domingo, janeiro 07, 2007

Estatutos do Homem

Remexendo numa caixa cheia de papéis velhos, eis que encontro uma revista da Unesco, denominada: "O Correio da Unesco", é de janeiro de 1983, ano 11, nº 1, o título principal da publicação era "Guerra à Guerra: a voz dos poetas..." Lembro que à época eu havia ficado maravilhado com a publicação, lia e relia, eram vários poetas escrevendo a partir da temática da guerra: Adonis; Ai Qing; Breyten Breytenbach; Ernesto Cardenal; Jayne Cortez; Allen Ginsberg; Thiago de Mello entre tantos outros... Que bom reencontrá-la, tão bem guardada, vou dar de presente a minha filha.
Relendo alguns poetas, um me chamou a atenção: Thiago de Mello.
Thiago de Mello com sua poesia marcou o nosso tempo, marcou minha juventude, conquistou corações e mentes de minha geração. Inesquecível, por toda minh’alma, o antológico “Estatutos do Homem”, lançado num momento em que o povo brasileiro mergulhava numa longa noite... o “Estatutos do Homem” era uma ode à humanidade esquecida nos porões da ditadura, foi escrito contra toda opressão sofrida pelo povo brasileiro, página que ajudamos a virar, mas não a esquecê-la...
Em sua poesia, sentimos o cheiro do chão encharcado das águas dos igarapés, dos rios, a floresta exalando o aroma verde. Thiago de Mello é tudo isso aí, nasceu no município de Barreirinha, coração da floresta amazônica, no Estado do Amazonas.
Conheceu grandes poetas brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Foi estudar medicina no Rio de Janeiro. Com o golpe de 1964, foi exilado em vários países como Chile, Argentina, Portugal, França e Alemanha. Retornou ao Brasil em 1978 e, mais que depressa, voltou a se estabelecer em Barreirinha, no meio da floresta amazônica, só saindo de lá para ministrar algumas palestras pelo mundo. Thiago de Mello é um grande defensor das causas ecológica e humanitária. O cerne de sua obra, demonstra uma preocupação com a liberdade e a dignidade humana.
Merece destaque a admiração de Pablo Neruda por Thiago de Mello, Neruda escreveu um soneto que dedicou ao poeta amazonense, juntei a fotografia de Antonio Quintana (retratando Pablo Neruda, Matilde Urrutia e Thiago de Mello, 1963) ao soneto:

Thiago y Santiago (Pablo Neruda)

Thiago, A Santiago, como un vago mago,
has encantado en canto y poesía.
Sin San, has hecho de Santiago, Thiago,
un volantin de tu pajarería.
Al Este y al Oeste de Santiago
diste el Norte y el sur de tu alegría.
Muchos dones nos diste, un solo estrago:
llevaste el corazón de Anamaría.
Te perdonamos porque com tu bella,
de rosa en rosa y de estrella en estrella,
te llamará el Brasil a su desfile.

Te irás, hermano, com la que elegistes.
Tendrás razón, pero estaremos tristes,
que hará Santiago sin Thiago de Chile.

O poeta amazonense já tem quase 80 anos é uma figura interessante. Veste-se sempre de branco, é considerado um verdadeiro caboclo da Amazônia, com seu semblante de índio e fala mansa e pousada. O escritor sempre enfatiza em suas palestras a busca através de sua obra de realizar a consagração das três grandes causas de sua luta: a preservação da floresta, a integração cultural da América Latina e a construção de uma sociedade humana e solidária.
Por tudo o que representa esse poeta, convido a todos que envidam os seus esforços para deixar o mundo melhor do que encontraram, a escutar o poeta Thiago de Mello. Ouçam a floresta, os rios, a fauna de nossa Amazônia pulsando nas linhas que se seguem, não posso deixar de ressaltar que as imagens de Salvador Dali abrem e fecham o post:

Estatutos do Homem (Thiago de Mello)


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e olobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo..


Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso ébelo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem..

7 comentários:

Anônimo disse...

Un merecido homenaje a un gran escritor y humanista. Abrazos.

Lila Magritte disse...

De acuerdo, una maravilla que abre la ventana a la esperanza.

Besos y abrazos, Pedro.

Tozé Franco disse...

PAlavras para quê?
Simplesmente belo!
Um abraço.

citadinokane disse...

Fernando,
Por todo o nosso continente temos poetas maravilhosos, Thiago é uma fruta boa deste solo chamado Brasil.
Abraços hermano,
Pedro

citadinokane disse...

Lila,
Esperança para todos nós, querida hermana.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Tozé,
Que a beleza possa penetrar nossa alma e torná-la melhor ainda...
Abraços,
Pedro

Anônimo disse...

I think, you will come to the correct decision. Do not despair.