domingo, janeiro 13, 2008

Quando a gente chega aos 40 anos...

"Quando a gente chega aos 40 anos, não suporta mais patrulhamento ideológico... e outras coisinhas mais..."
Fiquei pensando sobre isso durante toda semana.
Aí a pessoa chegou comigo e lembrou que eu tenho um amigo "tucano"... e continuo tagarelando, quis me convencer que "honestidade" é um valor burguês, portanto, mais valia a pena, alguém que rompesse com os padrões burgueses, avançando nas conquistas sociais, do que o político que administra tudo "certinho", "honestamente", mantendo a exploração capitalista...
Posso dizer, que fiquei incomodado com essa visão, e a pessoa que pensei inteligente, apresenta uma estreiteza de horizontes...
Passei a refletir tomando como referência um papo que bati com um amigo. Por uma questão de respeito, não citarei o nome do meu amigo, ele é advogado, grande advogado, estudamos juntos e compartilhamos muitas alegrias, compartilhamos utopias, e ideologias... ainda compartilhamos, mas... nós somos ultrapassados! O quê?! Não sou eu quem diz que somos ultrapassados. Deixa explicar melhor, aconteceu com o meu amigo, algo muito parecido que aconteceu comigo.
Ele tem um irmão, que era super engajado, politicamente falando, era "safo", participava dos movimentos sociais, na universidade era membro de centro acadêmico e DCE e sabia "Marx" pra cacete! Eu o conheci, e considerava que ele lutava o "bom combate"...
Eu e o meu amigo também participávamos dessas lutas, mas não tínhamos patentes de generais e nem queríamos... A luta árdua pela nossa própria sobrevivência, acabava tomando um tempo que dificultava acompanharmos as linhas de frente da disputa política, parecia aos olhos dos mais engajados, um deslize pequeno-burguês, um egoísmo engendrado pelas nossas contradições de classe. Ressalto, inexistentes, não éramos burgueses... Apenas porque tínhamos umas "latas velhas", pronto, lá vão os burgueses!
Ah! ia esquecendo, nós éramos dois caretas, a gente não fumava pôrra-nenhuma, e nem achava feio quem fumasse, cada um na sua... E tudo corria bem, desde que não falassem mal da nossa cevada, a paz reinava esplendorosa.
Mas, a gente percebia que olhavam torto pra nós...
O irmão engajado desse meu amigo, uma vez disse para ele: - Tu és um tremendo burguesão! Nem te entrosas com a turma... És de esquerda, mesmo?! Estás ultrapassado!
Sempre trocávamos impressões sobre esses revolucionários... Parecia que Canãa, para eles, estava ali na esquina.
Um dia desses, o meu amigo me confidenciou, que o irmão dele(o cara engajado, lembra?) estava doente, apareceu um tumor no cérebro... sabe quem bancou todo o tratamento? O cara que era chamado de burguesão. Não somente, bancou o tratamento, como viajou com o irmão para São Paulo e ficou no hospital como acompanhante, sofrendo e rezando pela vida do revolucionário.
Hoje, eu e o meu amigo, continuamos acreditando que a vida é bem mais que rótulos: esquerda e direita. É claro que ninguém é ingênuo pra dizer que não existem interesses de classes, mas não é possível pautarmos uma existência, achando que tudo que existe, existe em função de um interesse burguês ou proletariado. Existem questões de gênero e minorias, que não se encaixam muito bem nessa leitura maniqueísta, o velho discurso - virtudes dos adversários são defeitos, e vícios dos aliados, são virtudes...
CHEGA!!!
A imagem acima do Recruta Zero dando língua, é a melhor tradução do concretismo das minhas palavras, minha língua e do Zero são adagas enfiadas no peito do cinismo utilitarista deste início de milênio...
Ah! ia esquecendo, os meus amigos escolho pelas emoções que provocam em mim, não faço amizade como quem vai a um supermercado e pega o produto e olha as indicações na embalagem e depois se dirige ao caixa para pagar.
Não tenho amigo canalha e nem tampouco cafajeste.
Pra não esquecer:
"Com um só toque de amor,
todos
se transformam em poetas"(Platão)
Como ia dizendo no início do post, depois que a gente chega aos 40, odeia ser policiado...



18 comentários:

elvira carvalho disse...

E eu que já ultrapassei os 60 nem queira saber o que já vi nesta minha passagem pela vida.
Um abraço e uma boa semana.
Ah! esqueci o mais importante. Gostei do post, se me deixar subscrevo por baixo

Osc@r Luiz disse...

AH, meu irmão...
Pois eu cheguei aos 38 no sábado e já estou ficando apavorado com essa possibilidade. Hahahaah!
Abração!
Saudades.

edyrap.bel disse...

Parabéns! Tenho 53, perto dos 54. Mas lembro que, no dia em que completei 40 anos, estava meio triste, pensando na famosa "casa dos enta", e meu pai entrou na sala onde estava. Perguntou a razão de meu baixo astral. Quando lhe disse, me respondeu: Puxa, quando eu tinha 40 anos, era tão novo!
Foi uma grande lição, que não esqueço.
Abs

IGOR Normando disse...

Muito bom esse texto cara, ainda tenho 20 ...só faltam + 20.. porem penso devidamente igual a voce meu amigo

Kaká disse...

É, minha irmã fez discurso parecido no aniversário de 40 dela...

Mas sabe... Vou usar de poesia: TUDO VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA.
Inclusive ignorar os pseudo-idealismos baratos!

beijo

citadinokane disse...

Elvira,
Pode assinar querida.
Beijos

citadinokane disse...

Pô Oscar!
38?! Há pelo menos 5 anos que o ponteiro não sai do 38, hein?!
Tô com saudades de ti, mermão!

citadinokane disse...

Edyr,
O teu pai era muito sábio... E aí fica a lição para todos nós, compartilhaste sem cobrar um denário, ahahaha... Obrigado irmão!
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Ei Igor!
O tempo corre pra todo mundo...
O importante é o amor que a gente leva no coração, ajuda a separar o joio do trigo, podes ter certeza cara!
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Kaká,
Tens razão, tudo valeu a pena!
Abraços,
Pedro

Anônimo disse...
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Anônimo disse...
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Lia Noronha disse...

Com tempo adquirimos mais e mais sabedoria...o chato é perder a memória!rs
Adorei td por aqui...vou t elinkar,ok?
Abraços mil

citadinokane disse...

Lia,
A gente aprende sempre... o tempo é implacável! Tem gente que só aprende com a dor, mas o que fazer? É a vida...
Pode linkar aí que eu te linko aqui, ok?
Beijos,
pedro

citadinokane disse...
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citadinokane disse...
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Bruno Vieira disse...

Nelito,

Quarenta e quanto???
Responde vai !!

citadinokane disse...

Fala Bruno!
Respondo sim, tenho quarenta e todo sentimento do mundo... Se não for suficiente, deixo-te o poema de Drummond, acho que completará a minha resposta, ok?!

"Sentimento do mundo(Carlos Drummond de Andrade)

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite."

E aí mermão tá respondido?!
Qualquer coisa marque uma horinha comigo que eu te explico tudo, tim-tim por tim-tim...
Abraços,
Pedro