quarta-feira, maio 23, 2007

A brusca poesia da mulher amada(II)

Estão pensando que eu não iria falar nada? Acertaram. Vou falar, mesmo.
Fiquei pensando sobre o que o amigo Oscar falou - nada melhor do que falar da mulher amada.
Sento diante do pôr-do-sol, e como ele é desafiante... Penso em todas as mulheres amadas, e elas se levantam das cinzas de minha recordação e me abraçam e sussurram promessas de amor eterno... Loucas e mentirosas!
Relaxo em estridentes gargalhadas, ao perceber que o delírio assombra minh'alma.
Concordo com o Mr. Oscar, não pode a mulher amada causar pesadelos, posto que é um ideal, corra querida por entre campos floridos, pise descalça nos meus sonhos e volte sempre quando der saudades...
Ah! a mulher amada, alguns homens carregam a sua, em tresloucado desespero, enquanto outros apenas esperam por ela...
"A brusca poesia da mulher amada (II) Vinícius de Moraes
A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada
É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada!
Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!"
Rio de Janeiro, 1950 in Novos Poemas (II)
in Poesia completa e prosa: "Poesia varia"

6 comentários:

Osc@r Luiz disse...

AH!
Nada como a mulher!
E se for "a amada", então...
Passei pra te deixar um forte e apertado abraço no "Dia do Abraço"!

citadinokane disse...

Mr. Oscar,
Agradeço o forte abraço e sinta-se retribuído com a consideração de um blogueiro de Plutão.
Um forte abraço sideral,
Pedro

Segredos da Esfinge disse...

Pedro,
Ser abraço pelas cinzas das milheres amadas deve ser algo como abraçar fênix.
Acho fabulosa a idéia de serem "loucas", mas "mentirosas" por que seriam?
A mentira não combina com a loucura e nem com o amor.
A mentira não suporta as loucuras do amor.
Bjos

Anônimo disse...

Pedro,

Quanta poesia linda em teu blog. Parabéns. Paz no teu coração sempre.

Bjs

Mari

citadinokane disse...

Esfinge,
Mentem desgraçadamente...
E que venha a Fênix, envolvendo-me despudoradamente com suas asas.

citadinokane disse...

Mari,
Paz no teu coração!