sexta-feira, janeiro 04, 2008

Oh, Pietá!


Ano novo, momento de reflexão, pinçando na memória alguns acontecimentos que me tocaram profundamente no ano passado, relato um caso ocorrido no Rio de Janeiro, a cidade é belíssima, inclusive, prometi para a minha filha que quando eu recebesse a parte da minha herança(ahahaha... me engana que eu gosto), iria comprar um apartamento no Rio bem próximo ao mar, a garota ficou vidrada no Rio e quem não fica?! Mas, voltando ao relato, fiquei impressionado, sensibilizado mesmo, como não poderia deixar de ser, uma bala "perdida" acabou "achando", infelizmente, um rapaz que passava pela rua... baleado, ensangüentado e sem o socorro devido, o rapaz chama pela mãe, mas quando ela chega ao local, encontra o corpo do filho já sem vida... Ela senta na calçada em silêncio, põe a cabeça do filho no colo, não grita, apenas o silêncio... acaricia os cabelos do filho, olha ternamente para o rosto do mesmo...
Essa cena me comoveu, primeiro a indignação - segurança lamentável; e segundo a ternura maternal. Um fotógrafo captou a imagem do filho no colo da mãe, imediatamente chamaram a foto de "Pietá carioca".
Meus amigos, em plena emoção, escrevi as linhas abaixo, não tenho pretensões literárias, apenas expressei um sentimento que rasgava o meu peito, transbordaram lágrimas, sou pai, sou mãe, sou sentimento, todo sentimento...

" Oh, pietá!
Mãe amorosa eternamente
debruçada sobre o filho...
O olhar a percorrer a imensidão
de um corpo inerte.
Roubada a vividez de teu rebento,
o que resta mãe?!
Mas o olhar insiste em descer candidamente
sobre o corpo do filho...
O grito contido.
As lágrimas vertem...
Ungüento derradeiro, mas que não perfuma.
Atônita...
O olhar perdido na imensidão
de um mundo que se esvai...
Oh, mãe!
Olhai, olhai, olhai..."
_______________
1ª imagem: Pietá de Michelangelo.
2ª imagem: Pietá de Paula Rego
3ª imagem: Pietá de William Blake

14 comentários:

elvira carvalho disse...

triste relato, ornado de leas imagens. A Pietá de Michelangelo.
Sabe que em Lagos existe uma imagem, se chama Nª Srª da Piedade.
Quando meu marido tinha uns 6 anitos foi para a catequese e quis ser baptizado. Quando os pais pediram a uns vizinhos para serem padrinhos, ele não quis a vizinha como madrinha. Escolheu a N. Srª da Piedade para madrinha. O padre disse que aceitava desde que tivesse um padrinho para assinar a cerimónia. E então ele foi baptizado com o vizinho por padrinho e a n. Srª por madrinha.
Quanto ao caso do jovem uma história muito triste que se repete infelizmente muitas vezes.
Sabe que em Lisboa, uns jovens festejavam a entrada de 2008 com tiros e que uma bala perdida matou um jovem e feriu um homem?
Um abraço e bom fim de semana

Lidiane disse...

Pedro, fico enternecida vendo o quanto isso emocionou você.
A humanidade seria melhor com mais homens assim.

Um beijo.

Xico Rocha disse...

Meu caro Pedro, ando meio preocupado com os destinos da humanidade, mas, não vejo com espanto cenas como a ocorrida, inclusive cheguei a vê-la pela televisão.
Na verdade todos nós perdemos o senso da descência, da ética, da moral, bem como os valores que por séculos nortearam os principios humanos, estamos todos nós, montados no bonde do querer, do fazer melhor, do ser melhor e como não dizer do parecer melhor, e sabe por que?
embarcamos na naú furada da modernidade, do capitalismo, da superficialidade, da globalização, não que nós embarcamos por vontade própria, não, fomos todos, todinhos mesmos, cooptados pelo sistema.
E mano nos fu.....
Amplexos revolucionários
Xico Rocha

Tozé Franco disse...

Para quem não tem veia poética....
Excelente poema. Parabéns.
Já vi a Pietá de Miguel Ângelo e é realmente uma obra prima. Quanto à Paula Rego, gosto da pintura, mas acho quer lhe falta qualquer coisa, no que diz respeito às representações religiosas.
Quanto à última não a conhecia, mas gostei.
Um abraço

Flávia disse...

as Pietás habitam em nós, sejamos homens ou mulheres. Todos, nesse mundo de violência e insanidade, temos lágrimas a chorar por um "filho" perdido.

Beijo, moço.

Amanda Bia disse...

que lindo seu poema! é muito triste isso, deveria ser proibido os filhos partirem antes dos pais!
beijos!

citadinokane disse...

Elvira,
Que bela história a do teu marido...
A violência dos jovens é assustadora, aqui e em qualquer lugar do mundo.
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Lidiane,
O pulso ainda pulsa...
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

É Xico!
Essa "tar" de globalização é fogo!

citadinokane disse...

Tozé,
Somos todos lusitanos na emoção.
E vou te confessar mais uma coisa, não posso ver ninguém chorando, fico com vontade de chorar... ahahaha... Sério!
Obrigado pelo incentivo, meu irmão!
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Oi Flavinha!
E temos muitas lágrimas...
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Bia,
Concordo contigo.
Beijos,
Pedro

Mixikó disse...

Pedro,
concordo...para quem não tem veia poética, está muito bom...os meus parabéns.

Sente-se a emoção no que escreveste.A vida por x é memso muito injusta,e entaõ para uma mãe que perde um filho por causa de uma bala perdida...o sentimento de revolta deve ser tanto que se esmaga no silêncio da dor...o`silêncio...esse silêncio é o pior de todos os gritos...é como se de repente secasse tudo o que temos por dentro e só restasse...essa dor.

Pedro,desejo-te um ano novo com paz..muita paz,saúde e amor

citadinokane disse...

Mixikó,
E quando resta a dor, só o amor serve de bálsamo e o tempo cicatrizante...
beijos,
Pedro