segunda-feira, novembro 19, 2007

Uma Carta para Maria

Dos três irmãos conheci primeiramente o Henfil (Henrique de Sousa Filho), cartunista que teve grande destaque no processo de redemocratização do Brasil, através de seus personagens Pó de Arroz, Zeferino, Orelhão, Bode Orelana, Graúna, Cabôco Mamadô, Urubu, Bacalhau e Ubaldo, o paranóico. Com muita inteligência Henfil ia ridicularizando o autoritarismo militar... trabalhou na Rede Globo, como redator do extinto TV Mulher.
O Chico Mário conheci através de um CD "Retratos", era compositor e violonista, cursou economia, com pós-graduação em engenharia de sistemas na COPPE. Participou do movimento estudantil em plena ditadura militar, foi também jornalista no Estado de São Paulo e crítico musical na revista “Realidade”.
Como seus irmãos Chico Mário e Henfil, Betinho(Herbert José de Souza) era hemofílico, e após uma transfusão de sangue acabou contraindo o vírus da AIDS (ou SIDA). Faleceu vítima de insuficiência hepática, decorrente de hepatite C, faleceu no auge de sua carreira, com seu trabalho sendo reconhecido por toda imprensa brasileira, sociólogo com atuação no Ibase, liderou uma campanha nacional contra a fome, reunindo várias entidades independentemente do viés ideológico - "a fome não espera", dizia o grande Betinho.
Betinho nasceu em 03/11/1935, Minas Gerais e faleceu em 09/08/1997, em sua casa, Botafogo, no Rio de Janeiro. Participou da resistência ao Regime militar e exilou-se no Chile, no início dos anos 70.
Em vida Betinho impressionou-me bastante, sua militância sensata nos movimentos sociais e a clareza de suas proposições, descortinava para todos nós, novas possibilidades de lutas, algo gramsciano, construir uma hegemonia na sociedade civil...
Fiz questão de escrever sobre Betinho pela sensibilidade do homem "Herbert José de Souza". Mas sobretudo por uma carta... Uma amiga de trabalho mostrou-me uma carta escrita por ele para a esposa, um texto carregado de emoção sem pieguice... A Carta escrita pelo Betinho, foi lida um ano após sua morte, pelo ator Jonas Bloch, durante uma cerimônia no CCBB. Ah, ia esquecendo! Qual o nome da esposa dele? Maria.

