quinta-feira, outubro 12, 2006

Bento XVI e o Islã...


Começo a escrever e sinto um cansaço extenuante, sei que não devemos reclamar, mas estou cansado e pronto.
Hoje é feriado nacional, dia de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil, a maioria dos brasileiros é católica, apesar de que nos últimos anos houve um crescimento significativo das seitas pentecostais (crença religiosa baseada em atributos espirituais referidos no Novo Testamento)... E bem a propósito escolhi um tema relacionado com a religião para dialogar com todos, recentemente causou muita polêmica na Europa as declarações do Papa Bento XVI sobre o Islã.
Antecipo de imediato, sou simpático ao ecumenismo, são muitos os caminhos que levam ao Todo-Poderoso, energia misteriosa que movimenta o universo e o tudo mais...
A religiosidade é uma manifestação inerente ao ser humano, o aspecto cultural, climático, geográfico e outros tantos, são constructos para a formatação dos meios que os homens historicamente se relacionam com o desconhecido (divindade e etc.), neste caso, assim são formadas as religiões. Daí a diversidade religiosa, refletindo as mais diferentes crenças que correspondem ao mosaico cultural mundial, um torvelinho de crenças, paixões, amor e ódio...
Tenho aprendido nessas poucas primaveras, velho é o mundo queridos leitores, soy um infante diante desse misterioso universo... Deixemos pra lá essas divagações pueris... Como ia falando, aprendi que em torno das religiões a palavra-chave: tolerância.
Li hoje no site da Agência Carta Maior e quero compartilhar com todos o artigo do Professor e jurista português Boaventura de Sousa Santos, inclusive mês passado esteve palestrando aqui em Belém na Universidade Federal do Pará, o nosso amigo Yúdice esteve lá e registrou no seu blog a visita de Boaventura.
Boaventura é um dos maiores estudiosos sobre globalização e suas implicações sociais e econômicas, sempre atento as contradições gestadas pelo mundo globalizado. Vamos escutá-lo, ok?!

A Exatidão do Erro – Boaventura de Sousa Santos (11/10/2006)

