terça-feira, dezembro 25, 2007

Chaplin e o Adeus no Natal

"Ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode
caminham numa estrada de pó e esperança."
(Carlos Drummond de Andrade)


Numa madrugada como a de hoje(25/12), o maior gênio do cinema dormia e nunca mais acordaria... Lá se vão 30 anos sem Carlitos (Charles Chaplin), teve a chamada "boa morte", isto é, morreu dormindo...
Charles Spencer Chaplin nasceu no dia 16 de abril de 1889 às 20 horas, em um subúrbio de Londres.
Chaplin faleceu aos 88 anos na madrugada de 25 de dezembro de 1977, na localidade suíça de Vevey. E mesmo depois de morto, ainda foi possível a encenação de uma tragicomédia, o corpo de Chaplin foi levado do cemitério local por alguns ladrões em março de 1978 e sendo encontrado dois meses depois.
No dia de Natal, na fria madrugada de 25 de dezembro de 1977, o gênio de infância triste, que através de seus filmes fez o mundo inteiro rir e chorar, se despediu...
Chaplin recebeu uma homenagem de Carlos Drummond de Andrade, bem antes de sua morte, no livro publicado em 1945, chamado "A Rosa do Povo", é bem longo e belíssimo, para facilitar a leitura pelo Tico e Mari Pedra (eles detestam post acima de cinco linhas), publico só a primeira parte do poema de Drummond:

"Canto ao Homem do Povo - Charlie Chaplin"

Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sob color de poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
com qualquer gente do mundo - inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.

Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.

Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mandado por via postal ao inventor dos jardins.

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duras horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens - e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados da justiça, os simples de coração,
os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados,
os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.

10 comentários:

Amanda Bia disse...

lindo!
amo chaplin! ele foi um cara de visão!!
beijos!

Mylene Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Leo Nóvoa disse...

Fala professor!!
Aqui ou acolá a gente acompanha devagar.
=)

Mari disse...

Pedro-Pedra,

Não sabes que muitos gestos falam mais do que mil palavras homi. Adorei as fotografias e sabes que dizem e muito. O homem era o gênio do cinema mudo. Pra que falar muito? Eu hein, não aprendes mesmo, já li uma parte, depois eu volto pra ler o restante tá!? rsrsrs

Bjs

citadinokane disse...

Oi Bia!
Ele era o "cara"!

citadinokane disse...

Mylene,
Conta com a gente,tem que fazer direito, né?!
Quando tiver dúvidas sobre o direito, manda um e-mail, ok?
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

E aí Léo?
Tudo sob controle?
Valeu a visita!
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Pedra,
És da geração "coca-cola"?
Huumm... deixa pra lá!
Abraços,
Pedro

elvira carvalho disse...

Que tenha tido um óptimo Natal, e que 2008 seja um excelente ano.
Um abraço
Gostei deste seu post de Natal. Sempre gostei muito de Charles chaplin, não só pelo extraordinário actor que era, mas também porque meu pai se parecia muito com ele.
E o poema que lhe dedicou é mt bonito. De extrema sensibilidade, Chaplin terá adorado, se lá por onde anda dele teve conhecimento.
Um abraço

citadinokane disse...

Elvira,
Obrigado pela lembrança.
Chaplin trouxe tanta alegria a todo o mundo, não pode ser esquecido, né?!
Um 2008 cheio de paz e saúde!
Pedro