domingo, março 23, 2008

Amo Belém!

Já viajei muito, mas todas às vezes que me afastei de Belém, invadiu-me um sentimento de abandono e uma saudade danada da minha cidade...
Minha filha reproduz bem esse sentimento, estávamos passando férias no Rio de Janeiro, ela chegou comigo e disse: - Pai tô morrendo de saudades da nossa casa, quando a gente vai voltar?!
Estava em Havana, degustando no Floridita o daiquiri de Hemingway, no início cheio de empolgação, depois de três daiquiris, dois mojitos e cinco margueritas, fiquei sentadinho, lembrando de Ruy Barata, Waldemar Henrique, Nilson Chaves... Comecei a chorar em silêncio, minha raiz é forte, sou pronvinciano mesmo! saudades de tudo, do cheiro de patchouli, do açaí, tacacá... até do Ver-o-peso! Ahahaha...
Gostar de Belém é fácil, adoro esse lugar, apesar dos oportunistas que tratam mal a cidade, esqueço tudo quando ando pelos túneis de mangueiras, quando a chuva molha os nossos telhados e obriga à todos parar um pouquinho... só um pouquinho... chuva da tarde é rápida, e sol se "alevanta" de novo!
Fui beber uma água mineral no "Café da Sol Informática" e li no cardápio um texto de Mário de Andrade para o poeta Manuel Bandeira sobre a cidade de Belém, vou compartilhar um pedaço do texto, e concordo com Mário de Andrade - amo Belém como se amasse uma mulher... Ah! como é "bão" meudeus...
"[...]
Porém me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrace em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí, você que conhece o mundo, conhece coisa melhor do que isso, Manu?
Me parece impossível. Olha que tenho visto bem coisas estupendas.
Vi o Rio em todas as horas e lugares, vi a Tijuca e a Stª Teresa de você, vi a queda da Serra para Santos, vi a tarde de sinoa em Ouro Preto e vejo agorinha mesmo a manhã mais linda do Amazonas. Nada disso que lembro com saudades e que me extasia sempre ver, nada desejo rever como uma precisão absoluta fatalizada do meu organismo inteirinho. [...]
Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim. E como já falei, sentar de linho branco depois da chuva na terrace do Grande Hotel e tragar sorvete, sem vontade, só para agir. (Trecho da Carta de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, junho, 1927)"

21 comentários:

Carlos Ponte disse...

Gostei de ouvir a sua alma lusitana a falar, amigo Pedro.
Tem razão. O chamamento do torrão natal...
Um abraço do tamanho do Pará.

Lívia García disse...

Fascinante Pedro! Eu entendo bem o seu amor por Belém, sou do Mato Grosso, e muito provinciana também, estou morando em Curitiba, e só Deus sabe quanta falta eu sinto do clima quente, das chuvas a tarde, e do povo receptivo, o sul não tem isso, o suldeste pensa que tem, o centro-oeste, minha terra, tem. e em vocês, do norte, sobra. sobra calor, não só no clima, nos modos, no carinho, tenho vários amigos em Belém, concordo com o seu texto sem sombra de dúvida, ainda vou visitar a sua terra e escrever alguma coisa perto da realidade que o Mário de Andrade disse. Um beijão!

Codinome Beija-Flor disse...

Ah! É lindo, mais lindo ainda é ver o que você sente.
Bjos nesse coração.

Mari disse...

A nossa histórica Belém não deixa a desejar. Ao se afastar dela, já bate uma saudade...

Beijos pra ti e nossa Belém!

Lorita disse...

Olá querudo Pedro!
Me encanta tua paixºao pela tua cidade, queria sentir o mesmo por algum lugar, mas ainda não criei raízes e isso me deixa um bocado triste e sem ter de fato um porto seguro.

bjm e fica bem na tua Belém!

citadinokane disse...

Carlos,
Deve ser por isso que gosto tanto de Fado, não?
Dentro desse abraço cabem muitos Portugais... o Pará é grande!
Abraços,
Pedro

citadinokane disse...

Lívia,
Quando estiveres aqui, iremos desvendar alguns lugares maravilhosos...
Sempre bem vinda querida.
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Beija-flor,
Soy loco...
Beijos,
Pedro

citadinokane disse...

Mari,
Por que somes?
Bjs,
Pedro

citadinokane disse...

