domingo, agosto 20, 2006

Pedro, meu filho...


Guardei esta poesia de Vinícius há muito tempo, copiada com o bico da caneta e guardada em algum lugar de uma gaveta esquecida, hoje quando minha chica já está para entrar para puberdade, releio o texto, o papel amarelado pelo tempo e a madureza beijando-me insistentemente... Continuo acreditando em cada palavra cravada pelo poetinha, numa ode aos heróis anônimos, simplesmente o pai, não o superhomem... O pai que ama e desnuda um mundo de amores e tristezas, mas que sussurra ao ouvido do filho, as lutas e derrotas, o esforço e a fraqueza própria de cada ser humano, talvez por isso tão bonita de ser contada e cantada em prosa ou em versos, realmente me encanta a percepção de Vinícius sobre as vicissitudes da vida humana. Em baixo deixo a folha amarelada falar o que não consigo traduzir, lembrem de Saint-Exupéry:"Só se escuta bem com o coração!"
Com a certeza de que minha filha irá ler, ofereço enternecido a ela cada palavra do poeta: "- É pra você Pipa!!!"

"Pedro, meu filho...
Vinicius de Moraes

Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.
E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.
Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.
E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.
Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.
E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho..."

16 comentários:

Navi Leinad disse...

Bela homenagem!

Tozé Franco disse...

Vinicius no seu melhor!

Anônimo disse...

pedro
merci pour tes commentaires sur mon blog :-)
bonne journée
sylvie

citadinokane disse...

Ivan,
A gente vai guardando as coisas e um dia elas vêm à tona...

citadinokane disse...

Tozé,
Inesquecível...

citadinokane disse...

Sylvie,
Merci também por visitar-me, com certeza voltarei ao seu blog novamente, au revoir Sylvie.
Um abraço,
Pedro

Direito & Esquerdo disse...

Bonito, Lindo, . . .
Abs
Bruno

citadinokane disse...

Dom Bruno,
Não somos poetas, o jeito é buscarmos esses seres encantados - para revelar o que está contido n'alma humana...
Um abraço,
Pedro

marisanblog disse...

Pedro, com Vinicius, você apenas soma o poeta que há em você.

Parabéns. Está Lindo!

Abraços

Mari

citadinokane disse...

Mari,
Como poeta sou um ótimo guardador de papéis amarelados...
Obrigado por sua fidelidade.
Um abraço,
Pedro

marisanblog disse...

Pedro vá dormir..... 13 letras


rsrsrrs

Mari

citadinokane disse...

Pedro já dormiu... 13 letras

marisanblog disse...

Pior é que eu ainda confiro, rsrsrs

Mari

citadinokane disse...

Mari vai dormir... 13 letras

marisanblog disse...

Rsrsrsrs

Mari já acordou... 13 letras

citadinokane disse...

Mari insônia já... 13 letras