domingo, março 04, 2007

Manifesto da Zizi Possi

Vai abaixo parte de um manifesto de Zizi Possi, lançado em 2003 sobre o momento da nossa música, vale a pena e ler e refletir sobre a cultura brasileira. De lá para cá, poucas mudanças... rsrsrs...
Até gostaria de colocar todo manifesto, mas Mari e uns&outros não gostam de ler substância... Deixa pra lá! Eles querem todo texto numa pílula e pronto, não gostam de deitar a vista dos olhos sobre a tela do computador e ler um pouquinho... Ah, eles não usam black-tie?! E daí?

Sem arriscar, do artista não brota a obra
Sem arriscar, do artista não brota a obra. A realização dessa obra requer muita fé no que não se pode ver, nem tocar, nem sequer acreditar que é possível... e suportar a pressão dos incrédulos. Ser artista é entre outras coisas, ter coragem de ousar, de mergulhar no desconhecido até então. Quem investe na arte?
Zizi Possi

Meus amigos:
Muitas pessoas que gostam de mim e do meu trabalho têm perguntado sobre a minha rescisão com a gravadora, e o que será do meu futuro.
Gostaria de responder a todos os que têm essa questão em mente, contando um pouco do que, e de como penso sobre isso.
Vale lembrar que não sou dona da verdade, nem pretendo convencer ninguém a respeito de nada. Estou apenas expressando o meu ponto de vista, e esclarecendo minha opção.
É o seguinte:
A indústria da música no mundo gera o maior capital depois da de petróleo. Ou pelo menos gerava, antes da facilidade de reprodução de um CD pela pirataria, e da era Internet,Ou seja: um próspero negócio.
As gravadoras multinacionais no Brasil, historicamente dominaram o mercado por serem mais ricas e organizadas,Graças ao geométrico potencial de desenvolvimento financeiro, chamaram a atenção e foram absorvidas por grandes corporações ou parques temáticos:
A CBS virou SONY MUSIC – mais um braço da SONY.
A POLYGRAM virou UNIVERSAL MUSIC – mais um braço do parque temático, cinema, bonequinho, álbum de figurinhas, etc e tal.... Que por sua vez já foi vendida para um grupo francês enoooooooooooooooooorme, e que nunca trabalhou com música antes.
A RCA de ontem, a do cachorrinho no gramofone, é hoje BMG. O André me mostrou pela Internet “ quem “é a BMG. Tentem ,e pasmem!E por aí vai...
Ou seja, nas últimas décadas, o negócio foi crescendo tanto que a própria indústria, deslumbrada com os louros conquistados, foi arrebatada pela tentação financeira e acabou abrindo mão de si própria, para se tornar mais um braço de uma grande corporação.
Como braço, se a “gravadora” não gerar um volume pré-determinado de dinheiro no ano, o cargo dos executivos entra em pane, e pode haver um desastre nas suas promissoras carreiras.
Que entre em pane então a arte, a cultura,o artista, e tudo o que é mais trabalhoso de colocar no mercado, pois o consumo deve ser rápido e por atacado. Sem riscos desnecessários.
Quanto mais essa rapidez atropeladora vai crescendo e “resolvendo” a questão, menos importância e cuidado sobra para a arte e o artista – originalmente a matéria prima da indústria!...
Salve as bundas! Salve o hedonismo! Salve a banalização do sexo, da televisão, do “tornar-se famoso a qualquer preço”, e da informação!!!(que se faça justiça: esse mérito não é só da indústria da música!!! )
É o que temos, e teremos por um bom tempo, até que o mal se consuma a si próprio, e o povo se farte do sexismo, desmistifique a fama barata, e finalmente respire a permissão de merecer mais e melhor do que isso.
Em contrapartida, o Brasil é um grande mercado para a música. Não é tão difícil alcançar o mínimo anual estipulado. Não requer grandes investimentos comparados aos que os outros braços costumam disponibilizar para o marketing dos respectivos produtos.
(...)
Tenho saudade de entrar naquela loja onde o mocinho de crachá se aproximava para ajudar, e quando eu perguntava sobre um determinado artista, ele sabia tudo o que havia sido gravado nos últimos anos.Mostrava os CDs, citava músicos e o solo da guitarra numa canção, o de sax na outra... Eram bons os tempos em que se ouvia um disco inteiro com prazer e sede de estar perto da criação e do artista.
(...)
O sinônimo de sucesso para mim sempre foi o de obter um resultado positivo como decorrência de algum bom trabalho.
Para se obter um resultado é preciso fazer alguma operação antes, certo?
Então, desde que sucesso passou a ser encarado como sinônimo de fama e de dinheiro a qualquer preço, foi diminuída a importância do trabalho do artista.O sucesso passou a ser a meta, e não o resultado.
As máquinas maravilhosas que corrigem desafinações, e trazem já ritmos e timbres completos, são capazes de reduzir o número de músicos e de consertar qualquer erro.
Não sou contra essa tecnologia, muito pelo contrário – acho bárbaro! Só sinto por ela estar sendo utilizada tão abusivamente.
O mercado e a mídia podem estar lotados de pessoas que se tornam famosas, mas nem por isso podem ser reconhecidas como artistas.
Isso é sucesso?????
Olha, até meu cachorrinho pode latir afinadinho, e com sorte se cair no gosto popular, ser o maior sucesso do Brasil.
Sucesso no dicionário deles, bem entendido!
Cabe dizer, que neste momento da história, a indústria nacional de música – ontem um “nada “ para o mercado - tem revelado extrema criatividade ao lidar com o mercado, a mídia e as concorrentes.
Que bom poder olhar para este cenário e ver que a batuta na mão da indústria brasileira (a verdadeira ABPD) está regendo um leque aberto de opções menos preconceituosas, preguiçosas e tendenciosas, garantindo um pouco da imensa variedade de músicas e estilos do país – o que caracteriza nossa riqueza cultural.
Tomara que não se percam pelo caminho. Não haverão de se perder!
Enfim quem sou eu para criticar?Como já disse desde o início, não sou dona da verdade.Essa é apenas a minha visão deste momento da história da música popular & indústria & mercado.
A mim, cabe apenas saber até onde posso andar nessa direção.
Não me reflito nesses valores.
Sei que vai ser trabalhoso daqui por diante realizar meus projetos sem o suporte financeiro e mercadológico da indústria, mas acredito que vai rolar sim!
Parei de andar por esse caminho, mas não parei de cantar. Gosto de música, muito! De música com “M” maiúsculo. E é essa a música que pretendo realizar sempre. Pode demorar um pouquinho, mas tenho certeza que vai rolar!
Para você meu querido amigo, que vem me acompanhando há algum tempo, agradeço de coração, e espero retribuir lhe apresentando um trabalho do tamanho do seu carinho e atenção.
Vamos manter contato!
Um grande beijo,
ZZ

