quinta-feira, abril 19, 2007

Alguém tem um lenço aí?

Daqui estou escutando tudo... as lembranças em borbotões afloram, e Gal Costa vai desenterrando meus mais recônditos sonhos e projetos de adolescente, ela canta cada linha da poesia de Maiakovski com tanta emoção, torna-se urgente descer e andar entre os simples e comuns cidadãos daqui, deixando o vento embaraçar as lembranças e amores idos...
Vou falar uma coisa séria, depois de escutar e me emocionar com a poesia de Maiakovski, sinto que sou uma pessoa melhor...
Augusto me empresta um lenço? tem um cisco no meu olho...

O Amor (Maiakovski)

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.

14 comentários:

Cris Moreno disse...

Ei, forasteiro de Plutão, essa aqui é demais:

A Esperança
Vladimir Maiakovski

Injeta sangue
no meu coração,
enche-me até o bordo das veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada.
Com um toco de pena,eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu farei de graça:
esfregar,
lavar,
escovar,
flanar,
montar guarda.
Posso, se vos agradar,
servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre,
mas que fazer da alegria,
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
nas aflições,
pesar...
Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
e alegorias,
malabares dar-vos-ei
em versos.
Eu amei...
mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
Tanto pior...
Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos... Amo também os bichos -
vós os criais,
em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
um verdadeiro vira-lata!
e no entanto,
por ele, arrancaria meu próprio fígado:
Toma, querido, sem cerimônia, come!

Diana L. Caffaratti disse...

Y es tan dulce su vosz, y es tan cálido su acento, y tan tenue su cadencia...
Muy lindo lo que compartes.
Saludos

Loredana disse...

me encantan tus post mi amigo.

un beso.

Luciane Fiuza de Mello disse...

Quem é vivo sempre aparece... Apareça sempre!!!
Besos!
Lu.

Segredos da Esfinge disse...

Pedro,
Que muitos "Ciscos" estejam sempre em seus olhos, pois a humanidade anda mesmo com um pedrra no lugar do coração e esquecem de quanto e como é maravilhoso o sentimento da emoção.
Guarda sempre um pontinha do lençol pra gente.
Pois passar aqui é garantia certa de emoção.
Beijinhos

J@de disse...

É a mistura perfeita de poesia, melodia e voz, putz é de nascer um pé de ciscos nos olhos!! hehehehe!!
Beijos!!

Lidiane disse...

Devidamente "roubado".

Beijo.

citadinokane disse...

Cris - Minha amiga da Terra,
Com as minhas mãos sangrando de satisfação, exumo carinhosamente Charles Baudelaire, em resposta ao poema de Maiakovski:

Amo a recordação daqueles tempos nus

Amo a recordação daqueles tempos nus
Quando Febo esculpia as estátuas na luz.
Ligeiros, Macho e fêmea, fiéis ao som da lira,
Ali brincavam sem angústia e sem mentira,
E, sob o meigo céu que lhes dourava a espinha,
Exibiam a origem de uma nobre linha.
Cibele , então fecunda em frutos generosos,
Nos filhos seus não via encargos onerosos:
Qual loba fértil em anônimas ternuras,
Aleitava o universo com as tetas duras.
Robusto e esbelto, tinha o homem por sua lei
Gabar-se das belezas que o sagravam rei,
Sementes puras e ainda virgens de feridas,
Cuja macia tez convidava às mordidas!

Quando se empenha o Poeta em conceber agora
Essas grandezas raras que ardiam outrora,
No palco em que a nudez humana luz sem brio
Sente ele n'alma um tenebroso calafrio
Ante esse horrendo quadro de bestiais ultrajes.
Ó quanto monstro a deplorar os próprios trajes!
Ó troncos cômicos, figuras de espantalhos!
Ó corpos magros, flácidos, inflados, falhos,
Que o deus utilitário, frio e sem cansaço,
Desde a infância cingiu em suas gases de aço!
E vós, mulheres, mais seráficas que os círios,
Que a orgia ceva e rói, vós, virgens como lírios,
Que herdaram de Eva o vício da perpetuidade
E todos os horrores da fecundidade!

Possuímos, é verdade, impérios corrompidos,
Com velhos povos de esplendores esquecidos:
Semblantes roídos pelos cancros da emoção,
E por assim dizer belezas de evasão;
Tais inventos, porém, das musas mais tardias
Jamais impedirão que as gerações doentias
Rendam à juventude uma homenagem grave
- À juventude, de ar singelo e fronte suave,
De olhar translúcido como água de corrente,
E que se entorna sobre tudo, negligente,
Tal qual o azul do céu, os pássaros e as flores,
Seus perfumes, seus cantos, seus doces calores.

citadinokane disse...

Diana,
Escreves como que desenhando um lindo arco-íris no azul celestial...
Que belo!!!
Beijos

citadinokane disse...

Loredana,
O Canadá é logo ali...
Belíssima tua presença.
Beijos

citadinokane disse...

Lu,
Sempre vivo!

citadinokane disse...

Segredos,
E como tenho tirado ciscos dos meus olhos.
Beijos

citadinokane disse...

Jade,
E que pé de cisco, hein?!
Tu és muito engraçada.
Beijos

citadinokane disse...

Lidiane,
Como sou da área jurídica, já preparei o habeas-corpus, ok?!
Besos