É claro que o papa Bento XVI não cometeu um erro quando em seu discurso falou sobre o Islã. Por isso, é necessário analisar os reais objetivos políticos de suas declarações. O primeiro e o mais óbvio é o de apor o selo do Vaticano na guerra de Bush contra o Islã e na guerra de civilizações mais vasta que a fundamenta.
O comentário no Ocidente ao discurso do papa alinhou-se pelas seguintes idéias: não foi um discurso do papa, foi um discurso do professor; talvez o papa tenha cometido um erro ao escolher a citação do Imperador de Bizâncio, mas isso não justifica as violentas reações no mundo islâmico; o enfoque central do discurso foi a relação entre a razão e a fé, e a crítica do moderno secularismo ocidental.
Por que razão nenhum destes argumentos é convincente? O papa falou como papa e escolheu o contexto que lhe permitisse romper mais claramente com a doutrina papal até agora vigente. Essa doutrina, vinda do Concílio Vaticano II e continuada pelo Papa João Paulo II, era a do ecumenismo e do diálogo entre religiões, no pressuposto de que todas são um caminho para Deus e têm, por isso, de ser tratadas com igual respeito, mesmo que cada uma reclame uma relação privilegiada com a Revelação.
O ecumenismo obrigava a considerar como desvios ou adulterações o uso da violência como arma de afirmação religiosa. Esta posição é desde há muito questionada pelo atual papa, para quem a superioridade da religião cristã está na sua capacidade única de compatibilizar a fé e a razão: agir irracionalmente contradiz a natureza de Deus, uma verdade perene que decorre da filiação do Cristianismo na filosofia grega. Ao contrário, no Islã o serviço de Deus está para além da racionalidade.
Por isso, a violência islâmica não é um desvio, antes é inerente ao Islã, o que faz do Islamismo uma religião inferior. Esta doutrina está bem documentada na sua condenação dos teólogos mais avançados no diálogo ecumênico, na sua recusa em designar o Islã como uma religião de paz, na sua posição contrária à entrada da Turquia na União Européia, dada a incompatibilidade essencial entre Islamismo e Cristianismo e ainda na sua convicção de que o Islã é incompatível com a democracia.
É, pois, claro que o papa não cometeu um erro. Foi exato no modo como formulou a sua provocação. Aliás, se o seu discurso pretendesse ser uma lição de teologia, ela seria de péssima qualidade. Por que não referiu o contexto da conversa entre o imperador e o persa e ocultou o passado beligerante e cruzadista do primeiro? Por que não citou outras opiniões contemporâneas totalmente contrárias à que preferiu? Por que não referiu que em qualquer das religiões abraâmicas há preceitos que podem justificar o recurso à violência, assim tendo sucedido em nome de todas elas?
Perante estas interrogações, é necessário analisar o discurso do papa pelos seus reais objetivos políticos. O primeiro e o mais óbvio é o de apor o selo do Vaticano na guerra de Bush contra o Islã e na guerra de civilizações mais vasta que a fundamenta. Tal como João Paulo II alinhara o Vaticano com os EUA na luta contra o comunismo, Bento XVI pretende o mesmo alinhamento, agora na luta contra o Islamismo. Em seu entender, perante o avanço do Islã a resposta tem de ser mais dura, e precisa do poder temporal para se concretizar. Tal como aconteceu com as Cruzadas ou a Inquisição. Trata-se, pois, de uma teologia de vencedores, uma teologia teo-conservadora, paralela à política neoconservadora.
O segundo objetivo é muito mais vasto. Ao defender uma relação privilegiada entre o Cristianismo e a racionalidade grega, o papa visa estabelecer o Cristianismo como a única religião moderna. Só no âmbito dela é possível conceber "atos irracionais" (a perseguição dos judeus, as guerras religiosas, a violenta evangelização dos índios) como desvios ou exceções, por mais recorrentes que sejam. Por outro lado, visa fazer uma crítica radical a um dos pilares da modernidade: o secularismo.
O papa questiona a distinção entre o espaço público e o espaço privado, e acha "irracional" que a religião tenha sido relegada para o espaço privado. Dessa "irracionalidade" decorrerão todas as outras que atormentam as sociedades contemporâneas. Daí a urgência de trazer a mensagem cristã para a vida pública, para a educação e a saúde, para a política e a cultura. O perigo desta crítica do secularismo está em que ela coincide com a posição dos clérigos islâmicos mais extremistas para quem, em vez de modernizar o Islã, há que islamizar a modernidade.
Os opostos tocam-se, e não se tocam para dialogarem, senão para se confrontarem. A irracionalidade deste choque reside nas concepções estreitas de racionalidade de que se parte. De um lado, uma racionalidade que transforma a fé numa crença racional ocidental; do outro, uma racionalidade que transforma a razão na manifestação transparente da intensidade da fé islâmica. A luta contra estes extremismos é mais urgente do que nunca, pois sabemos que eles foram no passado os incubadores de guerras e genocídios devastadores. Mas pode o Ocidente lutar contra o extremismo do Oriente do mesmo passo em que reforça o seu?


Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

4 comentários:

Tozé Franco disse...

Não gosto de extremismos, sejam eles quais forem.
Pedro, uma sugestão:
Comunidade ecuménica no verdadeiro sentido da palavra é que se vive na conunidade de Taizé. Aqui vai o endereço:http://www.taize.fr/.
Vale a pena ouvir os cânticos e captar-lhes o espírito.
Um abraço.

Leonardo Bruno disse...

Por que não referiu o contexto da conversa entre o imperador e o persa e ocultou o passado beligerante e cruzadista do primeiro?

