sábado, janeiro 13, 2007

Das coisas que passam sem passar...

Participei do movimento estudantil, fiz parte da diretoria de Centro Acadêmico num momento de retorno dos civis ao poder, tudo por reconstruir, a cidadania reclamava direitos negados, os movimentos sociais ressurgiam com muito vigor, é... não havia volta...
O passo sempre pra frente, o medo existia, mas a vontade de tomar o mundo nas mãos era maior, Gabriel García Márquez dizia em "Cem anos de Solidão": - O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo". E tudo era tão recente, existia uma ânsia enorme em todos nós; e a idéia de construir um mundo novo, começava pela tarefa de organizar os estudantes, falar por aqueles que não tinham voz e nem vez... A repressão ainda persistia, construir por sobre os destroços do velho regime... Um grande desafio.
Só recordei as linhas acima, porque é início de ano, e tenho uma tarefa revolucionária: rasgar papéis e jogá-los fora... rsrsrs...
Tirando de uma caixa vários documentos e papéis, encontro um manifesto chamando os estudantes para um ato ou sei lá o quê, a imagem que ilustra o manifesto quase totalmente desbotada, mas é possível ver uma mulher com um olhar altivo e uma criança morta nos braços, um policial acertando um golpe de porrete na cabeça de um operário... a imagem falava por si mesma, e logo abaixo da imagem a seguinte frase:
"Dizem violentas as águas de um rio que tudo arrastam. Mas não dizem violentas as margens do rio que as oprimem..." (Bertold Brecht).

Para fortalecer a solidariedade com os movimentos sociais, colocamos ao final do manifesto, um pequeno texto do espanhol Manuel Castells, muito significativo para o contexto no qual estávamos inseridos, exponho essas lembranças com o peito estourando de saudades, não fui de frente e nem tampouco tinha a verve exultante para arrastar multidões com discursos como Lênin ou Camille Desmoulins, apenas dei minha contribuição, combati o bom combate, entreguei alguns bons anos de minha vida, suor e sonhos...
Vamos ler o texto de Castells:
"De repente, o rumor surdo e regular da circulação urbana foi quebrado por uma confusão de passos, vozes, gritos, barulhos de metal e vidro. O fluxo dos automóveis parou, grupos se formam, a massa em movimento cresce, pedaços de pano e de papel, de madeira falam deles e de sua cidade. Em frente os eternos capacetes, a ordem, o passo cadenciado, e logo a carga de violência, a recusa. Algumas vezes o gás, outras o sangue ou ainda o disparar de uma arma de fogo.
Sempre, sob estas diversas formas, o choque. Entre os que falam de si mesmos e aqueles que falam dos que dão ordens. Entre os que querem mudar a vida e aqueles que querem restabelecer este rumor surdo da circulação regular ao ritmo cotidiano das coisas que passam sem passar..."

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