quinta-feira, novembro 23, 2006

Mediocridade por José Ingenieros



"No verdadeiro homem medíocre, a cabeça é um simples adorno." (José Ingenieros)

O texto abaixo, eu já havia lido há algum tempo, inclusive cheguei a publicar alguma parte aqui no blog ou fazer referência ao mesmo. Vivendo num tempo de tantos desatinos e descrenças, resolvi lê-lo novamente, sempre que o leio me transporto no tempo e no espaço, é pura poesia...
José Ingenieros(1877-1925) nasceu em Buenos Aires, é nosso hermano, foi médico, catedrático, estudioso de assuntos sobre a psiquiatria, filosofia e sociologia. Retirei o texto do livro "O Homem Medíocre", no livro, Ingenieros busca desmascarar os mais funestos defeitos morais que impedem a formação de ideais e o enobrecimento da vida: a rotina, a hipocrisia e o servilismo.
Pela poesia do texto e pelo confronto com os homens "medíocres", ofereço este post a todos que enobreceram suas vidas com amor e muita luta...
Vade retro satanás!!!
É pra ler e comentar.

Aurea mediocritas?

Há uma hora em que o pastor ingênuo se assusta com a natureza que o envolve. A penumbra se espessa, a cor das coisas se reduz ao cinza homogêneo das silhuetas, a primeira umidade crepuscular levanta de todas as ervas um vapor de perfume, o rebanho se aquieta para dormir, o sino distante tange seu aviso vesperal. A impalpável claridade lunar se torna alva ao cair sobre as coisas, algumas estrelas inquietam com sua palpitação o firmamento, e o longínquo rumor de um arroio oculto nas brenhas parece falar de misteriosos temas. Sentado na pedra menos áspera que encontra à beira do caminho, o pastor contempla e se cala, inutilmente convidado a meditar sobre a convergência do lugar e da hora. Sua admiração primitiva não passa de espanto. A poesia natural que o envolve, ao refletir-se em sua imaginação, não se converte em poema. Ele é apenas um objeto, um quadro, uma pincelada; um acidente na penumbra. Para ele todas as coisas sempre foram assim e continuarão sendo, da terra que pisa até o rebanho que apascenta.
A imensa massa de homens pensa com a cabeça desse ingênuo pastor; não entenderia o idioma de alguém que lhe explicasse algum mistério do universo ou da vida, a evolução eterna do conhecimento, a possibilidade de aperfeiçoamento humano na contínua adaptação do homem à natureza. Para conceber uma perfeição é preciso um certo nível ético e é indispensável alguma educação intelectual. Sem isso, pode-se ter fanatismo e superstições; ideais, nunca.
Os que vivem abaixo desse nível e não adquirem essa educação permanecem sujeitos a dogmas impostos por outros, escravos de fórmulas paralisadas pela ferrugem do tempo. Suas rotinas e preconceitos parecem eternamente invariáveis; sua obtusa imaginação não concebe perfeições passadas ou futuras. O estreito horizonte de sua experiência constitui o inevitável limite de sua mente. Encontrarão nos outros uma fagulha capaz de acender suas paixões; serão possivelmente sectários. E não perceberão sequer a ironia dos que os convidam a se juntar em nome de ideais que podem seguir, mas não compreendem. Todo sonho seguido por multidões é pensado apenas pelos poucos visionários que são seus amos.

12 comentários:

Luciane Fiuza de Mello disse...

Bela indicação. O texto é ótimo e me lembrou Madre Tereza de Calcutá, que passou a vida lutando contra os que "não perceberão sequer a ironia dos que os convidam a se juntar em nome de ideais que podem seguir, mas não compreendem". Ofereço a poesia da leitura à memória dela.

Para os "homens medíocres" que José Ingenieros tão bem analisa, ofereço este trecho da música "Pessoa Nefasta", de Gilberto Gil.

"tu, pessoa nefasta
vê se afasta teu mal,
teu astral que se arrasta tão baixo no
chão
tu, pessoa nefasta
tens a aura da besta
essa alma bissexta
essa cara de cão
(...)
pede
que te façam propícia
que retirem a cobiça, a preguiça, a
malícia
a polícia de cima de ti
basta
ver-te em teu mundo interno
pra sacar teu inferno
teu inferno é aqui"

Um abraço,

Luciane.

