quinta-feira, abril 05, 2007

Don Miguel de Unamuno

O grande pensador espanhol do século XX - Miguel de Unamuno, foi reitor de Salamanca, e mesmo tendo apoiado a tomada de poder pelo General Franco (18 de julho de 1936), opôs-se com muita coragem ao chefe militar Millán Astray que bradava "Viva a Morte! Abaixo a inteligência!", em pleno Salão de honra da Universidade de Salamanca , em 12 de outubro de 1936 - dia da raça.
A reação de Unamuno foi imediata, o reitor indignado com o que estava ouvindo ergueu-se e rebateu ao tresloucado comandante dizendo que não aceitaria que em plena casa da sabedoria viessem aclamar a morte, com "um brado necrófilo e insensato", e considerava aquele desvario todo o fato do general ser "um aleijado destituído da grandeza moral de Cervantes"... Unamuno ficou em prisão domiciliar, vindo a falecer em 31 de dezembro de 1936.
Justificou a sua reação dizendo: "Há momentos em que calar é mentir. Porque o silêncio pode ser tomado como aquiescência."

Con recuerdos de esperanzas
y esperanzas de recuerdos
vamos matando a vida
y dando vida al eterno
descuido que del cuidado
del morir nos olvidemos...
Fué ya otra vez el futuro,
será el pasado de nuevo,
mañana y ayer mejido
sen el hoy se quedan muertos.
Me he despertado soñando,
soñé que estaba despierto,
soñé que el sueño era vida,
soñé que la vida es sueño.
Sentí que estaba pensando,
pensé que sentia, y luego
vi reducirse a cenizas
mis pensamientos de fuego.
Si hay quien no siente la brasa
debajo de estos conceptos,
es que en su vida ha pensado
con su próprio sentimiento;
es que en su vida ha sentido
dentro de sí al pensamiento.
Flores da el amor al hombre,
flores entre hojas al viento,
mas también le da diamantes
duros, cortantes y escuetos.
No sólo el vapor calienta;
no llaméis frío a lo seco;
la carne enfría a menudo
y suele quemar los huesos. (MIGUEL DE UNAMUNO (1865 - 1936))
Com lembranças de esperanças
e esperanças de lembranças
vamos matando a vida,
e dando vida ao eterno
descuido que do cuidado
de morrer nos olvidamos...
Já foi outra vez o futuro,
será o passado de novo,
amanhã e ontem mesclados
no hoje quedam-se mortos.
Despertei-me sonhando,
sonhei que estava desperto,
sonhei que o sonho era vida,
sonhei que a vida é sonho.
Senti que estava desperto,
pensei que sentia, e logo
vi reduzir-se a cinzas
meus pensamentos de fogo.
Se há quem não sente a brasa
debaixo destes conceitos,
é que em sua vida pensou
com seu próprio sentimento,
é que em sua vida sentiu
dentro de si ao pensamento.
Flores o amor dá ao homem,
flores entre folhas ao vento,
mas também lhe dá diamantes
duros, cortantes e concisos.
Nem só o vapor aquece,
não chames de frio ao seco,
a carne esfria amiúde
e costuma queimar os ossos. (trad. Elson Fróes)

4 comentários:

Cris Moreno disse...

Ele me lembra o Lúcio Flávio Pinto.
Bjs.

Mari disse...

Pedro,

Gostei.

Bjs

Mari

citadinokane disse...

Cris,
Bem na esteira de Unamuno, o Lúcio é um Dom Quixote duelando com os moinhos de vento...
A imagem é pertinente.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Mari,
Acertei contigo, pelo menos umazinha, né?