segunda-feira, janeiro 15, 2007

Ver o que não devia...


"- E agora, senhoras e senhores, vamos apresentar a prova terrível da mulher que terá que ser decapitada todas as noites a esta hora, durante cento e cinqüenta anos, como castigo por ter visto o que não devia."(Gabriel García Márquez in Cem anos de solidão)

Ver o que não devia, às vezes me incomoda, poderia viver o resto do meu tempo na santa ignorância, reproduzindo o que Caetano ironiza em "Podres Poderes", é claro, sem sabê-lo, dizendo sorrindo: como são lindos os burgueses... Mas, tudo é muito mais, eu sei...
As palavras de Félix Guattari estão aí advertindo, sobre a necessidade de mudanças, pequenas, moleculares, mudemos nossas práticas cotidianas, nosso "machismo"(existem mulheres machistas, hein!), são mudanças urgentes, mudemos valores e posturas diante das diferenças que inundam a tessitura social...
Quando foi entrevistado em 30/12/1990 pela Revista Teoria e Debate da Fundação Perseu Abramo, Guattari ao ser interpelado sobre a idéia de liberdade e sua relação com o "fim do socialismo". Ele respondeu dizendo: "Pessoalmente, não vejo inconveniente algum em que se termine com uma falsa representação do socialismo burocrático, um socialismo de Gulags - e mesmo de um socialismo tutelado, como esse de Cuba. Não é algo que nos force a tomar uma posição depressiva; é algo que libera o campo do possível: vai ser preciso reinventar alguma coisa que se chame socialismo ou tenha qualquer outro nome, não importa. Para isso, é preciso que os objetivos de luta sejam muito menos dogmáticos. Deve haver uma orientação para uma concepção pluralista de mercado e Estado, o que acarretará o fim de um certo dualismo mecanicista entre a função pública e a privada. Acho que existe toda uma invenção institucional que implica a autonomização das entidades sociais e culturais, não através do mito da autogestão absoluta, mas de articulações com diferentes mercados. Por exemplo, os empreendimentos educacionais ou psiquiátricos deveriam escapar dessa espécie de dilema diabólico, entre a tutela burocrática do Estado, que é quase esterilizante (pelo menos na França), e a captura pela área privada. Há todo um terceiro setor instituído, de economia social, experimentação coletiva, que as novas formações políticas deveriam sustentar - o que significaria, da parte delas, renunciar à associação com tendências corporativistas que existem no movimento operário e entre os funcionários. Um outro problema é o da redefinição das relações entre o trabalho e a atividade social. A informatização e a robotização da produção tendem a eliminar muitos postos de trabalho tradicionais. Com isso, criam-se novas perspectivas, como a de se incorporar o trabalho doméstico ao regime salarial. O último ponto é que as organizações políticas, elas mesmas devem se redefinir, redefinir o tipo de articulação que têm com seu campo pragmático. É por essa via que talvez haja a recomposição de um "socialismo". Mas essa via requer um enriquecimento, uma maior complexidade em relação aos organismos militantes tradicionais, existentes sob o centralismo democrático."
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Banhado de saudosismo, lembrei de um militante de esquerda, meu amigo, que anunciava aos quatro cantos que a Revolução estava se aproximando, já era possível vê-la, ali na esquina... Eu olhava pra ele e ficava pensando com os meus botões, como ele era tão despreparado, não para a revolução social que se prometia, mas acima de tudo, para a sua revolução, pessoal, íntima... que não havia iniciada... O "revolucionário" era muito irresponsável, não conseguia se segurar em emprego nenhum, os pais, pessoas simples, esperançosos que o filho desse certo, e o que viam era apenas uma esperança, que a cada ano, como se fosse flor, despetalava aos poucos...
Esse militante, de uma inteligência brilhante, não sei se por aversão ao mundo capitalista-burguês, não conseguia sobreviver sem a ajuda de amigos e parentes nesse mundo-de-meu-Deus, não sabia se automanter, precisava da caridade de quem ele detestava...
Vira e mexe pedia dinheiro emprestado pra gente, mas nos momentos de cólera e ódio ao sistema, o fdp gritava que nós éramos pequenos-burgueses e que quando a revolução fosse vitoriosa, ele seria "comissário do povo" e os nossos nomes estariam na lista do paredón... Ficava pensando naquela época: - com companheiro desse nível, ninguém precisava de inimigo de classe; passada a raiva o "revolucionário" vinha e dizia pra gente: - aí companheiro paga uma cerveja pra mim, tô duro, né?! Como tem sangue lusitano correndo em nossas veias, o coração perdoa rapidamente, lá íamos sentar para sonhar com um mundo melhor... rsrsrs...
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Fazendo uma análise de minha vida, a partir de um esforço pessoal, percebo o quanto avancei na luta contra os meus preconceitos e valores negativos, caldo cultural de várias gerações, mas que não deve servir de desculpas para não enfrentá-lo e modificá-lo. Diria que as mudanças que ocorrem hoje, são resultados das revoluções de heróis anônimos, que não conseguem recitar as cantilenas de uma entourage de intelectuais soberbos; mas, ali no chão de sua casa, abrem o diálogo com os filhos e vão superando o autoritarismo, resquício da família patriarcal, é esse anônimo que abraça a esposa e se regozija com o espaço que ela vai conquistando em seu trabalho e na afirmação de uma identidade, diretamente relacionada com o respeito aos direitos das mulheres e por aí vemos surgindo um novo homem.
Testemunhei em minha curta existência, muitos militantes de esquerda espancando filhos e mulheres, em outras situações, como advogado, lutei para que o "deputado de esquerda" pagasse a pensão alimentícia de seu rebento, ah! meu Deus, que tristeza...

