quarta-feira, outubro 25, 2006

Eu não servirei!


Aos leitores queridos, é vero, resolvi compartilhar a leitura de um texto que é carregado de simbolismos, não apenas o poeta escreve e cria outros mundos, não somos joguetes do destino... E por isso fazemos o nosso próprio caminho, basta querer. Eu diria que é uma decisão que poucos tomam... Há muito o velho Marx sustentou que o homem autonomizou-se da natureza através do trabalho, rsrsrs... Marx, trabalho, decisão... Deixemos os compêndios de sociologia de lado, ok?!
Como ia dizendo, li o texto abaixo no blog da amiga Lila Magritte e gostei muito, me senti ao lado de Vicente Huidobro, e cada palavra, entonação e emoção que o poeta imprimi ao manifesto, nos arrebata candidamente, e dá vontade de sussurrar ao ouvido de Vicente: "Continua hermano, não pára..."
Vicente Huidobro, foi um poeta vanguardista chileno, nasceu em 1893, estudou em Santiago. Escreveu os seus primeiros poemas quando tinha apenas doze anos. Em 1911 foi editado o seu primeiro livro: Ecos del Alma. Em Paris entrou em contato com Apollinaire e Reverdy, com os quais viria a fundar a revista Norte-Sul. Poeta de uma autonomia espetacular, rejeitou todas as escolas poéticas que diminuíssem o poder criacionista do autor. Deu uma grande contribuição para a renovação da poesia chilena e latino-americana. Fundou, em 1918, o grupo criacionista de Madrid. Morreu em 1948.
"Falo em uma língua molhada em mares não nascidos". Afirmava o grande Huidobro.
Fez a defesa da poesia, sustentando que é o poeta quem faz o inventário vivo da natureza, o poeta nomeia as coisas e seu nomear é fazer viver. As coisas começam a existir. Sem considerar que não existissem antes, porém o poeta as faz existir para o homem, confere a elas esse calor humano que as aproxima de nós, que faz com que entrem nos corações e as acostuma ao nosso ser e a elas nos acostuma. Essas coisas que existiam antes em condição de inventário morto ou obscuro se convertem em acontecimento espiritual.
A expressão "Non Serviam" é retirado da boca do próprio Lúcifer, quando este diante de Deus se rebela e diz ao "Todo-Poderoso": "Non Serviam" (Não te servirei!).
Mas vamos ler com atenção o manifesto abaixo, são os poetas chilenos gritando para o mundo...

NON SERVIAM (Não servirei)

Eis que numa bela manhã, depois de uma noite de preciosos sonhos e delicados pesadelos, o poeta se levanta e grita à mãe natureza: Não te servirei mais.
Com toda a força de seus pulmões, um eco revelador e otimista repete-se em lugares distantes: “Não te servirei”.
A mãe Natureza já ia fulminar o jovem poeta rebelde, quando este, tirando o chapéu e fazendo uma graciosa mesura, exclamou: “És uma velhinha encantadora”.
Esse “Não servirei” ficou gravado em uma manhã na história do mundo.
Não era um grito caprichoso, não era um ato de rebeldia superficial. Era o resultado de toda uma evolução, a soma de múltiplas experiências.
O poeta, em plena consciência de seu passado e de seu futuro, lançava ao mundo a declaração de sua independência frente à natureza.
Já não quero mais servi-la na qualidade de escravo.
O poeta disse a seus irmãos: “Até agora não temos feito outra coisa que imitar o mundo em suas aparências, não temos criado nada. Que há saído de nós que não estivera antes parado ante nós, rodeando nossos olhos, desafiando nossos pés ou nossas mãos?”
“Temos cantado à natureza (coisa que a ela bem pouco importa). Nunca temos criado realidades próprias, como ela faz ou tem feito em tempos passados, quando era jovem e cheia de impulsos criadores”.
"Temos aceitado, sem maior reflexão, o fato de que não podem existir outras realidades que as que nos rodeiam, e não temos pensado que nós também podemos criar realidades em um mundo nosso, num mundo que espera sua fauna e sua flora próprias. Flora e fauna que só o poeta pode criar, por esse dom especial que lhe deu a mesma Mãe Natureza a ele e unicamente a ele”.
"Não servirei". Não serei mais teu escravo, mãe Natureza; serei teu amo. Te servirás de mim; está bem. Não quero e não posso evitá-lo; Entretanto eu também me servirei de ti.
Eu terei minhas árvores que não serão como as tuas, terei minhas montanhas, terei meus rios e meus mares, terei meu céu e minhas estrelas.
E já não poderás dizer-me: “Essa árvore está mal, não gosto desse céu... os meus são melhores”.
Eu te responderei que meus céus e minhas árvores são os meus e não os teus e que não têm porque serem parecidos. Já não poderás pressionar a ninguém com tuas pretensões exageradas de velha caduca e acomodada. Já escapamos de tuas armadilhas.
Adeus, velhinha encantadora... Adeus, mãe e madrasta, não renego e nem te maldigo pelos anos de escravidão a teu serviço. Foram eles o mais precioso aprendizado. Meu único desejo é nunca esquecer tuas lições, mas já tenho idade para andar só por estes mundos. Pelos teus e pelos meus.
Uma nova era começa.
Ao se abrirem tuas portas de mármore, finco um joelho na terra e te reverencio muito respeitosamente.
(Lido por Vicente Huidobro en el Ateneo de Santiago, em 1914)
Obrigado Lila, o texto foi traducido com muita alegria e emoção.