Aline,
Acho que é o tipo de amor que a gente não lava a camisa que tem o cheiro do abraço dado pela pessoa amada... Sempre juntinho, né?
Amo esta cidade!
Beijos,
Pedro

Rafaela Palmeira disse...

Eu amei esse texto também quando estive no café da Sol, que eu adoro, e li. :)

Já critiquei bastante a nossa cidade provinciana, e já me arrependi por isso também. Amo nossa terrinha, e me orgulho dela.

É certamente um lugar do qual eu pretendo sim, sair um dia, mas com toda a certeza, voltar depois... e ficar.

lindo texto, retrata muito bem a cidade.
beijos

citadinokane disse...

Oi Rafa!
Que bom te ver por aqui.
Já fui e voltei, talvez ano que vem eu me ausente por um semestre da nossa cidade, mas, com certeza a levarei no meu coração... eternamente Belém!
Beijos,
Pedro

David Carneiro disse...

Eu que o diga nessa distância querido amigo! Um grande abraço

citadinokane disse...

Fala Irmão!
Te abraço fraternalmente, ok?
Abraços,
Pedro

Anônimo disse...

Concordo Caro Panda...
Ontem mesmo, fui surpreendido por dentro de uma ressaca branda, que incontinente foi curada pela feliz algazrra de um bando de periquitos verdinhos, que da centenária e gigantesca samaúmeira do CAN chegaram das ilha da Onças, após atravessarem a caldolosa baia do Guajará em vôo cheio d picardia. Só aqi mesmo... ( E. Bueres

citadinokane disse...

Bueres,
Só aqui mesmo!
Picardia e Ilhas das Onças... ahahaha...
Abraços companheiro,
Pedro

Mami disse...

Caro Pedro,

É fantástico falar com a alma sobre nossas raizes. Sou como a maioria que se enquadra neste comentário "...quando você ver alguém cheio de paneiro ou isopor no aeroporto, com certeza é um paraense levando as guloseimas regionais para amigos; quando você ver alguém chorando em um aeroporto, com certeza é um paraense doido para voltar para casa".
A própria ocupação territorial desodernada de Belém mostra isso este apego a nossas coisas - o imigrante do interior quando vem morar em Belém procura sempre ocupar espaços próximos às águas (canal, rio, igarápé), ele precisa sentir o bater das águas em sua casa, ou pelo menos sentir o cheiro do rio; ao contrário, o imigrante nordestino, procura ocupar outros espaços urbanos, sem este chamamento das águas, cheiros e sabores.
Os dias de chuvas, o cheiro da chuva e a cidade lavada por ela é inesquecível a qq memória emocional.
Abs, MAMI

citadinokane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
citadinokane disse...

Mami,
Morei um bom tempo em casa, quintal, chuva, cheiro de terra...
Confesso o que sempre me impressionou (a criança em mim), não esqueço das férias que passava no Marajó, as canoas, as águas, acertaste Mami, essas águas batem sempre em meu coração...
Dalcídio Jurandir era lá da terra dos meus pais no Marajó - Ponta de Pedras, em "Chove nos Campos de Cachoeira" dizia: "Quantas covas a abrir no seu passado. Uma infâmia doentia, infeliz. Certos desejos, certos sonhos, as inquietações obscuras da adolescência. Os primeiros desenganos ruins demais para a sua sensibilidade, ou melhor, para a sua irritabilidade. Mas enterrara tudo sem saber se estava morto ou não. Daí o seu silêncio de exumação. Obsessão de rever as ossadas, os vestígios de certos sonhos, certos desejos que mal se completaram, como fetos, na sua mocidade solitária e inútil. Talvez no meio das ossadas algum esqueleto esteja contorcido, denunciando um despertar de cataléptico no fundo da cova fechada. Via contorsões desesperadoras dentro de seu passado. Para que o enterrara assim? Tudo foi entulhado pela náusea de si mesmo. Os sonhos vieram abaixo como paredões desabados."
São as lembranças que habitam o porão da alma...
Ah, Mami... Não sou bom nisso não... Sou frouxo para as emoções que jorram. Despertam tantas fragilidades... argh!!! Deixa pra lá!
Abraços,
Pedro

mari disse...

Pedro,

Meu "sumiço" se deve ao teu...

Bjs

citadinokane disse...

Mari,
Não estou te entendendo, o que é que há, diga lá?! Conte as histórias das pessoas...
Bjs,
Pedro