Leonardo-Primeiramente, pq as cruzadas já não fazem parte do imaginário cristão europeu. Segundo, o imperador de Bizâncio estava isento da expansão latina dos cristãos romanos, ainda que a contenda tivesse inicio com o imperialismo árabe contra as terras do Império Romano no Oriente. E terceiro, isso foi uma crítica sim, a expansão violenta do Islã, que ao contrário do que muitas dizem, está longe da tolerância. Ainda estou esperando o islâmico tolerante con o Ocidente. Eles já declararam guerra ao mundo ocidental há um bom tempo.

Por que não citou outras opiniões contemporâneas totalmente contrárias à que preferiu?

Leonardo- E pq citaria, já que estaria fora de contexto? É engraçado, o ocidente adora criminalizar o cristianismo e o mundo ocidental que gerou, enquanto os islâmicos chantageiam o ocidente, ameaçam matar o papa e ainda nos reclama tolerância ao banditismo deles.

Por que não referiu que em qualquer das religiões abraâmicas há preceitos que podem justificar o recurso à violência, assim tendo sucedido em nome de todas elas?

Leonardo- Por uma razão simples: o cristianismo não aplica a violência em seus preceitos. Mesmo a fé judaica, ainda que haja apelos históricos a violência, nem mesmo ela abrange uma expansão violenta da religião. Só o islamismo inaugurou o proselitismo da violência, que é claro em seus preceitos corânicos. Ademais, a idéia mesma da racionalidade grega no cristianismo, de fato, moldou a consciência ocidental, muito mais do que no mundo árabe.


Perante estas interrogações, é necessário analisar o discurso do papa pelos seus reais objetivos políticos. O primeiro e o mais óbvio é o de apor o selo do Vaticano na guerra de Bush contra o Islã e na guerra de civilizações mais vasta que a fundamenta.

Leonardo- Que besteira! Primeiro, bush não luta contra os Islão, mas contra o terrorismo. Segundo, o papa critica a versão fanática do islamismo, não o islamismo em si. Terceiro, que mostra o fundamentalismo real contra o mundo ocidental são os islâmicos, não os americanos e europeus. Enquanto milhões de cristãos são mortos ou perseguidos em países islâmicos, eles têm plena liberdade de construir mesquitas próximas ao Vaticano. Portanto, a opinião do português é totalmente irreal.

Tal como João Paulo II alinhara o Vaticano com os EUA na luta contra o comunismo, Bento XVI pretende o mesmo alinhamento, agora na luta contra o Islamismo.

Leonardo- Outra besteira, pura falsa analogia. A luta do islã contra o mundo ocidental é a luta de um sistema fanático e teocrático contra um sistema laico de liberdades, a luta da liberdade religiosa e política contra um modelo anacrônico e atrasado de ditaduras totalitárias, com víes religioso. Isso pq essa luta que o papa moveu contra o totalitarismo comunista, foi válido, precisamente por ter restaurado as democracias no Leste Europeu. Ou será que o Sr. Boaventura quisesse que aquela monstruosidade totalitária perpetuasse?

Em seu entender, perante o avanço do Islã a resposta tem de ser mais dura, e precisa do poder temporal para se concretizar. Tal como aconteceu com as Cruzadas ou a Inquisição.

Leonardo-Outra besteira! A resposta que o ocidente deve dar é contra as provocações de países totalitários como Irã, Iraque, Siria, Arábia Saudita, que ameaça o nosso sistema de liberdades. Se o ocidente acatar o fanatismo islâmico, definhará por causa dele. A força e violência militarista do fanatismo islâmico prevalecerá. Que tipo de português idiota e charlatão é esse que desconhece uma questão óbvia, tanto na Europa, como Oriente Médio?


Trata-se, pois, de uma teologia de vencedores, uma teologia teo-conservadora, paralela à política neoconservadora.

Leonardo-Este senhor Boaventura nem sabe do que está falando.

citadinokane disse...

Tozé,
Vou lá com certeza>
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Boaventura o nosso amigo Léo tá chamando para bailar, topas?!