13 comentários:

Paola Vannucci disse...

Ave Pedro!!!!

Fortes emoções....

Quando poeta escreve , é pq sente o que escreve, acho que o ser humano é muito redundante em diferentes épocas. Vc já notou que na antiguidade já se existiam sentimentos parecidos com o que sentimos hoje?
O ser humano é um ser incostante ao mesmo tempo que expressa amor, expressa ódio.
Deus e o Diabo andam juntos, lado a lado, Deus nos quer bem até que se revancheou de nós, a ira de Deus se faz somente para Lúcifer que todo ivejoso quer se igualar a Deus, mas faço uma pergunta, Onde Deus errou ? pq temos de Pagar pelo que Deus errou? Sim pq Ele é o criador do mundo, não devia nunca, jamais deixar seu anjo direto se tornar vingativo. Deus com ódio nos deu castigos e o primeiro salário do pecado é a morte....

Penso que para fazer poesia, o poeta antes de tudo, sonha o que quer para sí, tempo de Tristão e Isolda, amor , sublime amor platonico, tempo de poesia popular, onde a voz do povo fala mais alto, tempo de politica, onde com humildes palavras pedimos para uma vivda melhor, tempo de vingança, falamos de morte e deixe-a que seja bem vinda. Mas antes de tudo devemos poetisar a vida sem exageros, devemos expor sentimentos jamais sentidos por ninguem, apesar de sermos redundantes, temos de ser psicologogos desses sentimentos e expressá-los como nunca. Poeta deve ter diploma, deve ser diferenciado. Poeta deve ser reverenciado....

Mas nunca se esqueça, Deus e Diabo andam juntos, basta nós fazermos a nossa escolha...
Qual é a sua?

Com carinho

Paola

Anônimo disse...

Gran loco-Pedro.

Muito importante essa mão que atira a pedra no vidro do espelho...

É certamente por de traz daquilo que não vemos que esta a verdadeira essência dos sentidos em sua forma mais ampla e menos branda.

Depois de ler as letras do texto, fui lá pra Sol e o sorvi em espumas,feliz e non, feito o velho Hui.

Parabens Leila, pela picardia. ( Eduardo Bueres)

Lila Magritte disse...

Maravilloso Pedro. He tenido una alegría inmensa al encontrar aquí a Huidobro y leer "Non Serviam" en portugués. Cumpliste tu palabra y lograste la traducción. Gracias, gracias, gracias. Huidobro es uno de mis poetas preferidos.

Bueno el texto y los datos que escribiste sobre él y la fotografía con su halo de eternidad es una belleza.

Abrazos y beijos.

citadinokane disse...

Paola,
Os poetas são assim... Sonhadores... Deuses... Criam mundos, antes impensáveis...
Ah! os poetas nos revelam sentimentos indizíveis.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Ia esquecendo.
Qual a minha escolha?!
Te direi que escolhi o lado da rua ensolarado para caminhar e só.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Locopoeta,
Sumiste como os grandes mágicos, estavas em minha mesa e de repente uma cortina de fumaça e não mais te encontrei...
Já se vão duas semanas...
Bebi Huidobro, gota-a-gota... Precisa lembrar que ele é chileno?!
Pura coincidência ao preparar o post, o cálice com tinto chileno entornou por sobre os papéis, acabei blasfemando e dizendo com os dentes cerrados: Huidobro, NON SERVIAM!
Deixa pra lá.
Abraços poeta querido,
Pedro

citadinokane disse...

Lila,
Por causa de ti, Huidobro foi revelado para mais pessoas.
Busquei ser o mais fiel ao autor e penso que foi uma tarefa emocionante. A poesia foi feita pra isso, para emocionar e lembrar aos homens que existem outras possibilidades de alcançarmos CANAÃ(a terra prometida).
"Me salí de mi carne, gocé el gocé más alto:
oponer una frase de basalto
al genio oscuro que nos desintegra."(Alfonsina Storni)

Besos hermosa amiga,
Pedro

Mixikó disse...

Texto Pleno de emoção e sabedoria, este que partilhas conosco...beijos surpresos

Paola Vannucci disse...

Olá meu querido amigo,

Minhas sementes estão jogadas e escondidas do outro lado da rua que vc escolheu para caminhar.........

Semente de vitória e ânimo
Semente de riso e coragem....


Beijos

Amo vc

Paola

citadinokane disse...

Mixikó,
Querida sempre partilhando... Seja bem vinda.
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Paola,
São necessárias muitas sementes, não esqueça, hein!!!

Anônimo disse...

Ave Paola... O seu texto lá de cima é lindo.
Lembrei de um fragmento achado numa tablita de barro cozido as margens do Eufrades que traduzida significa"E deus em sua suprema bondade criou o demônio para teme-lo"(E.B.)

citadinokane disse...

E.B.,
Tablita de barro cozido, hum-hum...