quinta-feira, novembro 30, 2006

Eu nunca guardei rebanhos...

Ontem foi fechado mais um ciclo de minha vida.
Não fiquei triste, era necessário, apenas necessário e pronto, e mais nada. Toda separação, todo afastamento é sempre muito trágico e tenso, no meu caso não foi, diria fez-se necessário e só.
Não é possível afastar-se sem deixar algumas palavras, e juro por tudo que é mais sagrado que gostaria de deixar algumas palavras... Mas, elas insistem em escapar-me, o que fazer?!
Uma voz lá no meu inconsciente diz: relaxar, desarmar o coração, não magoar...
Garanto não há mágoas, não consigo juntar sentimentos ruins, me sinto muito bem, a garganta não travou, e ainda suspirei de lado e até dei um sorriso...
Foram anos e agora tudo acabou...
Minhas mãos se contraem, e os punhos cerrados, batem na mesa e a voz se lança no espaço e afirma: Valeu a pena!
Arrumo os livros, separo alguns cd's para escutá-los daqui a pouco, o celular toca, é o amigo Dias, lembrou-me de um compromisso, anoto em minha agenda o compromisso.
Lembrei-me dos amigos, vários, mas eis o locobueres, hoje tão distante, descobrindo novas possibilidades; Tico com tantas preocupações materiais, sem tempo pra gente, está perdoado é muito jovem...
Ah! Gostaria de encontrar o Sr. Godot, contaria as minhas aflições de maneira poética, graças ao bom Deus, Fernando Pessoa continua existindo...
Por isso, conto com Fernando Pessoa e o "Guardador de Rebanhos", para expressar os meus sentimentos, e como esses versos exprimem o que sinto, basta uma parte da poesia de Pessoa, para o coração bater reconfortado e feliz, ok?

"Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural .
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado." (8/3/1914)

15 comentários:

marisanblog disse...

Pedro,

O poema é de um profundidade...

Bjs.

Mari

citadinokane disse...

Nunca guardei rebanhos... Por isso, deixo-te entrever o meu estado de espírito...

Navi Leinad disse...

Pedro, querido amigo... a vida é como um rio cheio de curvas, com intensidades de correntezas alternadas ou concomitantes, uma variação necessária que garante os diferentes ritmos dos que por ele são levados. Às vezes seguimos em frente, outras vezes ficamos para trás, mas nada pára... e nada deve ser parado. A correnteza certa é escolhida por cada um, e a certeza de que desembocaremos num mesmo oceano de harmonia confirma a sensação de que tudo valeu a pena.
Um forte abraço.

Juana Banana disse...

só posso te dizer muita forza!
sempre olhando para deante, sempre...com el olhar na cima do ceu...

eu conhezco o que é fechar circulos meu amigo, sim, muito..de agora em deante so, olhar para frente...

você ja esta no meus links!

Yúdice Randol disse...

Soube ontem e devo te dizer que fiquei chocado. Posso entender em relação aos outros, mas não me caiu a ficha quanto ao teu caso. De nada sei, além de que lamento e acho que a comunidade perderá. Perderá um cara dedicado ao que faz, que bota boa dose de paixão em seus atos. Estou triste.
Espero que nos encontremos sempre nestas bandas blogueiras. E o nosso encontro estadual, quando sai?

Carlos Ponte disse...

Pedro, hoje estava com ideias de deixar aqui alguns impropérios aos nossos amigos Castelhanos – sabe, comemoramos hoje, 1.º de Dezembro, a restauração da independência, perdida durante 60 anos, de 1580 a 1640, para os espanhóis –, mas ao ler o seu post, assaltou-me tal nostalgia que o não consegui. Não consegui entrever a “desgraça” que lhe bateu à porta mas espero, do fundo do coração, que tenha sido apenas algo de somenos.
Os espanhóis podem esperar. Os impropérios ficam para a próxima.
Um abraço,
Carlos Ponte

citadinokane disse...

Ivan,
Sábias palavras, são todas minhas agora.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Juana,
Olhando para frente, siempre!
Besos,
Pedro

citadinokane disse...

Yúdice,
Há uma tendência de exclusividade, não discuto isto, apenas lamento deixar o convívio de pessoas que aprendi a gostar, tu és uma delas...
Abraços hermano,
Pedro

citadinokane disse...

Yúdice,
Teremos encontro em janeiro com certeza.
Faremos a divulgação.

citadinokane disse...

Carlos,
És impagável, ahahaha... Coitados! Os espanhóis vão recebendo impropérios por gerações e gerações... Rsrsrs...
O meu post faz referência a uma "desgraça" de somenos, na verdade, é a referência a um desenlace profissional... Terei saudades, mas não amaguras, era necessário.
Abraços de além-mar,
Pedro

Mixikó disse...

Pedro,
só para te mandar um beijo...já volto com mais calma

Mixikó disse...

Pedro,
cá estou de volta...
Li e reli...tomei como minha a tua mágoa...talvez pelo hábito de vir sempre "bater" aqui à tua porta...lamento tudo o que tenha acontecido...a vida é como um rio...nunca pár de correr...as margens...essas...podem sempre ser boas ou más...e não adianta querermos escolher sempre a margem certa...não existe...isso não seria viver...

beijos...adoro esse "guardador de rebanhos"...um dia destes republico no meu blog para ti Pedro...Hasta

Mixikó disse...

"Ah! Gostaria de encontrar o Sr. Godot, contaria as minhas aflições de maneira poética"...

"à espera de Godot"...eu tmb muitas x espero por Godot...

citadinokane disse...

Mixikó,
Não contei para ninguém, mas vez e outra, Godot conversa comigo, vale a pena esperá-lo, ele é todo ouvido pra nós, quando começamos a resmungar ele não se aborrece, escuta candidamente e ainda esboça um leve sorriso... Um sábio sorriso e depois fala, tal qual o sorriso esboçado, leve e amigo, consegue nos acalmar.
Sem mágoas, sério!
O "guardador de rebanhos" é uma delícia.
Obrigado pelas palavras, prenhe de solidariedade.
Abraços,
Pedro