domingo, abril 01, 2007

Monólogo de uma sombra

Resolvi provar um cohiba junto do Locobueres, num dia completamente verde, numa belíssima tarde de nossa existência... O Bueres ali filosófico ao extremo, enigmático de vez em quando, e a cada baforada que eu dava percebia a inquietação poética do meu amigo, não esqueçam que o Bueres convive mediunicamente com outras esferas - é poeta!
Lá ele estava a rabiscar o lenço de papel, perguntei sem querer tirá-lo de suas reflexões: - Loco estás em transe?! O sorriso libanês se abriu e suas "pequenas" narinas num hausto repentino quase que roubava todo o oxigênio do entorno... Ele respondeu calmamente: - Não. Estou pensando num poeta maldito.
Curioso, pergunto novamente: - Quem é o santo?
Dando gargalhadas, ele diz: - É o Augusto que não é santo, mas é dos Anjos, tô pensando na poesia de Augusto dos Anjos, uma poesia desalentadora em relação ao destino da natureza humana, mas que proporciona a possibilidade de refletirmos sobre a nossa condição... animal... homem. . .
Na hora consegui reproduzir com sofreguidão uma parte da poesia de Augusto dos Anjos, não memorizo com facilidade, mas consegui declamar, ou o melhor seria dizer que vomitei uma parte (monólogo de uma sombra - Augusto dos Anjos):
"Sou uma Sombra! Venho de outras eras,
Do cosmopolitismo das moneras...
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva de caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!

A simbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignota mônada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios...
E é de mim que decorrem, simultâneas,
A saúde das forças subterrâneas
E a morbidez dos seres ilusórios! "

É claro que essa poesia é imensa, não tenho condições de guardar linha por linha, mas é de uma profundidade abissal. Fitando-me com os olhos em ebulição, o Bueres aproveitou a minha deixa, deu uma gargalhada, bebeu uma taça que transbordava de tinto chileno e de supetão com os olhos esbugalhados, começou a declamar a parte que seguia os versos que declamei:
"Pairando acima dos mundanos tetos,
Não conheço o acidente da Senectus
- Esta universitária sanguessuga
Que produz, sem dispêndio algum de vírus,
O amarelecimento do papirus
E a miséria anatômica da ruga!

Na existência social, possuo uma arma
- O metafisicismo de Abidarma -
E trago, sem bramânicas tesouras,
Como um dorso de azêmola passiva,
A solidariedade subjetiva
De todas as espécies sofredoras.

Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!"

Algumas pessoas que estavam nas mesas próximas, começaram a nos olhar, como se ali em nossa mesa estivessem sentados "marcianos", percebemos a situação e rimos aos borbotões, e o Loco ainda deixou escapar uma profunda reflexão filosófica: - Fodam-se!
Agora, peloamordedeus, não me peçam para declamar o que declamei sem um tinto chileno ou português, este servindo de supedâneo para a tertúlia coloquial...
Ei Locobueres! Esbaldar-se de Augusto dos Anjos é uma necessidade.
"Monólogo de uma sombra" tem quase dois quilômetros de poesia, não posso esquecer dessas tardes verdes...

4 comentários:

Carlos Ponte disse...

Pedro, se estivesse numa mesa próxima faria o mesmo!
Divirtam-se.
Um abraço,
Carlos Ponte

J@de disse...

O que o vinho não faz heim? Gosto de Augusto dos Anjos, mas declamar isso tudo de cor... parabéns!!
Beijos!!

citadinokane disse...

Carlos,
Até eu faria a mesma coisa... ehehehe...
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Jade,
Só declamei um pedacinho e só mesmo.
O vinho é a bebida dos deuses, por isso que vamos ao Olimpo, né?
Beijos,
Pedro