sábado, setembro 22, 2007

E as flores?

Querida Poetisa Lilian,
Resolvi dedicar mais linhas para te acolher com tudo o que os poetas merecem.
Não sou poeta, já percebeste, sou apenas uma pessoa simples e como diria a voz em off: - um simples mortal!
Por não ser poeta, trago todos os poetas comigo, e eles são todos meus!
Guardo em mim uma frase, um pedaço de um poema, trago sempre comigo e quero partilhar contigo... poetisa amiga:
"Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?"
Implorei e ele concordou, Vinicius de Moraes irá fazer a saudação merecida:
"A hora íntima
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?"

Rio de Janeiro, 1950

14 comentários:

Lilian disse...

Querido Pedro,
Em resposta ao poema de Vinícius, escrevo:

Se eu me deixar morrer de amores

Se eu me deixar morrer de amores
Os abutres que já estão à espreita
Irão banquetear-se de meu coração

Se eu me deixar morrer de amores
Serei dia após dia, dilacerada
Execrada, humilhada no sal

Se eu me deixar morrer de amores
Por dançar com a ilusão
Restarei eu sozinha no salão à meia luz
Em contido choro de solidão

Se eu me deixar morrer de amores
Ai que sabores
Da tua boca provar os mil licores
Enfrentarei eu a hora das dores
Sem mão amiga
Só tendo por inimiga
A inanição
Não posso não.

(Lilian Haber)

citadinokane disse...

Lilian,
Eis que o post ainda esfriava e a resposta se apresentou mais rápida que um tiro à queima-roupa...
São os abutres... espreitando os sentimentos, por isso a urgência em comunicar, que o pulso ainda pulsa...
Beijos,
Pedro

Lilian disse...

Pedro! Online!! Urgente a resposta, urgente a necessidade de se comunicar a não fala e assim silenciosamente agora me despeço com desejos de boa noite, vou dormir sonhos de plenitude, beijos.
Lilian.

citadinokane disse...

Durma em paz poeta, sonhe com as estrelas e bons pensamentos...
Vou dormir também, boa noite!
Beijos,
Pedro

Amanda_Bia disse...

Vinicius é demais né?! muito lindo esse poema! e quem será?!
beijos!

crisblog disse...

Caramba...adoro poesias...por aqui a coisa tá ficando linda mesmo!

Beijos.

Fon disse...

Bom Pedro, respondendo a pergunta q vc deixou no meu blog, a 'portinha' vai ser uma lojinha de decoração. Espero ver vc por lá. Grande abraço!

carla granja disse...

hummm...eu não pago funeral,nem flores ,nada de nada:) lindo poema , mas te ofereço uma rosa pode ser? não para o funeral,mas para k nao te esqueças de mim e de me visitar:=) bom domingo.
bjo e flores:)
carla granja

citadinokane disse...

Bia,
Vinicius, o poema e quem pagará as flores?!
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Cris,
Nós adoramos poesias e quem irá pagar as flores?!
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Afonso,
Gostei da proposta da "portinha", vamos prestigiar de verdade.
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Carla,
Irei buscar essa rosa, ok?
Beijos,
Pedro

Mixikó disse...

uauuu Pedro...que belo momento este

citadinokane disse...

Mixikó,
Minha amiga, este momento é todo nosso, nós que brindamos alegremente a arte de viver...
Beijos,
Pedro