Obs: boa sorte no Mestrado; eu estou por aqui com meu TCC, mas com direito a intervalos para boas leituras, como esta.

marisanblog disse...

Pedro,

Exclui os comentários de meu blog tá.

Mari

citadinokane disse...

Lu,
Aprendi com o passar do tempo e a maturidade roubando-me beijos seguidos, que Gilberto Gil é uma pessoa sensata.
Sem falar que é um grande poeta, músico e compositor.
Irei te devolver o comentário, com uma música que sempre arrancou do meu peito hausto de satisfação, prenhe de uma comoção indizível, mas que acalentava-me profundamente.
Preste atenção na letra, é comovente e altamente poética:

"A Linha e o Linho(Gilberto Gil)

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa, da paixão
A sua vida o meu caminho, nosso amor
Você a linha e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza."

Luciane Fiuza de Mello disse...

Que lindo, fiquei sem palavras. Depois de ler entendemos a sua sensação de "comoção indizível".
O texto faz bem para o corpo, limpa a alma e alimenta o espírito. Gilberto Gil é demais!
Quanto ao que falou sobre maturidade, fiquei refletindo. É uma pena que para muitos a maturidade não traga sabedoria e poesia...
Abs!
Lu.

citadinokane disse...

Lu,
É tão bom poder conversar e trocar impressões sobre o mundo, sobre a vida... Esta escorrendo pelos nossos dedos e nem sempre aproveitamos as oportunidades oferecidas por ela.
Sigamos felizes, distribuindo o melhor de nós... Por quem merece amor...

citadinokane disse...

Mari,
Não precisa radicalizar, ok?!

marisanblog disse...

Exclui também os comentários do post, viu!? Sem dor....

citadinokane disse...

Mari,
Tá doida?!

Anônimo disse...

Caro Panda,
Estou aqui na redação do "Chico de La Rocha Aos Vivos" Sorvendo uma mistura de sumo de tamarino,carambola,limão,51 e gêlo.
Estamos ouvindo uma soprano italiana sofejar uma ópera contrabandeada do paríso, lembrou-me os olhos de Mari.

Parabens pelo pauta, é instigante ...

A luz do texto do autor e possivel imaginar e analisar o papel e a importância da cultura, quanto argamassa libertária humana fundamental.

Entre outros fatores, é preciso focar o papel da universidade que a princípio deveria ser de usina geradora de um formato diferenciado de intelegencia,

o que lamentavelmente não vem ocorrendo, imperando a mediocridade entre os formandos, onde o niilismo, niilismo,parece uma troça, uma canção de gosto ruim;

a academia, com seus mestres-pavão,vaidosos são desinspirados,desaviagrados,ha exeção, para contribuir na desbrutalização das ideias e lapidação de outras.

O universitário, só universitário, é uma cerveja quente.

Outra questão é a do conjunto das mídias, que vive um momento histórico de empobrecimento e depauperamento de propostas sérias de convencimento estético e ético,

mercenarizando informações, manipulando modelos,repetindo,clonando,carbonando,reciclando, maquiando com pó ordinário, de mal gosto, a boa e velha arte;exuriram o glamour dos anos 40 e 50,60,

vide a relação dos melhores filmes,melhores peças,musicas etc...

acreditam com certeza que o bom e a criação já se esgotaram no velho,

podadores que são das relíquias que poderiamos deixar para as futuras gerações, com seus olhos de seixo,concreto e metal me ocorrem vampiros pos-modernos.

A impressão é, que desde já, não estamos a girar sobre o nosso próprio eixo e órbita,submetidos definitiva e desgraçadanete pelo verdadeiro poder, o economico, que para brillar precisa das trevas dos cerebros ôcos. ( Eduardo Bueres),

marisanblog disse...

Tô!

Tô doida, tô doida, tô doida, rsrsrs...

Hoje é dia...rsrsrs

Mari

citadinokane disse...

Amigo Locobueres,
Tuas palavras são navalhas, cortam as mesmices e projetam possibilidades de libertação...
Estaremos ao teu lado, com certeza.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Mari,
Vou chamar o "fessor" Alberto para confirmar, ok?!
Abraços,
Pedro