sexta-feira, maio 11, 2007

Menino Jesus...

Vou contar uma coisa, sem ter vergonha... Trazemos o sangue lusitano em nossas veias, né?! Escutei o poema abaixo declamado pela Maria Bethânia, confesso que fui tomado de um enternecimento prazeroso, os poetas sabem como lidar com o divino, ou melhor, com o menininho que habita em nosso coração, as palavras, os sentimentos tudo bem colocado, vai num crescendo, de um sorriso singelo desembocando em forte emoção, arrebatadora mesmo, repetiria as palavras de Fernando Pessoa para esse menino que me acompanha:
"Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e
humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu
tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu
brincar.
" É certeza de emoção, vamos ao texto de Fernando Pessoa:

Poema Do Menino Jesus
(Fernando Pessoa)
Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como
uma fotografia: eu vi Jesus Cristo descer à Terra.
Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez
menino, a correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a
ouvir-se de longe.
Ele tinha fugido do céu. Era nosso demais pra
fingir-se de Segunda pessoa da Trindade.
Um dia que DEUS estava dormindo e o Espírito Santo
andava a voar, Ele foi até a caixa dos milagres e
roubou três.
Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que
Ele tinha fugido; com o segundo Ele se criou
eternamente humano e menino; e com o terceiro Ele
criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado
na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.
Depois Ele fugiu para o Sol e desceu pelo primeiro
raio que apanhou.
Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança
bonita, de riso natural.
Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças
d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece.
Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares,
e foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam, e toda gente acha
graça, Ele corre atrás das raparigas que levam as
bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia.
A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar
para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há
nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas
quando a gente as tem na mão e olha devagar para
elas.
Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo
que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois
com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas no
degrau da porta de casa. Graves, como convém a um DEUS
e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o Universo
e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair
no chão.
Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos
homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri
dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir
falar das guerras e dos comércios.
Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da
minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o
lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo
materno até Ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de
noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de perna pro ar,
põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho,
sorrindo para os meus sonhos.
Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais
pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua
casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e
humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu
tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu
brincar.

12 comentários:

Cris disse...

Ah! Esses poetas...um(muito especial) me disse uma vez...que eles são bruxos: “...se você me conhecesse, saberia que a primeira virtude de um bruxo é a paciência. Senta-se ele e distrai-se com o cozimento de suas poções, ou mistura de suas tintas, ou infusão das cores, enquanto aguarda que assente a poeira da tempestade que causou. Chama-se essa tempestade “processo alquímico”, ao fim do qual ninguém será mais a mesma pessoa”...

São do mundo...

um beijo

Felícia Feliz disse...

Desculpe o atraso, mas feliz aniversário para sua filha!
Um beijão, ótimo fim de semana e feliz dia das mães (rsrsrsrsr!)

Osc@r Luiz disse...

Linkei pra voltar sempre.
E é isso que estou fazendo.
Tem gente que tem mesmo o dom da palavra, não é?
Realmente nos fazem refletir... voltar ao passado... espiar o futuro.
Obrigado por nos brindar com esse post.
Um grande abraço e um bom final de semana!

Tozé Franco disse...

Este é um dos poemas que mais gosto. Já ouvi pela voz de Maria Bethânia, a melhor interpretação que escutei. Gostava de ter acesso a essa gravação mas nunca a encontrei.
Obrigado pela escolha.
Um abraço para todos desde este lado do Atlântico.

Segredos da Esfinge disse...

Ainda bem o "Menininho do Coração" não cresce, não envelhece, não se contamina com adulto que nos transformamos. E sempre que o adulto adormece o "Menininho" reaparece, fazendo graça e encantando, com as brincadeiras de criança.
A minha "Menininha do Coração" pediu pra eu reabrir o meu mundo de encantado (reabri o blog).
Bjo

citadinokane disse...

Cris,
Eles são de outro "mundo"...

citadinokane disse...

Felícia,
Muito obrigado e que o dia das mães tenha sido maravilhoso para ti e o teu filhinho.
Beijos

citadinokane disse...

Oscar Luiz,
Vou te linkar também.
É uma questão de tempo e estarei fazendo e muito obrigado por visitar o nosso barraco.
Abraços

citadinokane disse...

Tozé,
Preciso falar contigo, manda o teu e-mail, acesse o meu aí no canto do meu blog, ok?!
Abraços irmão

citadinokane disse...

Esfinge,
Mas que menininha danadinha, hein?!
Beijos

Edyr Augusto disse...

Que beleza! Adoro este poema. Também o conheci através de Maria Bethânia e o show Rosa dos Ventos. Viva Fernando Pessoa!

citadinokane disse...

Querido Edyr,
Adoramos cada palavra... E Fernando Pessoa continua vivo.
Abraços irmão