vinho negro,em garrafa negra, colada aos olhos diante ao sol.
Só me acordei para vizitar o meu criador, aqui, neste plano menor, terráqueo.
O visitei em varios escaninhos da minha surrada memória, que me atendeu feliz feito uma pedra que se atira ao mar e tilinda varias vezes antes de mergulhar, deixando nas marolas as suas mensagens de eternidade, incompreensiveis, mais visiveis..

Em algumas manhãs a vida me falta, em outras, me assalta apontando uma adaga reluzente no coração da minha idade que me prefere por capricho no que agora sou.

Quando eu visitar, mãos crispadas, o dominio absurdo das cinco letras,

desde já deixo cunhado em martelo e formão, meu desejo, a ler nos meus olhos de mámore e minha voz taciturna,
à indifereça mais possivel que real sobre o mantra respeitoso, sobre o seixo, sobre o cimento e rosas inertes, terra e o cálcio amado;

Eu sei,que para aqueles feito eu,não há perdão.

Me comove aqueles a quem me empresto e ressusito, mas, só em meu paladar, em meu andar.., é que as vezes me ocorre de ver pelos que já não o fazem como nos..

É assim que me falo dessa manhã, fragmentos de um espelho pelo chão das minhas mesmas coisas, ré confessa ao sol.

Beba por mim, querida..,
por que ha nessas minhas palavras, uma aquarela borrada de amarelo Vangogueano

e o meu saber, não tem mais que uma orelha embrulhada num papel.

Um Beijo,
Felizdiadospais edubueres@yahoo.com.br

Anônimo disse...

Cara Angelina.

Hoje eu me assustei com o manhecer.. para mim esse acordar era um vinho negro,em garrafa negra, colada aos olhos diante ao sol.
Só me acordei para vizitar o meu criador, aqui, neste plano menor, terráqueo.
O visitei em varios escaninhos da minha surrada memória, que me atendeu feliz feito uma pedra que se atira ao mar e tilinda varias vezes antes de mergulhar, deixando nas marolas as suas mensagens de eternidade, incompreensiveis, mais visiveis..

Em algumas manhãs a vida me falta, em outras, me assalta apontando uma adaga reluzente no coração da minha idade que me prefere por capricho no que agora sou.

Quando eu visitar, mãos crispadas, o dominio absurdo das cinco letras,

desde já deixo cunhado em martelo e formão, meu desejo, a ler nos meus olhos de mámore e minha voz taciturna,
à indifereça mais possivel que real sobre o mantra respeitoso, sobre o seixo, sobre o cimento e rosas inertes, terra e o cálcio amado;

Eu sei,que para aqueles feito eu,não há perdão.

Me comove aqueles a quem me empresto e ressusito, mas, só em meu paladar, em meu andar.., é que as vezes me ocorre de ver pelos que já não o fazem como nos..

É assim que me falo dessa manhã, fragmentos de um espelho pelo chão das minhas mesmas coisas, ré confessa ao sol.

Beba por mim, querida..,
por que ha nessas minhas palavras, uma aquarela borrada de amarelo Vangogueano

e o meu saber, não tem mais que uma orelha embrulhada num papel.

Um Beijo,
Felizdiadospais edubueres@yahoo.com.br

citadinokane disse...

Angelina,
Ele existe, não é um holograma, tenho conversado ultimamente por telefone com ele...
Nossa amizade se estabeleceu pela coincidência dos gostos musicais e etc., o meu amigo além de poeta é um trovador, toca um violão que é uma maravilha, provavelmente o violão selou a nossa amizade, temos algumas composições em conjunto.
Vc pode estabelecer contato com ele pelo e-mail: edubueres@yahoo.com.br
E sejam felizes.
Um abraço,
Pedro

citadinokane disse...

Cara Angelina.

Hoje eu me assustei com o manhecer.. para mim esse acordar era um vinho negro,em garrafa negra, colada aos olhos diante ao sol.
Só me acordei para visitar o meu criador, aqui, neste plano menor, terráqueo.
O visitei em vários escaninhos da minha surrada memória, que me atendeu feliz feito uma pedra que se atira ao mar e tilinda várias vezes antes de mergulhar, deixando nas marolas as suas mensagens de eternidade, incompreensíveis, mas visíveis..

Em algumas manhãs a vida me falta, em outras, me assalta apontando uma adaga reluzente no coração da minha idade que me prefere por capricho no que agora sou.

Quando eu visitar, mãos crispadas, o domínio absurdo das cinco letras,

desde já deixo cunhado em martelo e formão, meu desejo, a ler nos meus olhos de mármore e minha voz taciturna,
à indifereça mais possível que real sobre o mantra respeitoso, sobre o seixo, sobre o cimento e rosas inertes, terra e o cálcio amado;

Eu sei,que para aqueles feitos eu,não há perdão.

Me comove aqueles a quem me empresto e ressuscito, mas, só em meu paladar, em meu andar... é que as vezes me ocorre de ver pelos que já não o fazem como nos...

É assim que me falo dessa manhã, fragmentos de um espelho pelo chão das minhas mesmas coisas, ré confessa ao sol.

Beba por mim, querida...
por que ha nessas minhas palavras, uma aquarela borrada de amarelo Vangogueano

e o meu saber, não tem mais que uma orelha embrulhada num papel.

Um Beijo,
Felizdiadospais edubueres@yahoo.com.br