Uma Carta Para Maria
"Este texto é para Maria ler depois da minha morte que, segundo meus cálculos, não deve demorar muito. É uma declaração de amor.
Não tenho pressa em morrer, assim como não tenho pressa em terminar esta carta. Vou voltar a ela quantas vezes puder e trabalhar com carinho e cuidado cada palavra. Uma carta para Maria tem que ter todos os cuidados. Não quero triste, quero fazer dela também um pedaço de vida pela via de lembrança que é a nossa eternidade. Nos conhecemos nas reuniões de AP (Ação Popular), em 1970, em pleno Maoísmo. Havia uma clima de sectarismo e medo nada propício para o amor.
Antes de me aventurar andei fazendo umas sondagens e os sinais eram animadores, apesar de misteriosos. Mas tínhamos que começar o namoro de alguma forma. Foi no ônibus da Vila das Belezas, em São Paulo. Saímos em direção ao fim da linha como quem busca um começo. E aí veio o primeiro beijo, sem jeito, espremido, mas gostoso, um beijo público. A barreira da distância estava rompida para dar começo a uma relação que já completou 26 anos!
O Maoísmo estava na China, nosso amor na São João. Era muito mais forte que qualquer ideologia. Era a vida em nós, tão sacrificada na clandestinidade sem sentido e sem futuro. Fomos viver em um quarto e cozinha, minúsculos, nos fundos de uma casa pobre, perto da Igreja da Penha. No lugar cabia nossa cama, uma mesinha, coisas de cozinha e nada mais. Mas como fizemos amor naquele tempo! Foi incrível e seguramente nunca tivemos tanto prazer.
Tempos de chumbo, de medo, de susto e insegurança. Medo de dia, amor de noite. Assim vivemos por quase um ano. Até que tudo começou a "cair". Prisões, torturas, polícia por toda a parte, o inferno na nossa frente. Fomos para o Chile. E ali, chamado por Garcez para elaborar textos, acabei no agrado de Allende, que os usou em seus discursos oficiais. Foi a primeira vez que eu vi amor virar discurso politico... Depois passamos por muita coisa até voltar. Até que a anistia chegou e nos surpreendeu. E agora, o que fazer com o Brasil?
Foi um turbilhão de emoções: o sonho virou realidade! Era verdade, o Brasil era nosso de novo. A primeira coisa foi comer tudo que não havíamos comido no exílio: angu! com galinha ao molho pardo, quiabo com carne moída, chuchu com maxixe, abóbora, cozido, feijoada. Um festival de saudades culinárias, um reencontro com o Brasil pela boca.
Uma das maiores emoções da minha vida foi ver o Henrique surgindo de dentro de você. Emoção sem fim e sem limite que me fez reencontrar a infância.
Depois do exílio, nossas vidas pareciam bem normais. Trabalhávamos, viajávamos nas férias, visitávamos os amigos, o Ibase funcionava, até a hemofilia parecia que havia dado uma trégua. Henrique crescia, Daniel aos poucos se reaproximava de mim, já como filho e amigo.
Mas como uma tragédia que vem às cegas e entra pelas nossas vidas, estávamos diante do que nunca esperei. A Aids. Em 1985, surge a notícia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemofílicos. O pânico foi geral. Eu, é claro, havia entrado nessa. Não bastava ter nascido mineiro, católico, hemofílico, maoísta e meio deficiente físico.
Era necessário entrar na onda mundial, na praga do século, mortal, definitiva, sem cura, sem futuro e fatal. E foi aí que você, mais do que nunca, revelou que é capaz de superar a tragédia, sofrendo, mas enfrentando tudo e com um grande carinho e cuidado. A Aids selou um amor mais forte e mais definitivo porque desafia tudo, o medo, a tentação do desespero, o desânimo diante do futuro. Continuar tudo apesar de tudo, o beijo, o carinho e a sensualidade.
Assumi publicamente minha condição de soropositivo e você me acompanhou. Nunca pôs um "senão" ou um comentário sobre cuidados necessários. Deu a mão e seguiu junto como se fosse metade de mim, inseparável. E foi. Desde os tempos do cólera, da não esperança, da morte do Henfil e Chico, passando pelas crises que beiravam a morte até o coquetel que reabria as esperanças. Tempo curto para descrever, mas uma eternidade para se viver.
Um dos maiores problemas da Aids é o sexo. Ter relações com todos os cuidados ou não ter? Todos os cuidados são suficientes ou não se deve correr riscos com a pessoa amada? Passamos por todas as fases, desde o sexo com uma ou duas camisinhas até sexo nenhum, só carinho. Preferi a segurança total ao mínimo risco.
Parei, paramos e sem dramas, com carências, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher, vivendo a sensualidade da música, da boa comida, da literatura, da invenção, dos pequenos prazeres e da paz. Viver é muito mais que fazer sexo. Mas para se viver isso, é necessário que Maria também sinta assim e seja capaz dessa metamorfose como foi.
Para se falar de uma pessoa com total liberdade é necessário que uma esteja morta e eu sei que este será o meu caso. Irei ao meu enterro sem grandes penas e principalmente sem trabalho, carregado. Não tenho curiosidade para saber quando, mas sei que não demora muito.
Quero morrer em paz, na cama, sem dor, com Maria do meu lado e sem muitos amigos, porque a morte não é ocasião para se chorar, mas para celebrar um fim, uma história. Tenho muita pena das pessoas que morrem sozinhas ou mal acompanhadas, é morrer muitas vezes em uma só. Morrer sem o outro é partir sozinho. O olhar do outro é que te faz viver e descansar em paz. O ideal é que pudesse morrer na minha cama e sem dor, tomando um saquê gelado, um bom vinho português ou uma cerveja gelada.
Te amo para sempre,
Betinho,
Itatiaia, janeiro de 1997"

Extraída do "Jornal da Orla" de Santos, SP, ao dia 24 janeiro 1999.

A frase abaixo é um torpedo contra o velho tucano FHC:
"Temos sociólogos bons e medíocres. Uns acabam professores, outros presidentes da República" (Herbert de Souza, sociólogo)

10 comentários:

Mixikó disse...

Pedro...
sem palavras...
Um beijinho

Mixikó disse...

é mesmo uma carta carregada de emoção e sem pieguices...

Entrar na alma de uma pessoa assim, faz-nos acreditar cada vez mais que a vida por x é injusta...leva cedo quem não deve...

Mixikó disse...

nesse caso...a morte...

Felícia Feliz disse...

Nossa, que emocionante!!!!!!

Amei a carta!

Bjos

Anônimo disse...

Chorei.
Abs
Tadeu

citadinokane disse...

Mixikó,
Betinho para todos nós brasileiros foi um grande cidadão...Muito preocupado com a exclusão social, cruzou o nosso país pregando a solidariedade... foi um grande homem, mesmo diante da morte...
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Oi Teresa!
Realmente é de uma profunda emoção.
O Brasil e o mundo precisam dessas pessoas...
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Tadeu,
Vou te confessar uma coisa que ninguém sabe, depois que cheguei aos 4.0 fiquei mais fragilizado... Choro também...
Abraços,
Pedro

Luciane disse...

Que carta linda, que amor... O Betinho era um ser-humano indescritível. Numa carta de amor transparece toda a sua grandiosidade, a grandeza da simplicidade: não é isso o amor?!
Bjs!
Lu.

citadinokane disse...

Lu,
Acho que isso é amor!