terça-feira, outubro 17, 2006

Pastor da alegria...


Eu, professor querido e maldito por uns e outros... Mas, seguindo em frente... Sem soberba, este é o 1º dos 7 pecados capitais, fiquei regurgitando as palavras ásperas de Xico Rocha aos professores no dia deles... A 1ª voz a replicá-lo veio de além-mar, e veio de uma maneira amiga e reivindicando que existem pessoas sérias nessa tarefa árdua – a educação. A voz replicante: Mixikó. Pessoa ponderada, basta ler o blog dela e confirmar o que foi dito aqui.
Fiquei lembrando de um texto do filósofo e professor Rubem Alves, gosto dessas leituras, faço a leitura de Rubem Alves com terno comprazimento, é puro deleite... O texto é de professor para professor, agora sim, posso dizer candidamente – Feliz dia do Professor!
Homenageio todos que dedicaram e continuam dedicando os melhores dias de suas vidas para ensinar com alegria...
Vamos ao texto (reproduzi parte dele, ok?!):

ENSINAR A ALEGRIA (Rubem Alves)

Muito se tem falado sobre o sofrimento dos professores. Eu, que ando sempre na direção oposta e acredito que a verdade se encontra no avesso das coisas, quero falar sobre o contrário: a alegria de ser professor, pois o sofrimento de ser um professor é semelhante ao sofrimento das dores de parto: a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho.
Reli, faz poucos dias, o livro de Hermann Hesse, "O jogo das contas de vidro". Bem ao final, à guisa de conclusão e resumo da estória, está este poeminha de Rückert:

Nossos dias são preciosos
mas com alegria os vemos passando
se no seu lugar encontramos
uma coisa mais preciosa crescendo:
uma planta rara e exótica,
deleite de um coração jardineiro,
uma criança que estamos ensinando,
um livrinho que estamos escrevendo.

Este poema fala de uma estranha alegria, a alegria que se tem diante da coisa triste que é ver os preciosos dias passando... A alegria está no jardim que se planta, na criança que se ensina, no livrinho que se escreve. Senti que eu mesmo poderia ter escrito essas palavras, pois sou jardineiro, sou professor e escrevo livrinhos. Imagino que o poeta jamais pensaria em se aposentar. Pois quem deseja se aposentar daquilo que lhe traz alegria? Da alegria não se aposenta... Algumas páginas antes o herói da estória havia declarado que, ao final de sua longa caminhada pelas coisas mais altas do espírito, dentre as quais se destacava a familiaridade com a sublime beleza da música e da literatura, descobria que ensinar era algo que lhe dava prazer igual, e que o prazer era tanto maior quanto mais jovem e mais livres das deformações da deseducação fossem os estudantes.
Ao ler o texto de Hesse tive a impressão de que ele estava simplesmente repetindo um tema que se encontra em Nietzsche. O que é bem provável. Fui procurar e encontrei o lugar onde o filósofo (escrevo esta palavra com um pedido de perdão aos filósofos acadêmicos, que nunca o considerariam como tal, porque ele é poeta demais, “tolo” demais...) diz que “a felicidade mais alta é a felicidade da razão, que encontra sua expressão suprema na obra do artista. Pois que coisa mais deliciosa haverá que tornar sensível a beleza? Mas esta felicidade suprema”, ele acrescenta, “é ultrapassada na felicidade de gerar um filho ou de educar uma pessoa”.
(...)

“Ah!”, retrucarão os professores, “a felicidade não é a disciplina que ensino. Ensino ciências, ensino literatura, ensino história, ensino matemática...” Mas será que vocês não percebem que essas coisas que se chamam “disciplinas”, e que vocês devem ensinar, nada mais são que taças multiformes coloridas, que devem estar cheias de alegria? Pois o que vocês ensinam não é um deleite para a alma? Se não fosse, vocês não deveriam ensinar. E se é, então é preciso que aqueles que recebem, os seus alunos, sintam prazer igual ao que vocês sentem. Se isso não acontecer, vocês terão fracassado na sua missão, como a cozinheira que queria oferecer prazer, mas a comida saiu salgada e queimada...
O mestre nasce da exuberância da felicidade. E, por isso mesmo, quando perguntados sobre a sua profissão, os professores deveriam ter coragem para dar a absurda resposta: “Sou um pastor da alegria...” Mas, é claro, somente os seus alunos poderão atestar da verdade da sua declaração...
(Extraído do livro A Alegria de Ensinar, editora Papirus, 7ª edição, ano: 2000, pp 9-13)

2 comentários:

Anônimo disse...

Li tardiamente, mas vale enaltecer os mestres.
Viva a todos professores!!!!
Abraços,
João

Anônimo disse...

como vai a galera?!amei muito o vosso blogue!
vao tambémno meu trabalho em http://www.estrategiainiciante.pokersemdeposito.com/ , sobre regras de poker em portugues!
Fiquem bem