quinta-feira, janeiro 25, 2007

A águia do Loco...


Naquele final de tarde, quando o sol lançava os seus últimos raios, e que imperava uma absurda tranqüilidade, só perturbada pela fumaça de tabaco que inundava o ambiente, me aproximo do Locobueres, que entre uma baforada do Cohiba e um gole do tinto chileno, adora destilar lições de vida, como se fosse o último remanescente dos Mundurucus, um verdadeiro Tuchaua...
Com o olhar paralisado no horizonte, acompanhando o derradeiro raio solar, meu amigo Loco fica introspectivo, silencioso... Não me atrevo a romper com a catarse que suponho ocorrer neste momento, vejo o reflexo do sol alaranjando a Baía do Guajará, e vejo também os olhos do Loco marejados de rios e igarapés... e prestes a transbordarem...
Começo a tossir, um mero pretexto para interromper as elucubrações buerinas, e em seguida pergunto se ele estava triste, como se tivesse acabado de desembarcar em terra, ele respira fundo e virando-se de lado deu uma sonora gargalhada, dizendo que não tem tempo "pra essas frescuras".
Mais uma baforada do charuto, o cálice de vinho esvaziado rapidamente, e o Loco começa a falar baixinho, sussurra e solta uns risinhos contidos... Olha pra mim e pergunta: - Pensas que eu estou doido?!
O Loco resolve falar, e vai dizendo enigmaticamente: - É preciso viver, viver com sabedoria... Depois de uma breve pausa, retoma a conversação com a entonação da voz mais grave, a testa franzida e as rugas começando a matusalenar(o Loco adora transformar substantivo em verbo, taí o trôco) o rosto do poeta; percebi que existia vivência e muita bondade naquele "espírito que anda", e que a nossa amizade confirmava, me encontrava absorto, refletindo as palavras do Loco.
- Tu sabes que gosto de contar histórias? Ele me pergunta. Respondo com um aceno afirmativo da cabeça.
Ele se levanta e caminha até a beira da Baía do Guajará, joga duas pedras nas águas plangentes da baía... De costa para mim e de frente para a baía, com o dedo indicador em riste, aponta para o céu alaranjado e virando o rosto para mim, fala: - Estás escutando?! O Loco fica estático, com os olhos prontos a saltarem de suas órbitas. Não consigo entendê-lo, e pergunto: - O quê?
- A Ave-Maria! Escuta os anjos... O "espírito que anda" parece que está em transe, junta as mãos como se fosse orar, se aproxima mais da baía, como se estivesse em contrição, olha para o céu e lentamente vai baixando o olhar para as águas da baía...
Depois fui compreendendo melhor o meu amigo, momento de aprendizagem para mim, o Loco tem muita experiência acumulada, anda doido para compartilhar.
Ele retoma a fala de novo e comenta sobre uma águia, retira do bolso da calça um pedaço de papel embolado e me entrega: - Publica esse texto, pode ajudar muita gente, ok?! Novamente assentir com a cabeça e estendi a mão para recolher a mensagem, toda amassada...
Mudamos de assunto, um outro amigo chegou e passamos a discorrer sobre outras preocupações, bem mundanas, bem mundanas...
Ontem, ao enfiar a mão no bolso da calça, encontrei um papel bem amassadinho, putz! a calça havia sido lavada, era o papel do Loco, será que eu consigo recuperar o texto, vou tentar, vamos ao texto:
A águia empurra gentilmente seus filhotes para a beirada do ninho. Seu coração maternal se acelera com as emoções conflitantes, ao mesmo tempo em que ela sente a resistência dos filhotes aos seus persistentes cutucões: "Por que a emoção de voar tem que começar com o medo de cair?", ela pensou. Esta questão secular ainda não estava respondida para ela...
Como manda a tradição da espécie, o ninho estava localizado bem no alto de um pico rochoso, nas fendas protetoras de um dos lados dessa rocha. Abaixo dele, somente o abismo e o ar para sustentar as asas dos filhotes. "E se justamente agora isto não funcionar?", ela pensou.

Apesar do medo, a águia sabia que aquele era o momento. Sua missão maternal estava prestes a se completar. Restava ainda uma tarefa final... o empurrão.
A águia tomou-se da coragem que vinha de sua sabedoria interior. Enquanto os filhotes não descobrirem suas asas, não haverá propósito para a sua vida. Enquanto eles não aprenderem a voar, não compreenderão o privilégio que é nascer uma águia. O empurrão era o maior presente que ela podia oferecer-lhes. Era seu supremo ato de amor. E então, um a um, ela os precipitou para o abismo... e eles voaram!
É amigo Loco... essa mensagem pode ajudar muita gente.

2 comentários:

Fred Guerreiro disse...

Ficou muito legal o novo layout. Beleza!
Só precisa diminuir um pouco o número de posts na primeira página, para ficar mais levezinha.
Ah..., não vai esquecer de recolocar o "O Intimorato" nos links.
Abraço

citadinokane disse...

Fred,´
O layout está em fase de análise...
Farei mais algumas modificações.
Colocarei com certeza "O Intimorato" nos links.
Abraços,
Pedro