segunda-feira, dezembro 24, 2007

Noite de Natal

"Disse uma voz popular:
Quem me empresta uma escada
Para subir ao altar
Para tirar os cravos
De Jesus o Nazareno?"
Saeta popular
A chuva caindo... A cidade silente... É noite de Natal!
Lembrei-me de Fernando Pessoa dando vida ao seu heterônimo Alberto Caeiro, pincelando com maestria linhas que me tocaram profundamente.
Em “O guardador de rebanhos” parte VIII, Pessoa diz:
“Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?”

Na eletrola rolando a voz de Joan Manuel Serrat, vou sorvendo um cálice do vinho Periquita, com a permissão médica, e Serrat cantanto as palavras vívidas de La saeta de Antonio Machado, tão emocionante como as linhas traçadas por Pessoa em "Menino Jesus".
"¡Oh, la saeta, el cantar
al Cristo de los gitanos,
siempre con sangre en las manos,
siempre por desenclavar!
¡Cantar del pueblo andaluz,
que todas las primaveras
anda pidiendo escaleras
para subir a la cruz!
¡Cantar de la tierra mía,
que echa flores
al Jesús de la agonía,
y es la fe de mis mayores!
¡Oh, no eres tú mi cantar!
¡No puedo cantar, ni quiero
a ese Jesús del madero,
sino al que anduvo en el mar!"(Antonio Machado)
Para mim a noite de Natal, é antes de tudo um momento de reflexão... Muitos comemoram a vida e os ensinamentos do Cristo crucificado, comemoração nem sempre sincera, mas cada um tem a liberdade de fazer o que o coração manda, né?!
Abro um largo sorriso, não para o Cristo moribundo e escarnecido, mas para a criança que traz esperanças renovadoras, o Menino Jesus. Cristo nos ensinando com o seu eterno nascimento... Por isso, reproduzo como mensagem de Natal para todos os amigos, um excerto do texto "O guardador de rebanhos - parte VIII" de Fernando Pessoa, chamado também de “Menino Jesus”:
“Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como
uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à Terra.
Ele veio pela encosta de um monte, mas era outra vez
menino, a correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo a
ouvir-se de longe.
Ele tinha fugido do céu.
Era nosso demais pra
fingir-se de Segunda pessoa da Trindade.
Um dia que DEUS estava dormindo e o Espírito Santo
andava a voar, Ele foi até a caixa dos milagres e
roubou três.
Com o primeiro Ele fez com que ninguém soubesse que
Ele tinha fugido; com o segundo Ele se criou
eternamente humano e menino; e com o terceiro Ele
criou um Cristo eternamente na cruz e deixou-o pregado
na cruz que há no céu e serve de modelo às outras.
Depois Ele fugiu para o Sol e desceu pelo primeiro
raio que apanhou.
Hoje Ele vive na minha aldeia, comigo. É uma criança
bonita, de riso natural.
Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças
d'água, colhe as flores, gosta delas, esquece.
Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares,
e foge a chorar e a gritar dos cães.
Só porque sabe que elas não gostam, e toda gente acha
graça, Ele corre atrás das raparigas que levam as
bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia.
A mim, Ele me ensinou tudo. Ele me ensinou a olhar
para as coisas. Ele me aponta todas as cores que há
nas flores e me mostra como as pedras são engraçadas
quando a gente as tem na mão e olha devagar para
elas.
Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo
que nunca pensamos um no outro. Vivemos juntos os dois
com um acordo íntimo, como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer nós brincamos as cinco pedrinhas no
degrau da porta de casa. Graves, como convém a um DEUS
e a um poeta. Como se cada pedra fosse todo o Universo
e fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair
no chão.
Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos
homens. E Ele sorri, porque tudo é incrível. Ele ri
dos reis e dos que não são reis. E tem pena de ouvir
falar das guerras e dos comércios.
Depois Ele adormece e eu o levo no colo para dentro da
minha casa, deito-o na minha cama, despindo-o
lentamente, como seguindo um ritual todo humano e todo
materno até Ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma. Às vezes Ele acorda de
noite, brinca com meus sonhos. Vira uns de pena pro ar,
põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sozinho,
sorrindo para os meus sonhos.
Quando eu morrer, Filhinho, seja eu a criança, o mais
pequeno, pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua
casa. Deita-me na tua cama. Despe o meu ser, cansado e
humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu
tornar a adormecer, e dá-me sonhos Teus para eu
brincar.”

9 comentários:

Xico Rocha disse...

FELIZ NATAL, que possamos ser solidários, fraternos e que a estrela guia nos conduza no rumo da PAZ.
Beijos natalinos
Xico Rocha

citadinokane disse...

Xico,
Precisamos de muita solidariedade, e sem CPMF não é possível, mermão!!!
Feliz Natal!
Pedro

Anônimo disse...

Feliz Natal meu amigo com muita saúde para você e sua família.

Um grande abraço.

Wanderlei Ladislau

Xico Rocha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Xico Rocha disse...

A solidaridade que almejo transcende a qualquer fraude que possa atingir meu bolso, ela tem alicerces em principios que inclusive eu nem comungo, mas respeito, que são os cristãos.
Abaixo qualquer tentativa de me fraudar.
FELIZ NATAL
Xico Rocha

edyrap.bel disse...

Pedro
Você não tem idéia de como sou apaixonado por este poema de Pessoa, que ouvi pela primeira vez no show Rosa dos Ventos, de Maria Bethânia, em mil novecentos e preto e branco.
Espero que tenhas tido um Feliz Natal. Te desejo um ótimo 2008
Edyr

citadinokane disse...

Wanderlei,
Te desejo em dobro tudo o que foi emanado do teu coração mermãozinho.
Muita paz e amor que é mais importante para superarmos os embaraços dos caminhos...
2008 melhor que 2007 para tua família.
Pedro

citadinokane disse...

Xico,
Um Feliz 2008! y sem fraudes, pronto!
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Edyr,
Maria Bethânia declamando é beleza pura!
Também espero que neste período de grandes reflexões e balanços, tenha ocorrido um superávit de coisas boas em teu coração... E que em 2008 possas colher tudo o que foi semeado neste ano que finda.
Muita paz e amor!
Pedro