terça-feira, setembro 09, 2008

Vai minha tristeza...

A minha nada interessante existência traz algumas lembranças que quero compartilhar com os parceiros bloguistas.
Passei um ano no meio da selva amazônica, eu estou dizendo um ano inteirinho, viu?! Não é fácil mermão! Fui pra lá porque precisava ganhar uns trocados...
Eram os anos oitenta, tinha acabado de ser aprovado no vestibular, logo no início das aulas estourou uma greve, moleza né?!
Eu era Técnico em Mecânica e pintou uma proposta de emprego no jornal, para a área da minha formação, empresa de mineração na Selva do Xingu, o salário muuuiiito bão... não deu outra, peguei a minha mochila e meti a cara no mato, literalmente.
Não tinha noção do que me esperava, cheguei em Altamira num vôo de avião grande, muito confortável. Depois de recepcionado pelas pessoas da empresa, fui conduzido até uma aeronave pequena, um teco-teco... na verdade era um monomotor, bem pequeno... Foi horrível a viagem, olhava para baixo e horizonte, só enxergava verde, a floresta amazônica era um oceano verde a perder de vista, ficava imaginando um bocado de besteira, pensei: - Se o avião cair, sobrevivendo da queda, com certeza serei presa fácil das onças, jaguatiricas e sucuris... Ai Jesus!!!
Não lembro na minha vida de ter rezado tanto.
Quando o avião pousou, resisti em sair do mesmo, eu estava no meio da Selva, estou dizendo Selva!
Já estava morrendo de saudades dos amigos e família, não suportaria muito tempo, mas era valente e não daria um passo atrás, iria resistir e vencer o desafio...
Não irei aprofundar os meus dias no inferno verde - Amazônia.
Gostaria de deixar o registro musical dessa vivência, ok?

Continuarei, só um pouquinho mais.

A malária matava, eu sabia, e resolvi levar a vida sem pensar muito nisso, ia desbravando a mata com um pouco de medo das onças e cobras, posso dizer que respeitava a natureza.
Quando anoitecia e tudo silenciava, eu aprendia a amar a música de João Gilberto e isso acalmava o meu coração... E dentre muitas músicas, inesquecível para mim - "Chega de Saudade", ela traduzia minha tristeza... os meus sentimentos.
Sei que uma das mulheres de Vinicius de Moraes odiava os "peixinhos a nadar no mar" e "os beijinhos que eu darei na sua boca", mas eu adorava o violão e o modo de cantar jazzístico de João Gilberto. Cada letra, palavra cantada por ele me preenchia totalmente...
Quantas vezes João, me pegava sonhando voltando pra casa ao som de "Chega de Saudade"?

"Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser,
diz-lhe, numa prece
Que ela regresse, porque eu não posso Mais sofrer.
Chega, de saudade
a realidade, É que sem ela não há paz,
não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai..."
(Vinicius de Moraes)

4 comentários:

elvira carvalho disse...

Que texto bonito. E que grande recordação para o resto da vida.
Um abraço

Anônimo disse...

Pedrito,
Tu "respeitavas a natureza????"
Estavas te fazendo de medo mermão.
Um abraço

citadinokane disse...

Elvira,
Só recordações... snif, snif...

citadinokane disse...

Anônimo,
Mas que coisa!
Respeitava e respeito.
E sem medo, ok?