Na íntegra clica aqui
Extraído do site oficial da cantora Zizi Possi

6 comentários:

Mari disse...

É lamentável a ocorrência desse fato na "industrialização" da música. Hoje, realmente, qualquer um faz sucesso, é só cair no "gosto" popular, que diga-se de passagem...prefiro nem comentar. Apesar de tudo, sempre, as melhores composições e etc...tiveram um público seleto e, prefiro fazer parte deste e curtir de verdade a voz da maravilhosa Zizi Possi e demais verdadeiros artistas.

Um enorme beijo pra você Pedro. Valeu esta publicação.

Mari

citadinokane disse...

Mari,
Infelizmente, estamos submetidos à ditadura do "jabá"... O povão só escuta o que os donos das gravadoras "poderosas" querem.
É só verificar o programa do Faustão...
Só Jesus salva!!!
Abraços,
Pedro

Fred Guerreiro disse...

Vivemos a era do lixo.

citadinokane disse...

Fred,
Se o Chico Buarque e outros ícones da MPB começassem suas carreiras hoje, não teriam como fazer frente aos grupos de pagodeiros, axé e calypso, ou pior ainda "lapada na rachada"... rsrsrs...
Salve-se quem puder!!!

Yúdice Randol disse...

Gosto da Zizi Possi, mesmo tendo achado sua postura grosseira num show a que assisti, na Assembléia Paraense - e isso a despeito de ela ter razão quanto a reclamar do barulho. Afinal, naquela bodega o bar continuou aberto com o show em andamento. Seja como for, o texto dela está primoroso.
Parabéns a ti, amigo Nelito, pela iniciativa de prestar homenagem aos bons artistas do país das bundas.

Luciane Fiuza de Mello disse...

Post mais do que necessário, Nelito. É tão difícil fazer arte no Brasil. É tão duro fazer arte no Pará. Me sinto renovada quando vejo artistas que não se corrompem, apesar de tantas dificuldades. O manifesto está atualíssimo. Parabéns!
Lu.