quarta-feira, março 28, 2007

A música em forma de mulher

Deixo aqui como se fossem minhas as palavras do poetinha, Juca com a sua perspicácia, entre uma baforada e outra, vai suspirar de alegria, o Locobueres ao ler esse texto, há de enlouquecer mais ainda e derramar goela abaixo um tubo de água-que-passarinho-não-bebe, empunhando o seu violão e com o olhar nostálgico, tocará as mais lindas guarânias, sempre em tom menor... Loas à lua, ao feminino que se entranha em cada homem, por isso acreditamos que um outro mundo é possível.
Valeu Bueres!!!

Uma Mulher Chamada Guitarra (Vinicius de Moraes)

UM DIA, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.
O violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina — viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo — o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.Ponha-se num céu alto uma Lua tranqüila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranqüila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.
Texto extraído do livro "Para Viver um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 14.

8 comentários:

Lisânia disse...

Profe, que romântico... deu até pra esquecer uma certa certa prova de um certo profe que farei daqui a pouco rsrsrsrs.
Gostei muito da mulher violão!!!
Abcs.

J@de disse...

Lindo lindo lindo!!
O modo como Vinícius falava da gente é de derreter qualquer uma, dá vontade de ser mais menina viu? Mas como ele era um cafajestão eu repenso... hehehehe!!

citadinokane disse...

Lisânia,
Vai fazer a prova!
E depois ver se esquece um certo profe... ehehehe...
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Jade,
Perdoa o poetinha. Ele amou demais!
Beijos,
Pedro

Navi Leinad disse...

Pedro, esse cara sabia muito do que falava...

citadinokane disse...

Ivan,
Vinícius viveu intensamente a sua poesia... Pagou um preço, né?!
Abraços,
Pedro

P.S.: Tenho um presente pra ti meu irmão.

Navi Leinad disse...

Pô, cara! Temos que voltar com as tertúlias diurnas dos sábados!

citadinokane disse...

Ivan,
Concordo contigo. Vamos agitar a turma, né?!
Abraços,
Pedro