quinta-feira, dezembro 14, 2006

Um discurso...

No fim da minha adolescência comecei a me envolver mais decididamente com a militância política, o momento era de retorno à vida democrática, os militares prometiam uma distensão(abertura política) lenta e segura, ninguém confiava muito, não era diferente em minha casa, mãe e irmã certa vez me chamaram para uma conversa séria, reprimenda em tom dramático, exemplos aos montes de não-sei-quem-que-sumiu... "argh! milicos nojentos, vamos pegá-los um dia...", era o que passava em minha cabeça nessas horas de admoestação familiar.
A vivência e os amigos que semeamos ao longo da caminhada, foram mostrando outras possibilidades.
Para uma sociedade tão complexa, como a brasileira, ali diante de minha mãe as soluções eram simples, bem simples... não existiam outras além das minhas... Minha mãe insistia em querer me doutrinar, eu com os punhos cerrados, o olhar fitando o chão, engolia em sêco, mas dizendo em som inaudível vocês não sabem nada... Eu sabia!? Era só tomar o poder e tudo estaria resolvido, afinal eu não havia lido o "18 de Brumário" de Marx?! É claro que o velho comunista alertava sobre os equívocos da Comuna de Paris, atenção redobrada, ninguém pode confiar na pequena-burguesia e nem no lupem-proletariado...
A leitura de Rousseau acabou por temperar um pouco a minha fé, pelo menos em relação aquelas soluções de antanho...
É o caminhante solitário em seus devaneios, a mostrar o quanto era necessário conhecer-se para poder compreender o mundo em derredor, um mundo a desmoronar e uma nova ética a se levantar por sobre os escombros... Tudo tão efêmero, e ao mesmo tempo inexoravelmente atraente, um turbilhão de luzes... "Teria amado os homens a despeito deles próprios", diz Rousseau, em seu primeiro devaneio em o Caminhante Solitário; em A Nova Heloísa temos a percepção da modernidade que se confronta com os valores caducos, déjà vu... "Eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante de meus olhos, eu vou ficando aturdido. De todas as coisas que me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas pertubem meus sentimentos, de modo a fazer que eu esqueça o que sou e qual meu lugar.(...) Eu não sei, a cada dia, o que vou amar no dia seguinte. (...) Eu vejo fantasmas que rondam meus olhos e desaparecem assim que os tento agarrar..."
A tessitura social, daquele momento, era muito mais complicada do que a percepção que eu tinha... Do fundo do quintal de minha casa, eu ficava sentado debaixo do abacateiro, filosofando, filosofando...
Ah! Modernidade tão tardia...
Me encanta ainda esse profundo humanismo, dirão que é muito romântico... e daí?! O que interessa é que Rousseau nos leva a pensar o quanto o ser humano é importante, precisamos resgatar e acreditar nesse homem solidário, que irá desabrochar se a semeadura for feita.
Chaplin tinha essa compreensão, a mensagem deixada no "Último Discurso do Grande Ditador" é uma aposta na perene derrota dos ditadores diante da vida que insiste em soçobrá-los...
Vamos assistir, com legenda em português, o discurso...




2 comentários:

Tozé Franco disse...

Chaplin no seu melhor.
Um dos melhores filmes que já vi.
Um abraço e bom fim-de-semana.

citadinokane disse...

Tozé,
Sempre participando e compartilhando...
Um final de semana maravilhoso para ti irmão!
Abraços,
Pedro