quarta-feira, maio 23, 2007

A brusca poesia da mulher amada (III)

Como se Vinícius estivesse aqui, agora. Escrevo para eternizar-te...
Busco com toda verdade do meu ser revelar o que existe de melhor em mim... Estendo a minha mão ao teu coração, desconfiada estendes a mão timidamente, e surpreso vejo o coração vindo junto... a mulher amada abraça-me incontinente...
Essas leituras de Vinícius equivalem a muitas garrafas de vinho Periquita, Ô leitura desgraçada.

"A brusca poesia da mulher amada (III) - Vinícius de Moraes
Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes
do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja
sido
herói sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol,
a bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder
cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as
confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas
esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância
já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos
ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas...
Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!"
Rio de Janeiro, 1963
in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"

6 comentários:

Segredos da Esfinge disse...

Desgraçadamente boa não é?
Que o poeta Vinícius lhe atormente a mente sempre, que lhe faça publicar aqui todas as poesias que falam muito mais que as palavras, pois assim você alcançará o coração e não apenas a mão.
beijos

Cris disse...

Dá-lhe segredos...rsrsrsr....ele merece mesmo....ajudo um pouco também...e olhe que troquei de tênis...cuidado !!!!!!

Meu amigo...dê uma passadinha no Mr. Oscar...você vai adorar...rsrsrsrs ....é a sua cara!!!!!!

Bjs.

Anônimo disse...

Pedro, Pedro,

Ô homi mascarado. Tudo maravilhoso.
Adorei!

Bjs

Mari

citadinokane disse...

Esfinge,
Será?!
Tudo bem... continuamos na trincheira.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Cris,
Fui lá e tá tudo dominado...

citadinokane disse...

Mari,
Cuidado!!!