domingo, setembro 03, 2006

Roupas com charme e blindadas...



Roupas com charme e blindadas, acho que era assim que o programa na televisão anunciava a reportagem...

Assisti a um programa na TV – Fantástico (Rede Globo) já faz algum tempo, mas como diria o amigo locobueresé preciso dizer! –, e aqui estou escrevendo sobre o tema da violência. Lembro que na reportagem a jornalista Glória Maria viaja até à Colômbia e mostra uma empresa que confecciona roupas à prova de balas, feitas sob encomenda, atende o mundo inteiro – Reis, Presidentes, Ditadores...
O diferencial: as roupas são modeladas por estilistas, que buscam torná-las esteticamente bem apresentável.
Considerei a reportagem surrealista...
Estamos falando de roupas blindadas, é isso mesmo!
Inevitável a lembrança de um escritor italiano chamado Ítalo Calvino in Cidades Invisíveis, no final deste livro, o escritor acentua a urgente necessidade de que vivendo no inferno, podemos nos habituar a ele ou podemos, mesmo estando no inferno, começar a separar o que é do inferno e o que não é... Só assim é possível vislumbrar o melhor que temos e deixar o inferno para trás...
Voltemos à reportagem, a jornalista veste um dos modelos e afirma – Realmente é confortável! O indefectível modelito usado pela jornalista custa uma fortuna, muita grana...
Acredito que algumas pessoas devem ter dito – Que legal! Quero um.
Legal?!
Como é possível aceitar a cultura da violência e pronto, estamos bem?! Lamentável.
O cinismo beira o absurdo, a jornalista não se aventura a levar uns tiros para comprovar que realmente a roupa é resistente, mas não deixa de filmar a cobaia humana colombiana, que com um sorriso amarelo se mantém firme e forte, levando os balaços. As roupas resistem, palmas...
Ela não esquece de alertar, o preço das roupas é altíssimo, portanto, fora do alcance dos que estão expostos a todos os tipos de balas no cotidiano – a gentalha...
Os apóstatas de última hora diriam: Tudo gente desqualificada, pobre e humilde...
Não esqueçam, as roupas são “bonitinhas”, afirma a jornalista.
Fico pensando cá com os meus botões, - esse pessoal tá maluco.
Querem que eu aceite como natural o que não é.
Seria um dever da mídia denunciar e buscar alternativas à violência, mas cala e banaliza o que é detestável – as armas, mortes, blindagem e o escambau...
Quanto mais nos afastamos uns dos outros, mais nos estranhamos...
Criamos fossos culturais, étnicos, raciais que se somam aos abismos econômicos, e aí temos uma sociabilidade desordenada e descomprometida.
Na abordagem do grande sociólogo francês que faleceu em 1917 – Émile Durkheim, a solidariedade resultante desse esgarçamento social, encontra dificuldades para manter a coesão grupal, os laços sociais são desintegrados a partir de uma convivência perpassada por uma força centrífuga espetacularmente desagregadora.
Não buscamos a aproximação com os vizinhos, pela desconfiança permanente...
É o homem hobbesiano em sua mais pura essência, vivemos num “estado de natureza”... Em um milênio, tão promissor?!
O futebol ensina tanto, vejam as pessoas se abraçando quando o seu clube faz um gol, não existem diferenças de classe, todos iguais, um só mundo – o mundo da bola.
Precisamos reaprender a viver, simplesmente, sem balas, sem coletes, sem violências.

8 comentários:

xienra disse...

Gran tema el que propones. Es evidente que hay una banalización de la violencia, que llega a verse como algo normal y susceptible de ser socialmente aceptada. Quizas estemos ante un proceso de retorno a la edad media, eso si...con economía de mercado.Pero consolidando la estratificación de las sociedades, marginando minorías y potenciando las diferencias entre territorios.

Los "caballeros" actuales, defendiendo esa cultura de la Violencia, tanto real como simbólica. No tienen reparos en sancionar y cuestionar a quienes definden la paz desde las instituciones, ni en proponer bombardeos masivos allá donde haga falta a los "intereses reales".

Un abrazo y perdona mis ideas difusas...

Clarice Baricco disse...

ayyyyy tengo que sacar mi diccionario...

de acuerdo, aprenderé el idioma, no me queda de otra.

saludos

Carlos Ponte disse...

Fiquei siderado, Pedro!
Então agora estão fazendo roupa à prova de bala? Como diria um seu conterrâneo: Que mais nos irá acontecer. Gostei muito do seu texto: duro mas real… só aquele exemplo do futebol…
Bom, umas vezes, realmente, há confraternização, mas outras…
Paz, tolerância e concórdia!
Um abraço,
Carlos Ponte

citadinokane disse...

Xienra,
Economia de mercado e um retorno a Idade Média é uma realidade muito dura para todos nós...
Os "donos do poder" não sofrem como sofremos, são indiferentes ao tormento causado por ambições desmedidas e profundamente materialista.
Que Deus nos proteja contra a ganância dos "caballeros"...
Besos y abrazos,
Pedro

citadinokane disse...

Clarice,
É só sacar o dicionário e pronto.
Abrazos,
Pedro

citadinokane disse...

Carlos,
Talvez ocorra melhor quando as nossas seleções nacionais estão jogando...

marisanblog disse...

Assisti a reportagem e fiquei apreensiva quando a modelo submeteu-se a tal experiência. Eu hein, tá doido. Na dúvida, era melhor abraçar um Leão. Ou não?!

Mari

citadinokane disse...

Mari,
Só se for o Leão Azul, que não está "podendo" nada... hehehe...