"Você me abre os seus braços e a gente faz um país..."

14 comentários:

ps3785863 disse...

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Nan disse...

Tudo bem contigo, amigo?

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"cem anos de solidão" - o livro que segue á cabeça da lista dos que mais me marcaram.

_________________

Quanto ao resto...

tristeza. muita.

(estou tão cansada, hoje. outra altura comento melhor...)

beijos

Dirceu Franco disse...

Pedro,

Você melhor do que ninguém sabe que as atuais mudanças que estamos vivendo, seja nas relações econômicas, de trabalho e produção, seja na vida sócio-familiar, são irreversíveis.
Acho que não adianta muito, a não ser para relembrar em rodadas regadas a "sucos" com amigos, aquilo que não tem mais volta.
O importante é sempre tirar coisas úteis da mudança, sejam elas quais forem.
(PSDB - PT / Automatização - informatização / carteira assinada - prestação de serviços / Chevorlet - Toyota / Estação das Docas - Boteco da Computer / Kaiser - Cerpa, etc.)

Cristina Moreno disse...

Ainda é um número bem pequeno dos que fazem isso, mas, já é um começo. As estatísticas sobre espancamentamento de mulheres(na família), é desesperadora. O seu lamento é o mesmo de muitas pessoas. Mas, bater na mesma tecla, é válido(nesse caso, o verbo "bater" é apropriado). E pensar que tudo começou com o Gabriel Garcia Marques...ler é maravilhoso! Parabéns.

Anônimo disse...

Boa semana

Loira em Fuga disse...

Humm... texto grande to no trabalho mas deixo um beijinho com carinho

B-jokasss

citadinokane disse...

ps3785863,
Thank you.
Pedro

citadinokane disse...

Nan,
Sempre bom sentir a tua presença.
Comigo tudo bem e muito trabalho...
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Dirceu,
A vida é mais complexa do que aqueles esqueminhas rabiscados no quadro de uma escola qualquer...
Aqui embaixo é mais complicado.
A gente desenrola tudo isso bebendo os nossos sucos lá na Sol...
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Cris,
É lamentável o machismo, tenho certeza que o futuro será melhor... Bem melhor...
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Mikas,
Obrigado querida, e uma boa semana para ti também.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Loira,
Obrigado pela visita rápida, valeu!!!
Beijos,
Pedro

Cris Moreno disse...

Ainda é um número bem pequeno dos que fazem isso, mas, já é um começo. A estatística sobre espancamentamento de mulheres(na família), é desesperadora. O seu lamento é o mesmo de muitas pessoas. Mas, bater na mesma tecla, é válido(nesse caso, o verbo "bater" é apropriado). E pensar que tudo começou com o Gabriel Garcia Marques...ler é maravilhoso! Parabéns.

citadinokane disse...

Cris,
O homem cuidando bem da mulher, a recíproca é verdadeira...
Beijos,
Pedro