segunda-feira, setembro 04, 2006

Augusto, Cecília Meireles e lembranças...


Fiquei pensando no comentário feito pelo amigo Augusto Nunes, ontem ele fazia um lanche na Faculdade, entre um gole de suco e uma boa mordida no sanduíche, Augusto com muita seriedade dizia: - "Coloca a poesia da Cecília Meireles no teu blog irmão!" E continuou falando, "Eu fico muito emocionado com os poemas dela, não fala pra ninguém, mas já chorei lendo essa mulher... Lembro da minha infância, o cheiro da terra, o orvalho nas folhas... Tu sabes como é, né?! É o tempo que eu jogava peteca-paga-bolo..." Após dizer tudo, Augusto abre aquele sorriso metálico e com o dedo indicador em riste balançando, como fazia o Ronaldinho Gordo depois de marcar um gol, afirma saber que eu não irei publicar nada sobre Cecília Meireles, contrai os ombros, levanta o polegar da mão direita e sai caminhando... Em silêncio entra no carro e vai embora...
Querido amigo Augusto não lembro o nome da poesia que em confidência me pediste para publicar, a poetisa Cecília Meireles é grande, é eterna como todos os poetas. Eles falam com os deuses, é verdade.
É pra gente sentar e aprender a olhar as coisas e pessoas de maneira diferente. Fala Cecília...

A arte de ser feliz
(Cecília Meireles)

HOUVE um tempo em que a minha janela
se abria para um chalé.
Na ponta do chalé brilhava um grande ovo
de louça azul. Nesse ovo costumava
pousar um pombo branco. Ora, nos
dias límpidos, quando
o céu ficava da mesma cor do ovo de louça,
o pombo parecia pousado no ar.
Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa
e sentia-me completamente feliz.
HOUVE um tempo em que a minha janela dava
para um canal. No canal oscilava um barco.
Um barco carregado de flores. Para onde iam
aquelas flores? Quem as comprava?
Em que jarra, em que sala, diante de quem
brilhariam, na sua breve existência?
E que mãos as tinham criado?
E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las?
Eu não era mais criança, porém a minha alma
ficava completamente feliz.
HOUVE um tempo em que minha janela se abria
para um terreiro, onde uma vasta mangueira
alargava sua copa redonda.
À sombra da árvore, numa esteira, passava quase
todo o dia sentada uma mulher,
cercada de crianças. E contava histórias.
Eu não podia ouvir, da altura da janela;
e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso
foi muito longe, num idioma difícil.
Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam
com as mãos arabescos tão compreensíveis,
que eu participava do auditório, imaginava os
assuntos e suas peripécias e me sentia
completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde, e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas
a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Ás
vezes, um galo canta. Às vezes, um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

21 comentários:

Clarice Baricco disse...

En junio pasado, escuché a Nélida Piñon y ella mencionó a Cecília Meireles.
Quiero leer de Cecilia, me la han recomendado.
Y mira, tú la mencionas.
A traducir este poema.

Un abrazo

Augusto Nunes disse...

Caro Amigo, Mestre e Guru.
Mirastes no gavião e acertastes em cheio na "pomba". A poesia é essa mesmo... Um daqueles momentos de extrema lucidez, ou não, que todo ser humano tem. Vc tem razão, são palavras dos deuses. E Vc, como sempre, um mar de gentileza.

Muito obrigado amigo!
Um forte abraço.

P.S. Com relação àquele "jogo" eu acho que houve alguma confusão entre a minha e a sua infância... Mas tudo bem, estás perdoado. Afinal vc torce pra aquela coisa, o que é fácil de entender. He he he

Augusto Nunes disse...

Pedrão,
Está faltando a primeira parte no poema.
Segue aí:

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos
dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Taren disse...

Quisiera saber Portugues para comprender mejor tu blog.

Saludos, y gracias por visitar.

Taren

Direito & Esquerdo disse...

Grande Nelito,

Vulgo "amigão".
Realmente a singeleza do poema trazido por ti no post é algo inexplicável.
É como se estivéssemos enchergando as cenas, como se fossemos personagens anônimos a acompanhar a pasiagem.
Um amplexo
Bruno

citadinokane disse...

Clarice,
É sempre bom ler a Grande Cecília Meireles...
Besos

citadinokane disse...

Augusto,
Tu jogavas desde pequeninio aquele jogo.

Mikas disse...

A poesia dá-nos tanto e tantas vezes nós lhe damos tão pouco!

citadinokane disse...

Mikas,
Muitos poetas dedicam uma vida inteira, para que nós - simples mortais, possamos ouvir melodias de outras dimensões...
Existem poetas de um poema e ainda assim todos são enviados de Deus, para que continuemos entornando pelos poros emoções... Revelando a humanidade que está em cada um de nós.
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Bruno "Amigão",
Sempre muito sensível, né?!
Também pudera, sempre que abrias as janelas de teu apartamento, havia pássaros, flores, verde... e agora só se vê cimento armado.
Pobre "amigão"...
Abs,
Pedro

citadinokane disse...

Taren,
Seja sempre bem vindo.
Te visitarei outras vezes.
Viva o México!!!
Abrazos,
Pedro

gabriela disse...

Pedro,
não só queiro te dizer que gostei demais do poema de Cecília Meireles, mas também que fico feliz de conseguir entender tua língua -la dela- e poder assim desfrutar de tanta literatura maravilhosa!!!
Adoro olhar pela janela. Nesse sentido que a poesia diz .
Às vezes imagino uma janela inexistente diante das coisas que vão acontecendo , trazidas pela Vida...muita beleza para descobrir nas pequenas coisas, em singelos fatos do dia-a-dia que brinda-nos uma felicidade que por calma e silênciosa, só se revela aos corações abertos ao "ver" no invisível.

Obrigada pelo gratificante da visita :-)
Um abraço

citadinokane disse...

Gabriela,
Quero dizer-te que sinto um imenso prazer em interagir contigo, pessoa muito sensível.
Ainda ontem lembrei de ti Gabriela, os comentários inteligentes sempre fazem falta, que bom que estás viva.
Com relação ao poema de Cecília Meireles é de um encantamento sem par. É maravilhoso, lermos poesia.
Abraços e saudades, visite-nos sempre.
Pedro

marisanblog disse...

A infância, o sorriso menino, a imaginação...sensação salutar de felicidade dentro de todos nós. Que maravilha!

Beijos

Mari

citadinokane disse...

Mari,
Quantas janelas abrimos?!
É necessário escancará-las, urgentemente...

Solange Mazzeto disse...

Olá, estava navegando pelo google, e achei seu blog, por causa das 'janelas de Cecília Meireles', te add no meu blog

Solange

citadinokane disse...

Solange,
Cecília acabou abrindo outras janelas, né?
Já te visitei e gostei de tudo que li.
Beijos,
Pedro

Solange Mazzeto disse...

Oi, é verdade, abriu mesmo...

bjo

citadinokane disse...

Solange,
E vou continuar, ok?!
bjs

Sir Ethan McKennitt disse...

Teu blog é de uma beleza....

que possas sempre ser iluminado, mais e mais... Muita luz pra ti!

citadinokane disse...

Ethan,
Obrigado pela tua visita.
Visitarei o teu mundo virtual e tenho certeza que a luz está lá!
abraços,
Pedro